Avançar para o conteúdo principal

Destaque do Universo do Ciclismo e dos Desportos de Raquetes

McNulty ganhou sozinho, mas o Mundial foi ganho por uma equipa

António Vieira Pacheco 29 de setembro de 2026 Direitos Reservados — EMM Tempo de leitura: 4 min Crédito: Direitos Reservados T odos por um Brandon McNulty levantou os braços sozinho em Montreal. Mas o título mundial norte-americano começou muito antes daquele momento. A seleção dos Estados Unidos conseguiu algo que nem sempre aparece nos resultados: colocou os interesses individuais de lado e trabalhou para um único objetivo. Levar McNulty até ao momento certo. E funcionou. O norte-americano tornou-se campeão mundial de estrada, dando aos Estados Unidos o primeiro título mundial masculino de elite em mais de três décadas. Sem egos A expressão usada pelos próprios protagonistas resume a estratégia: os corredores colocaram os egos de lado. Num Mundial com 273,3 quilómetros, inúmeras subidas e um grupo de favoritos que não parava de olhar uns para os outros, a seleção norte-americana percebeu que precisava de jogar em equipa. Não bastava ter um corredor capaz de...

McNulty campeão do Mundo: os Estados Unidos ganharam onde os favoritos falharam

🖋️ António Vieira Pacheco · 📅 28 de setembro 2026 · 📸 Direitos Reservados · ⏱️ 4 min · 🌱EMM

Noerte-amaericano aprendeu a lição com Tadej.


Brandon McNulty é o novo campeão do mundo de estrada. O norte-americano atacou a 33 quilómetros da meta, abriu espaço aos perseguidores e resistiu até ao fim em Montreal, conquistando uma camisola arco-íris que há décadas escapava ao ciclismo dos Estados Unidos.

Mas reduzir a vitória de McNulty ao ataque final seria contar apenas metade da história.

O título mundial começou a ser construído muito antes do corredor da UAE Team Emirates-XRG aparecer sozinho na frente. Foi construído por uma seleção norte-americana que percebeu algo essencial numa corrida de 273 quilómetros: quando a força individual não chega para controlar todos os movimentos, o número e a inteligência podem fazer a diferença.

E foi precisamente isso que aconteceu.

A estratégia norte-americana havia sido definida pelo selecionador Michael Creed antes da partida. A ideia era simples: a equipa deveria ter representantes no grupo da frente.

Quando McNulty lançou o ataque decisivo, a duas voltas e meia do final, havia três norte-americanos num grupo de apenas 15 corredores.

Era uma vantagem que nenhuma outra seleção conseguia apresentar naquele momento da corrida.

Matteo Jorgenson teve um papel fundamental. Habituado a trabalhar para outros líderes na Visma, o norte-americano colocou essa experiência ao serviço da seleção e respondeu aos movimentos dos adversários, retirando espaço a quem pudesse ameaçar a estratégia da equipa.

Quinn Simmons fez aquilo que melhor sabe fazer: atacar.

E McNulty esperou pelo momento certo.

Quando surgiu a oportunidade, saiu.

A corrida partiu-se

A ausência de Tadej Pogačar alterou completamente o cenário esperado para o Mundial de Montreal. Sem o campeão em título, desapareceram algumas das referências habituais e a corrida tornou-se muito mais aberta.

Os ataques sucederam-se.

Não houve um único corredor capaz de impor uma ordem clara à corrida por longos períodos. Pelo contrário: as seleções foram obrigadas a responder constantemente aos movimentos dos adversários.

Foi nesse ambiente que os Estados Unidos encontraram a situação perfeita.

McNulty atacou a 33 quilómetros da chegada. Durante alguns instantes, os perseguidores hesitaram. E numa prova deste nível, alguns segundos de hesitação podem transformar-se rapidamente numa diferença impossível de recuperar.

A vantagem cresceu.

Quando faltavam duas voltas, McNulty já tinha cerca de um minuto de vantagem.

A partir daí, o Mundial começou a ter dono.

        Os favoritos ficaram pelo caminho

A corrida de Montreal também foi marcada pela queda de vários dos principais candidatos.

Paul Seixas, uma das grandes revelações da prova, chegou a pensar na conquista do título. O francês de apenas 20 anos esteve entre os protagonistas durante boa parte da corrida, mas pagou caro pelo esforço acumulado.

Na última volta, sofreu com cãibras e acabou por terminar na 15.ª posição.

Remco Evenepoel teve uma tarde ainda mais complicada.

O belga começou a acusar dificuldades a cerca de 70 quilómetros da meta e chegou a perder contacto. Ainda tentou reagir e atacou a uma volta do final, mas já não tinha pernas para discutir as medalhas.

Terminou em 12.º.

Era uma classificação muito distante do que se esperava de um dos principais candidatos.

Isaac del Toro era outro dos nomes apontados à luta pelo título.

O mexicano, vencedor do Grand Prix Cycliste de Montréal duas semanas antes, mostrou novamente capacidade para subir a Voie Camillien-Houde e chegou a dar a sensação de poder discutir a vitória com Seixas.

Mas a corrida cobrou-lhe a factura.

Quando McNulty saiu, Del Toro ficou condicionado pela situação da própria seleção e pelos esforços que tinha acumulado durante a prova. No sprint pelo segundo lugar, acabou por terminar em quinto.

O título estava cada vez mais distante.

Van der Poel nunca desiste

Mathieu van der Poel voltou a provar porque não pode ser eliminado de uma lista de candidatos antes de uma corrida do Campeonato do Mundo.

Antes da prova, o neerlandês tinha admitido que o percurso de Montreal estava próximo do limite das suas capacidades.

Depois, fez aquilo que poucos esperariam.

Atacou a quase 100 quilómetros da meta.

Van der Poel passou largos quilómetros à frente, numa fuga que chegou a parecer perigosa. Foram quase 70 quilómetros de esforço até ser alcançado.

Mas a corrida ainda não tinha terminado para o neerlandês.

Depois de ser alcançado, manteve-se na luta e acabou por conquistar a medalha de bronze no sprint final, atrás do australiano Michael Matthews.

Não foi uma medalha caída do céu.

Foi uma medalha construída à força.

Pidcock ficou a dez segundos

Tom Pidcock também esteve perto de mudar a história da corrida.

O britânico sofreu uma queda durante a prova. No entanto, recuperou e apareceu muito forte nas duas últimas voltas.

Na última subida da Voie Camillien-Houde, Pidcock lançou um ataque poderoso e chegou a aproximar-se de McNulty.

A diferença caiu para apenas 10 segundos.

Era o momento em que o campeão americano podia começar a sentir a ameaça.

Mas Pidcock olhou para trás e não encontrou quem o ajudasse.

A oportunidade desapareceu.

McNulty recuperou o controlo e Pidcock acabou por terminar na sétima posição.

Uma equipa, não apenas três corredores

O mais impressionante na vitória norte-americana foi precisamente o que muitas vezes passa despercebido quando um corredor cruza sozinho a linha de meta.

McNulty ganhou.

Mas não ganhou sozinho.

Simmons acompanhou o ataque de Van der Poel durante uma parte importante da corrida. Jorgenson assumiu depois um papel fundamental na neutralização das ameaças. McNulty ficou reservado para o momento decisivo.

A seleção norte-americana conseguiu fazer aquilo que várias das grandes favoritas não conseguiram: colocar os seus corredores ao serviço de uma estratégia comum.

No final, McNulty conquistou a camisola arco-íris, Simmons terminou em quarto e Jorgenson em oitavo.

Três norte-americanos entre os oito primeiros.

É difícil encontrar uma demonstração mais clara da importância da estratégia numa corrida deste nível.

Trinta e três anos depois

A vitória tem ainda um significado especial para o ciclismo norte-americano.

O último campeão do Mundo de estrada de elite masculino dos Estados Unidos tinha sido Lance Armstrong, em 1993, em Oslo.

Mais de três décadas depois, McNulty voltou a colocar os Estados Unidos no topo da prova.

A comparação histórica, contudo, termina aí. McNulty construiu o seu percurso de forma muito diferente.

Ainda júnior, tornou-se campeão mundial de contrarrelógio em 2016. Em vez de saltar imediatamente para o ciclismo europeu, permaneceu nos Estados Unidos mais algum tempo, passando pela Rally antes de chegar ao WorldTour em 2020.

Essa espera acabou por fazer parte da sua história.

Agora, aos 28 anos, McNulty tem aquilo que nenhum currículo consegue esconder: uma camisola arco-íris.

Montreal teve dono americano

O Mundial de Montreal parecia destinado a ser decidido pela força de um dos grandes nomes do pelotão.

Não foi.

Pogačar não esteve presente. Evenepoel não conseguiu lutar pelo pódio. Del Toro ficou em quinto. Pidcock foi sétimo. Van der Poel conseguiu o bronze, depois de uma corrida enorme.

E McNulty apareceu no momento em que era preciso.

O norte-americano atacou.

Os adversários hesitaram.

Jorgenson e Simmons fizeram o resto.

Num Mundial tão aberto e caótico, os Estados Unidos perceberam antes dos outros que não era obrigatório ter o corredor mais forte para ganhar. Era necessário saber quando atacar, quem proteger e, sobretudo, como correr em equipa.

Em Montreal, essa diferença valeu uma camisola arco-íris.


Comentários