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McNulty campeão do Mundo: os Estados Unidos ganharam onde os favoritos falharam
🖋️ António Vieira Pacheco · 📅 28 de setembro 2026 · 📸 Direitos Reservados · ⏱️ 4 min · 🌱EMM
Brandon McNulty é o novo campeão do mundo de estrada. O norte-americano atacou
a 33 quilómetros da meta, abriu espaço aos perseguidores e resistiu até ao
fim em Montreal, conquistando uma camisola arco-íris que há décadas escapava ao
ciclismo dos Estados Unidos.
Mas reduzir a vitória de
McNulty ao ataque final seria contar apenas metade da história.
O título mundial começou a ser
construído muito antes do corredor da UAE Team Emirates-XRG aparecer sozinho
na frente. Foi construído por uma seleção norte-americana que percebeu algo essencial numa corrida de 273 quilómetros: quando a força individual não
chega para controlar todos os movimentos, o número e a inteligência podem fazer
a diferença.
E foi precisamente isso que aconteceu.
A estratégia norte-americana havia sido definida pelo selecionador Michael Creed antes da partida. A ideia
era simples: a equipa deveria ter representantes no grupo da
frente.
Quando McNulty lançou o ataque
decisivo, a duas voltas e meia do final, havia três norte-americanos num
grupo de apenas 15 corredores.
Era uma vantagem que nenhuma
outra seleção conseguia apresentar naquele momento da corrida.
Matteo Jorgenson teve um papel
fundamental. Habituado a trabalhar para outros líderes na Visma, o
norte-americano colocou essa experiência ao serviço da seleção e respondeu aos
movimentos dos adversários, retirando espaço a quem pudesse ameaçar a estratégia
da equipa.
Quinn Simmons fez aquilo que
melhor sabe fazer: atacar.
E McNulty esperou pelo momento
certo.
Quando surgiu a oportunidade,
saiu.
A corrida partiu-se
A ausência de Tadej Pogačar
alterou completamente o cenário esperado para o Mundial de Montreal. Sem o
campeão em título, desapareceram algumas das referências habituais e a corrida
tornou-se muito mais aberta.
Os ataques sucederam-se.
Não houve um único corredor
capaz de impor uma ordem clara à corrida por longos períodos. Pelo
contrário: as seleções foram obrigadas a responder constantemente aos
movimentos dos adversários.
Foi nesse ambiente que os
Estados Unidos encontraram a situação perfeita.
McNulty atacou a 33
quilómetros da chegada. Durante alguns instantes, os perseguidores hesitaram. E
numa prova deste nível, alguns segundos de hesitação podem transformar-se
rapidamente numa diferença impossível de recuperar.
A vantagem cresceu.
Quando faltavam duas voltas,
McNulty já tinha cerca de um minuto de vantagem.
A partir daí, o Mundial
começou a ter dono.
Os favoritos ficaram pelo caminho
A corrida de Montreal também
foi marcada pela queda de vários dos principais candidatos.
Paul Seixas, uma das grandes
revelações da prova, chegou a pensar na conquista do título. O
francês de apenas 20 anos esteve entre os protagonistas durante boa parte da
corrida, mas pagou caro pelo esforço acumulado.
Na última volta, sofreu com
cãibras e acabou por terminar na 15.ª posição.
Remco Evenepoel teve uma tarde
ainda mais complicada.
O belga começou a acusar
dificuldades a cerca de 70 quilómetros da meta e chegou a perder contacto.
Ainda tentou reagir e atacou a uma volta do final, mas já não tinha pernas para
discutir as medalhas.
Terminou em 12.º.
Era uma classificação muito distante do que se esperava de um dos principais candidatos.
Isaac del Toro era outro dos
nomes apontados à luta pelo título.
O mexicano, vencedor do Grand
Prix Cycliste de Montréal duas semanas antes, mostrou novamente capacidade para
subir a Voie Camillien-Houde e chegou a dar a sensação de poder discutir a
vitória com Seixas.
Mas a corrida cobrou-lhe a
factura.
Quando McNulty saiu, Del Toro
ficou condicionado pela situação da própria seleção e pelos esforços que tinha
acumulado durante a prova. No sprint pelo segundo lugar, acabou por terminar em
quinto.
O título estava cada vez mais
distante.
Van der Poel nunca desiste
Mathieu van der Poel voltou a
provar porque não pode ser eliminado de uma lista de candidatos antes de uma
corrida do Campeonato do Mundo.
Antes da prova, o neerlandês
tinha admitido que o percurso de Montreal estava próximo do limite das suas
capacidades.
Depois, fez aquilo que poucos
esperariam.
Atacou a quase 100 quilómetros
da meta.
Van der Poel passou largos
quilómetros à frente, numa fuga que chegou a parecer perigosa. Foram quase 70
quilómetros de esforço até ser alcançado.
Mas a corrida ainda não tinha
terminado para o neerlandês.
Depois de ser alcançado,
manteve-se na luta e acabou por conquistar a medalha de bronze no sprint
final, atrás do australiano Michael Matthews.
Não foi uma medalha caída do
céu.
Foi uma medalha construída à
força.
Pidcock ficou a dez segundos
Tom Pidcock também esteve
perto de mudar a história da corrida.
O britânico sofreu uma queda
durante a prova. No entanto, recuperou e apareceu muito forte nas duas
últimas voltas.
Na última subida da Voie
Camillien-Houde, Pidcock lançou um ataque poderoso e chegou a aproximar-se de
McNulty.
A diferença caiu para apenas 10
segundos.
Era o momento em que o campeão
americano podia começar a sentir a ameaça.
Mas Pidcock olhou para trás e
não encontrou quem o ajudasse.
A oportunidade desapareceu.
McNulty recuperou o controlo e
Pidcock acabou por terminar na sétima posição.
Uma equipa, não apenas três
corredores
O mais impressionante na
vitória norte-americana foi precisamente o que muitas vezes passa
despercebido quando um corredor cruza sozinho a linha de meta.
McNulty ganhou.
Mas não ganhou sozinho.
Simmons acompanhou o ataque de
Van der Poel durante uma parte importante da corrida. Jorgenson assumiu depois
um papel fundamental na neutralização das ameaças. McNulty ficou reservado para
o momento decisivo.
A seleção norte-americana
conseguiu fazer aquilo que várias das grandes favoritas não conseguiram:
colocar os seus corredores ao serviço de uma estratégia comum.
No final, McNulty conquistou a
camisola arco-íris, Simmons terminou em quarto e Jorgenson em oitavo.
Três norte-americanos entre os
oito primeiros.
É difícil encontrar uma
demonstração mais clara da importância da estratégia numa corrida deste nível.
Trinta e três anos depois
A vitória tem ainda um
significado especial para o ciclismo norte-americano.
O último campeão do Mundo de
estrada de elite masculino dos Estados Unidos tinha sido Lance Armstrong, em
1993, em Oslo.
Mais de três décadas depois,
McNulty voltou a colocar os Estados Unidos no topo da prova.
A comparação histórica,
contudo, termina aí. McNulty construiu o seu percurso de forma muito diferente.
Ainda júnior, tornou-se
campeão mundial de contrarrelógio em 2016. Em vez de saltar imediatamente para
o ciclismo europeu, permaneceu nos Estados Unidos mais algum tempo,
passando pela Rally antes de chegar ao WorldTour em 2020.
Essa espera acabou por fazer
parte da sua história.
Agora, aos 28 anos, McNulty
tem aquilo que nenhum currículo consegue esconder: uma camisola arco-íris.
Montreal teve dono americano
O Mundial de Montreal parecia
destinado a ser decidido pela força de um dos grandes nomes do pelotão.
Não foi.
Pogačar não esteve presente.
Evenepoel não conseguiu lutar pelo pódio. Del Toro ficou em quinto. Pidcock foi
sétimo. Van der Poel conseguiu o bronze, depois de uma corrida enorme.
E McNulty apareceu no momento
em que era preciso.
O norte-americano atacou.
Os adversários hesitaram.
Jorgenson e Simmons fizeram o
resto.
Num Mundial tão aberto e
caótico, os Estados Unidos perceberam antes dos outros que não era obrigatório
ter o corredor mais forte para ganhar. Era necessário saber quando atacar,
quem proteger e, sobretudo, como correr em equipa.
Em Montreal, essa diferença
valeu uma camisola arco-íris.
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