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Ana Caramelo: “Enquanto sentir que posso evoluir, vou continuar a estabelecer novos desafios”

  🖋️ António Vieira Pacheco · 📅 17 julho 2026 · 📸 Direitos Reservados · ⏱️ 5 min · 🌱EMM

Ana Caramelo é campeã nacional de contrarrelógio.


No ciclismo, o cronómetro não permite esconder fragilidades. Cada segundo conquista-se à força das pernas, da cabeça e da determinação. Ana Caramelo tem feito dessa exigência uma de suas maiores virtudes.

Natural de Caria, no concelho de Belmonte, a ciclista da Matos Mobility-Flexaco-IHS é uma das principais especialistas portuguesas em contrarrelógio. Campeã nacional da disciplina em 2023 e 2026, venceu também este ano a Taça de Portugal Feminina. Internacional portuguesa, já representou Portugal em campeonatos do mundo, consolidando um percurso marcado pela regularidade e evolução.

Em entrevista exclusiva ao Entrar no Mundo das Modalidades, Ana Caramelo faz o balanço da temporada, explica o trabalho que está por trás das vitórias, analisa o crescimento do ciclismo feminino em Portugal e revela as metas que continuam a impulsionar a sua carreira.


PERFIL RESUMIDO

Nome

Ana Caramelo

Data de nascimento

26 de julho de 1995

Nacionalidade 

Portuguesa

Equipa 

Matos Mobility Flexaco IHS

Especialidade

Contrarrelógio. É a disciplina na qual apresenta os melhores resultados

Entrar no Mundo das Modalidades — O que significou conquistar o título de campeã nacional de contrarrelógio?

Ana Caramelo — Conquistar o título tem sempre um significado especial. É o reconhecimento de muitas horas de treino, de sacrifício e de todo o trabalho desenvolvido longe das competições. O contrarrelógio é uma disciplina muito exigente, em que estamos sozinhos perante o relógio e não há espaço para erros. Vestir a camisola de Campeã Nacional é um orgulho e uma recompensa por todo o trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos.

EMM — Qual foi a chave para o sucesso na prova?

AC — A preparação é fundamental. Trabalhei especificamente para esta prova, preparando-me a nível psicológico, físico e técnico. Conhecer o percurso e gerir o esforço do início ao fim.

EMM — Como avalia a época até ao momento?

AC — Até ao momento faço um balanço muito positivo da minha temporada. Tenho conseguido ser consistente ao longo da época, aliás, sempre fui muito consistente desde que iniciei o ciclismo. Conquistar a Taça de Portugal, ser a melhor portuguesa na Volta a Portugal são resultados que me deixam satisfeita. Sei que há sempre aspetos a melhorar, sei que ainda consigo progredir mais na modalidade do ciclismo, e sinto que o trabalho dá os seus frutos.

EMM — Ser a melhor portuguesa na Volta a Portugal 2026 representa uma motivação extra?

AC — Sem dúvida. A Volta a Portugal é uma das provas mais importantes do nosso calendário e terminar como melhor portuguesa é motivo de orgulho. Dá confiança e mostra que estou no caminho certo, mas também aumenta a responsabilidade e a motivação para continuar a evoluir.

EMM — Como se prepara para uma prova de contrarrelógio, tanto fisicamente quanto mentalmente?

AC — A preparação começa muito antes da prova. Existe um trabalho específico em treino para desenvolver potência, resistência e posição na bicicleta. Também dedico tempo à análise do percurso e dos detalhes técnicos. Mentalmente, procuro visualizar a corrida, imaginar diferentes cenários e manter o foco apenas no que consigo controlar. No contrarrelógio, a concentração é tão importante quanto a condição física.

Ana Caramelo abre o livro ao EMM.

Ambição Internacional

EMM — Quais são os principais objetivos para o restante da temporada?

AC — Quero continuar a evoluir e a manter a consistência nas competições a que vou. Sempre que alinhar à partida, o objetivo passa por dar o meu melhor e lutar pelos melhores resultados possíveis. Também quero continuar a representar da melhor forma a minha equipa. Como o calendário feminino em Portugal é muito curto, o mais provável é agora fazer algumas provas de gravel e, quem sabe, participar na Taça de Ciclocrosse.

EMM — Representou Portugal no Campeonato do Mundo. Que impacto teve essa experiência na sua evolução como ciclista?

AC — Representar Portugal num Campeonato do Mundo foi um enorme orgulho e uma experiência que vou guardar para sempre. No entanto, também me mostrou que, para competir ao mais alto nível, é fundamental haver um trabalho de preparação prévio. No meu caso, a convocatória surgiu muito perto da prova, o que não me permitiu planear a preparação de forma adequada. Penso que, sempre que possível, as atletas devem ser informadas atempadamente, para que possam preparar-se em conjunto com os seus treinadores e chegar às competições internacionais nas melhores condições. Acredito que esse tipo de planeamento beneficia não só as atletas, mas também a própria seleção nacional.

O futuro

EMM — Sente que o ciclismo feminino português tem vindo a ganhar maior reconhecimento?

AC — Acredito que o ciclismo feminino tem vindo a crescer e a conquistar algum reconhecimento, mas ainda está longe da valorização que merece.Felizmente, o interesse pela modalidade tem vindo a aumentar e são cada vez mais as pessoas que acompanham o ciclismo feminino. Ainda assim, há muito trabalho pela frente.

EMM — O que ainda falta fazer para o ciclismo feminino ter maior visibilidade em Portugal?

AC — É preciso apostar mais na modalidade. Um dos principais problemas continua a ser o calendário, que é demasiado curto. Se queremos que o ciclismo feminino evolua, temos de dar às atletas mais oportunidades para competir. Além disso, é importante aumentar a cobertura mediática, captar mais patrocinadores e criar condições para que mais equipas possam crescer de forma sustentável.

EMM — Qual a mensagem que deixaria às jovens que sonham em seguir uma carreira no ciclismo?

AC — Que nunca deixem de acreditar nelas próprias. O caminho nem sempre é fácil e haverá momentos difíceis, mas, com trabalho, dedicação e persistência, é possível alcançar objetivos que, à partida, parecem distantes. Acima de tudo, nunca percam o prazer de andar de bicicleta.

Sempre a evoluir

EMM — O que ainda falta conquistar para sentir que cumpriu os seus objetivos na modalidade?

AC — Ainda tenho muitos objetivos por cumprir. Gostava de continuar a evoluir, representar Portugal mais vezes em grandes competições internacionais e continuar a conquistar títulos nacionais. Enquanto sentir que posso evoluir, vou continuar a estabelecer novos desafios.

EMM — Se pudesse escolher qualquer ciclista da história para disputar um contrarrelógio lado a lado, quem escolheria?

AC — Escolheria a Marlen Reusser. Sempre admirei a forma como aborda o contrarrelógio, a sua capacidade de gerir o esforço e a consistência que demonstra ao mais alto nível. É uma atleta que alia uma enorme potência a uma grande inteligência tática e seria um privilégio poder disputar um contrarrelógio ao lado dela. Tenho a certeza de que seria uma experiência única e uma oportunidade de aprender muito.

A poucos dias de completar 31 anos, Ana Caramelo continua a afirmar-se como uma das principais referências do contrarrelógio em Portugal. Com dois títulos nacionais, uma Taça de Portugal e presença no Mundial, a ciclista mantém intacta a ambição de continuar a evoluir e a representar o país ao mais alto nível. Paralelamente, deixa um apelo claro em defesa do crescimento do ciclismo feminino e defende um calendário mais alargado, maior investimento e melhores condições para que as próximas gerações tenham mais oportunidades de competir e evoluir.

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