Ana Caramelo: “Enquanto sentir que posso evoluir, vou continuar a estabelecer novos desafios”
No ciclismo, o cronómetro não permite esconder fragilidades. Cada segundo conquista-se à força das pernas, da cabeça e da determinação. Ana Caramelo tem feito dessa exigência uma de suas maiores virtudes.
Natural de Caria, no concelho de Belmonte, a ciclista da Matos Mobility-Flexaco-IHS é uma das principais especialistas portuguesas em contrarrelógio. Campeã nacional da disciplina em 2023 e 2026, venceu também este ano a Taça de Portugal Feminina. Internacional portuguesa, já representou Portugal em campeonatos do mundo, consolidando um percurso marcado pela regularidade e evolução.
Em entrevista exclusiva ao Entrar no Mundo das Modalidades, Ana Caramelo faz o balanço da temporada, explica o trabalho que está por trás das vitórias, analisa o crescimento do ciclismo feminino em Portugal e revela as metas que continuam a impulsionar a sua carreira.
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PERFIL RESUMIDO |
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Nome Ana
Caramelo |
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Data de nascimento 26
de julho de 1995 |
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Nacionalidade Portuguesa |
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Equipa Matos
Mobility Flexaco IHS |
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Especialidade Contrarrelógio. É a disciplina na qual apresenta
os melhores resultados |
Entrar no Mundo das Modalidades — O que significou conquistar o
título de campeã nacional de contrarrelógio?
Ana Caramelo — Conquistar
o título tem sempre um significado especial. É o reconhecimento de muitas horas de treino, de sacrifício e de todo o trabalho desenvolvido longe das competições. O
contrarrelógio é uma disciplina muito exigente, em que estamos sozinhos perante o
relógio e não há espaço para erros. Vestir a camisola de Campeã Nacional é um
orgulho e uma recompensa por todo o trabalho desenvolvido ao longo dos últimos
anos.
EMM — Qual
foi a chave para o sucesso na prova?
AC — A preparação é fundamental. Trabalhei especificamente para esta prova, preparando-me a nível psicológico, físico e técnico. Conhecer o
percurso e gerir o esforço do início ao fim.
EMM — Como
avalia a época até ao momento?
AC — Até
ao momento faço um balanço muito positivo da minha temporada. Tenho conseguido
ser consistente ao longo da época, aliás, sempre fui muito consistente desde
que iniciei o ciclismo. Conquistar a Taça de Portugal, ser a melhor portuguesa na
Volta a Portugal são resultados que me deixam satisfeita. Sei que há sempre
aspetos a melhorar, sei que ainda consigo progredir mais na modalidade do
ciclismo, e sinto que o trabalho dá os seus frutos.
EMM — Ser a melhor
portuguesa na Volta a Portugal 2026 representa uma motivação extra?
AC — Sem dúvida. A Volta
a Portugal é uma das provas mais importantes do nosso calendário e terminar
como melhor portuguesa é motivo de orgulho. Dá confiança e mostra que estou no
caminho certo, mas também aumenta a responsabilidade e a motivação para
continuar a evoluir.
EMM — Como se prepara
para uma prova de contrarrelógio, tanto fisicamente quanto mentalmente?
AC — A preparação começa
muito antes da prova. Existe um trabalho específico em treino para desenvolver
potência, resistência e posição na bicicleta. Também dedico tempo à análise do
percurso e dos detalhes técnicos. Mentalmente, procuro visualizar a corrida,
imaginar diferentes cenários e manter o foco apenas no que consigo
controlar. No contrarrelógio, a concentração é tão importante quanto a condição
física.
Ambição Internacional
EMM — Quais são os
principais objetivos para o restante da temporada?
AC — Quero continuar a
evoluir e a manter a consistência nas competições a que vou. Sempre que alinhar
à partida, o objetivo passa por dar o meu melhor e lutar pelos melhores
resultados possíveis. Também quero continuar a representar da melhor forma a minha equipa. Como o calendário feminino em Portugal é muito curto, o mais provável é agora fazer algumas provas de gravel e, quem sabe, participar na Taça de Ciclocrosse.
EMM — Representou Portugal no Campeonato do Mundo. Que impacto teve essa experiência na sua evolução como ciclista?
AC — Representar Portugal
num Campeonato do Mundo foi um enorme orgulho e uma experiência que vou guardar
para sempre. No entanto, também me mostrou que, para competir ao mais alto
nível, é fundamental haver um trabalho de preparação prévio. No meu caso, a convocatória surgiu muito perto da prova, o que não me permitiu planear a preparação de forma adequada. Penso que, sempre que possível, as atletas devem ser informadas atempadamente, para que possam preparar-se em conjunto com os seus treinadores e chegar às competições internacionais nas melhores condições. Acredito que esse tipo de planeamento beneficia não só as atletas,
mas também a própria seleção nacional.
O futuro
EMM — Sente que o ciclismo feminino português tem vindo a ganhar maior reconhecimento?
AC — Acredito que o ciclismo feminino tem vindo a crescer e a conquistar algum reconhecimento, mas ainda está longe da valorização que merece.Felizmente, o interesse pela modalidade tem vindo a aumentar e são cada vez mais as pessoas que acompanham o ciclismo feminino. Ainda assim, há muito trabalho pela frente.
EMM — O que ainda falta
fazer para o ciclismo feminino ter maior visibilidade em Portugal?
AC — É preciso apostar
mais na modalidade. Um dos principais problemas continua a ser o calendário, que é demasiado curto. Se queremos que o ciclismo feminino evolua, temos de dar às atletas mais oportunidades para competir. Além disso, é importante aumentar a
cobertura mediática, captar mais patrocinadores e criar condições para que mais
equipas possam crescer de forma sustentável.
EMM — Qual a mensagem que
deixaria às jovens que sonham em seguir uma carreira no ciclismo?
AC — Que nunca deixem de
acreditar nelas próprias. O caminho nem sempre é fácil e haverá momentos difíceis, mas, com trabalho, dedicação e persistência, é possível alcançar objetivos que, à partida, parecem distantes. Acima de tudo, nunca percam o prazer de andar
de bicicleta.
Sempre a evoluir
EMM — O que ainda falta
conquistar para sentir que cumpriu os seus objetivos na modalidade?
AC — Ainda tenho muitos
objetivos por cumprir. Gostava de continuar a evoluir, representar Portugal
mais vezes em grandes competições internacionais e continuar a conquistar
títulos nacionais. Enquanto sentir que posso evoluir, vou continuar a
estabelecer novos desafios.
EMM — Se pudesse escolher
qualquer ciclista da história para disputar um contrarrelógio lado a lado, quem
escolheria?
AC — Escolheria a Marlen
Reusser. Sempre admirei a forma como aborda o contrarrelógio, a sua capacidade
de gerir o esforço e a consistência que demonstra ao mais alto nível. É uma
atleta que alia uma enorme potência a uma grande inteligência tática e seria um
privilégio poder disputar um contrarrelógio ao lado dela. Tenho a certeza de
que seria uma experiência única e uma oportunidade de aprender muito.
A poucos dias de completar 31 anos, Ana Caramelo continua a afirmar-se como uma das principais referências do contrarrelógio em Portugal. Com dois títulos nacionais, uma Taça de Portugal e presença no Mundial, a ciclista mantém intacta a ambição de continuar a evoluir e a representar o país ao mais alto nível. Paralelamente, deixa um apelo claro em defesa do crescimento do ciclismo feminino e defende um calendário mais alargado, maior investimento e melhores condições para que as próximas gerações tenham mais oportunidades de competir e evoluir.
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