Marcos Freitas: "Ter o meu nome no pavilhão é uma das maiores honras da minha vida"
🖋️Por: António Vieira Pacheco
📸 Créditos: Lusa/Federação Portuguesa de Ténis/ATMM
⏱️ Tempo de leitura: 6 minutos
Hoje, Marcos Freitas celebra 38 anos de vida, construídos ponto a ponto, como cada momento decisivo numa mesa de ténis.
Desde os primeiros treinos num pavilhão da Madeira até
aos palcos internacionais, Freitas tornou-se o melhor português de sempre no
ranking mundial e deixou uma marca indelével na modalidade.
Em entrevista exclusiva ao Entrar no Mundo das Modalidades, o mesa-tenista natural do Funchal reflete sobre vitórias, desafios, o futuro do ténis de mesa em Portugal e o legado que pretende deixar às novas gerações.
Cada resposta revela não só a trajetória de um atleta de excelência, mas também a paixão e o compromisso com o desporto que moldaram a sua vida.
Homenagem e raízes
EMM — O pavilhão no Estreito de
Câmara de Lobos tem hoje o seu nome. O que sentiu quando recebeu essa
homenagem?
Marcos Freitas — Foi uma homenagem muito bonita. O
pavilhão já era um projeto falado há muitos anos e, quando ainda jogava no
Estreito, já se comentava a sua construção. Olhar para a carreira que tive e
ver o meu nome associado a este espaço é uma grande honra.
Comecei no Grupo Desportivo do
Estreito e, por isso, esta distinção tem um significado muito especial para
mim. Não é nada que aconteça todos os dias, muito menos a um mesa-tenista. O ténis de mesa ainda tem pouca visibilidade em Portugal, por isso, é motivo de grande orgulho ver que o meu percurso e os meus resultados são reconhecidos.
Ter o meu nome no pavilhão é, sem
dúvida, uma das principais honras da minha vida. Espero também que esta
homenagem possa contribuir para dar mais visibilidade ao ténis de mesa e
incentivar o crescimento da modalidade no Estreito.
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| Madeirense é homenageado em sua casa. |
MF — O Estreito foi sempre um grande
clube na modalidade e destacou-se, ao longo dos anos, pela formação de muitos
jovens talentos. Atualmente, o ténis de mesa já não é a modalidade principal do
clube, e o Estreito não tem equipas na I Divisão masculina nem
feminina.
Espero que a atribuição do meu nome ao pavilhão ajude a promover o ténis de mesa, tanto na freguesia como na região da Madeira, e inspire os jovens a praticar a modalidade. Seria muito positivo ver o ténis de mesa voltar a crescer no Estreito e, quem sabe, no futuro voltar a ter equipas a competir na I Divisão. Isso deixaria-me muito feliz.
EMM — Olhando para o seu percurso
desde a Madeira até aos principais palcos internacionais, qual foi o momento em que sentiu que tudo podia mesmo acontecer na sua carreira?
MF — Comecei a perceber que poderia
chegar longe internacionalmente quando me mudei para a Alemanha, em 2006. Nesse ano sagrei-me campeão europeu individual de juniores e, após esse título, recebi algumas propostas de clubes alemães. Foi nesse momento que
comecei a acreditar que poderia ter futuro na modalidade.
Acabei por arriscar e sair de
Portugal. Nesse mesmo ano, eu, João Monteiro e Tiago Apolónia fomos dos
primeiros jogadores portugueses a dar esse passo e a jogar no estrangeiro. Foi
sobretudo a competir na Bundesliga, uma das ligas mais fortes do mundo, e a
ganhar jogos contra jogadores de grande nível que comecei a perceber que
poderia ser profissional de ténis de mesa.
Até então, nunca tinha jogado no estrangeiro, mas, ao obter bons resultados nesse contexto, ganhei ainda mais confiança e percebi que tinha nível e talento para seguir em frente. Foi nesse momento que senti que poderia trabalhar para conquistar medalhas importantes e lutar por uma vaga nos Jogos Olímpicos.
Marcos Freitas é o campeão nacional individual... Veja aqui!
EMM — Chegou a ser o melhor português
no ranking mundial. Que significado tem esse feito para si e para o
desenvolvimento do ténis de mesa em Portugal?
MF — Durante muitos anos fui o melhor
jogador português no ranking mundial. Presentemente, estou como o segundo
português e o João Geraldo é o melhor. Mas chegar ao sétimo lugar da tabela mundial,
num país como Portugal, com poucos praticantes, foi um feito de enorme
orgulho e significado na minha carreira.
Hoje, o ranking não é o meu principal objetivo.
Ainda assim, não há dúvidas de que fui o jogador português que alcançou a melhor posição de sempre no ranking mundial. Nesta fase da minha carreira, estou focado em competir com qualidade, conquistar títulos e deixar uma marca duradoura na modalidade.
O presente e o futuro da modalidade
EMM — O ténis de mesa português viveu
anos de grande êxito com uma geração de jogadores de altíssima qualidade. Como
vê o presente e o futuro da modalidade no país?
MF — O ténis de mesa português está bem.
A nossa seleção sénior já não é tão jovem, e começam a surgir alguns problemas
físicos. Surgem também muitos jovens atletas estrangeiros com potencial promissor de nível internacional. Continuamos a ter uma seleção sólida e homogénea,
capaz de lutar por medalhas nos Campeonatos da Europa. No último Europeu, obtivemos o quinto lugar. Infelizmente, não pude ajudar por estar lesionado.
Temos cinco jogadores com capacidade
para vencer equipas de topo europeu, e, olhando para os Jogos Olímpicos de
2028, vejo uma seleção competitiva e experiente.
EMM — E quanto à formação dos jovens
atletas?
MF — Para o futuro, não temos muitos
atletas jovens de destaque. Temos o Tiago Abiodun, um grande talento com muito
potencial para uma carreira longa, e o João Geraldo, que ainda tem alguns anos
pela frente.
Fora estes dois, não vejo muitos jogadores capazes de levar a equipa ao pódio nas grandes competições. A formação precisa ser mais estruturada para garantir uma transição eficaz da nossa geração para uma nova que mantenha os resultados dos últimos 15 anos. Penso que a federação trabalha nesse sentido e espero que, nos próximos anos, consiga desenvolver outros jogadores capazes de representar Portugal com a mesma qualidade que temos demonstrado.
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| Hoje, Marcos Freitas comemora 38 anos. É dia de festa. |
Desafios e campeonatos
EMM — Está prestes a disputar um
Campeonato do Mundo muito especial, que assinala os 100 anos da ITTF. Qual o significado que tem para si?
MF — Participar no Mundial de Equipas é
sempre especial. Trata-se de uma prova icónica e será já a minha 11.ª
participação em Campeonatos do Mundo. É um número que me deixa muito orgulhoso.
A minha estreia foi no Catar, em 2004, e desde então tenho tido a felicidade de
representar Portugal em várias edições.
Este ano terá ainda um significado
especial, pois celebra-se o centenário da ITTF, em Londres. Estou muito
motivado para fazer uma boa preparação, viajar para Londres e dar o meu melhor
para representar Portugal da melhor forma possível, lutando para chegar o mais
longe possível na competição.
| Marcos olha para a bola... |
EMM — Ao longo de tantos anos na elite mundial, o que mais mudou no ténis de mesa: o condicionamento físico, o material (raquetes, borrachas e bolas) ou a estratégia de jogo?
MF — Posso dizer que o ténis de mesa
mudou bastante. Como acontece em qualquer modalidade, há sempre uma evolução
constante, e no nosso caso isso nota-se em vários aspetos. Um dos principais aspetos que mudaram está ligado ao material. As bolas têm menos efeito do que antigamente,
o que tornou o jogo mais rápido e, de certa forma, mais fácil de manter a bola
em cima da mesa. Como consequência, os pontos tornaram-se mais longos. Isso exige muito mais do ponto de vista físico. Hoje em dia, a componente física é
ainda mais determinante.
EMM — E em termos de calendário e
exigência competitiva, o que mudou nos últimos anos?
MF — Outro fator importante foi a criação
da WTT, uma organização relativamente recente, com cerca de 5 anos, que
trouxe um calendário muito mais preenchido. No presente, participamos em muitos torneios, jogamos mais e viajamos com maior frequência ao longo da temporada. Tudo isto tornou o ténis de mesa um desporto fisicamente mais exigente do que era há alguns anos. É algo que sinto claramente e acredito que todos os
jogadores sentem. Por isso, temos de trabalhar diariamente para melhorar a nossa condição física e lidar com a carga de jogos e viagens ao longo do ano.
Conselhos e legado
EMM — Muitos jovens portugueses olham-no como exemplo a seguir. Que conselho daria a quem está a começar no ténis de mesa?
MF — O conselho que dou é que, acima de
tudo, se divirtam e desfrutem do jogo, porque o ténis de mesa é uma modalidade
muito divertida. No início, o mais importante é aproveitar e gostar de jogar.
Mais tarde, se realmente tiverem talento e ambição de se tornarem jogadores federados ou até profissionais, é fundamental ter muita disciplina. Procurar sempre um bom acompanhamento faz toda a diferença no desenvolvimento de um atleta. Mas,
acima de tudo, no começo, o mais importante é desfrutar, divertir-se e
aproveitar ao máximo, porque o ténis de mesa é um desporto fantástico.
EMM — A alta competição é exigente, tanto no plano físico quanto no mental.
Já pensa em quando poderá chegar o momento de se retirar
da competição ao mais alto nível?
MF — Para já, tenho como principal objetivo
os Jogos Olímpicos de 2028. Todas as competições que vou disputar até lá têm
esse foco: somar pontos e tentar garantir a qualificação para os Jogos
Olímpicos. Esse é o objetivo que tenho, neste momento, bem definido na minha
cabeça.
Depois disso, farei uma análise
mais tranquila, até porque, nessa altura, já terei cerca de 40 anos. Nessa
altura, vou refletir e conversar também com a federação e com os treinadores
para entender qual será a melhor decisão e o caminho mais adequado a seguir.
EMM — Quando esse dia chegar,
imagina-se ligado ao ténis de mesa de outra forma — treinador, dirigente,
mentor de jovens atletas?
MF — Sim, vejo-me sempre ligado ao ténis
de mesa, mesmo após deixar de competir. Talvez não de forma tão intensa, mas
gostaria de continuar envolvido. São muitos anos dedicados a esta modalidade e, ao longo deles, adquiri experiência e conhecimentos valiosos. Sinto
que tenho a bagagem ideal para continuar a ajudar outras pessoas no ténis de
mesa e desenvolver algum trabalho na área. É, sem dúvida, algo que vejo como
uma possibilidade para o futuro, após retirar-me da competição.
EMM – Para terminar, imaginando o
último ponto decisivo da sua carreira, em que lugar gostaria de jogá-lo e contra quem?
MF – Sem dúvida com o Cristiano Ronaldo… e
seria no pavilhão do Estreito, claro!
Olhando para o futuro, Marcos Freitas
mantém a mesma paixão e determinação que o levaram ao topo do ténis de mesa.
Mais do que títulos, o seu legado inspira novas gerações e prova que cada
ponto, dentro e fora da mesa, continua a contar.
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| Uma das muitas medalhas conquistadas por Marcos Freitas. |
Outro exemplo de dedicação semelhante é o de Annamaria Erdelyi... Veja aqui!




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