Marcos Freitas: "Ter o meu nome no pavilhão é uma das maiores honras da minha vida"

 🖋️Por: António Vieira Pacheco

📸 Créditos: Lusa/Federação Portuguesa de Ténis/ATMM

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Marcos Freitas em ação nos grandes palcos mundiais.
Marcos Freitas é um raro exemplo de longevidade e sucesso.

Hoje, Marcos Freitas celebra 38 anos de vida, construídos ponto a ponto, como cada momento decisivo numa mesa de ténis.

Desde os primeiros treinos num pavilhão da Madeira até aos palcos internacionais, Freitas tornou-se o melhor português de sempre no ranking mundial e deixou uma marca indelével na modalidade.

Em entrevista exclusiva ao Entrar no Mundo das Modalidades, o mesa-tenista natural do Funchal reflete sobre vitórias, desafios, o futuro do ténis de mesa em Portugal e o legado que pretende deixar às novas gerações. 

Cada resposta revela não só a trajetória de um atleta de excelência, mas também a paixão e o compromisso com o desporto que moldaram a sua vida.

Homenagem e raízes

EMM — O pavilhão no Estreito de Câmara de Lobos tem hoje o seu nome. O que sentiu quando recebeu essa homenagem?

Marcos Freitas — Foi uma homenagem muito bonita. O pavilhão já era um projeto falado há muitos anos e, quando ainda jogava no Estreito, já se comentava a sua construção. Olhar para a carreira que tive e ver o meu nome associado a este espaço é uma grande honra.

Comecei no Grupo Desportivo do Estreito e, por isso, esta distinção tem um significado muito especial para mim. Não é nada que aconteça todos os dias, muito menos a um mesa-tenista. O ténis de mesa ainda tem pouca visibilidade em Portugal, por isso, é motivo de grande orgulho ver que o meu percurso e os meus resultados são reconhecidos.

Ter o meu nome no pavilhão é, sem dúvida, uma das principais honras da minha vida. Espero também que esta homenagem possa contribuir para dar mais visibilidade ao ténis de mesa e incentivar o crescimento da modalidade no Estreito.

Marcos Freitas homenegeado em casa.
Madeirense é homenageado em sua casa.
EMM — Como vê o desenvolvimento do ténis de mesa no Estreito?

MF — O Estreito foi sempre um grande clube na modalidade e destacou-se, ao longo dos anos, pela formação de muitos jovens talentos. Atualmente, o ténis de mesa já não é a modalidade principal do clube,  e o Estreito não tem equipas na I Divisão masculina nem feminina.

Espero que a atribuição do meu nome ao pavilhão ajude a promover o ténis de mesa, tanto na freguesia como na região da Madeira, e inspire os jovens a praticar a modalidade. Seria muito positivo ver o ténis de mesa voltar a crescer no Estreito e, quem sabe, no futuro voltar a ter equipas a competir na I Divisão. Isso deixaria-me muito feliz.

EMM — Olhando para o seu percurso desde a Madeira até aos principais palcos internacionais, qual foi o momento em que sentiu que tudo podia mesmo acontecer na sua carreira?

MF — Comecei a perceber que poderia chegar longe internacionalmente quando me mudei para a Alemanha, em 2006. Nesse ano sagrei-me campeão europeu individual de juniores e, após esse título, recebi algumas propostas de clubes alemães. Foi nesse momento que comecei a acreditar que poderia ter futuro na modalidade.

Acabei por arriscar e sair de Portugal. Nesse mesmo ano, eu, João Monteiro e Tiago Apolónia fomos dos primeiros jogadores portugueses a dar esse passo e a jogar no estrangeiro. Foi sobretudo a competir na Bundesliga, uma das ligas mais fortes do mundo, e a ganhar jogos contra jogadores de grande nível que comecei a perceber que poderia ser profissional de ténis de mesa.

Até então, nunca tinha jogado no estrangeiro, mas, ao obter bons resultados nesse contexto, ganhei ainda mais confiança e percebi que tinha nível e talento para seguir em frente. Foi nesse momento que senti que poderia trabalhar para conquistar medalhas importantes e lutar por uma vaga nos Jogos Olímpicos.

Marcos Freitas é o campeão nacional individual... Veja aqui!

EMM — Chegou a ser o melhor português no ranking mundial. Que significado tem esse feito para si e para o desenvolvimento do ténis de mesa em Portugal?

MF — Durante muitos anos fui o melhor jogador português no ranking mundial. Presentemente, estou como o segundo português e o João Geraldo é o melhor. Mas chegar ao sétimo lugar da tabela mundial, num país como Portugal, com poucos praticantes, foi um feito de enorme orgulho e significado na minha carreira.

Hoje, o ranking não é o meu principal objetivo. 

Ainda assim, não há dúvidas de que fui o jogador português que alcançou a melhor posição de sempre no ranking mundial. Nesta fase da minha carreira, estou focado em competir com qualidade, conquistar títulos e deixar uma marca duradoura na modalidade.

O presente e o futuro da modalidade

EMM — O ténis de mesa português viveu anos de grande êxito com uma geração de jogadores de altíssima qualidade. Como vê o presente e o futuro da modalidade no país?

MF — O ténis de mesa português está bem. A nossa seleção sénior já não é tão jovem, e começam a surgir alguns problemas físicos. Surgem também muitos jovens atletas estrangeiros com potencial promissor de nível internacional. Continuamos a ter uma seleção sólida e homogénea, capaz de lutar por medalhas nos Campeonatos da Europa. No último Europeu, obtivemos   o quinto lugar. Infelizmente, não pude ajudar por estar lesionado.

Temos cinco jogadores com capacidade para vencer equipas de topo europeu, e, olhando para os Jogos Olímpicos de 2028, vejo uma seleção competitiva e experiente.

EMM — E quanto à formação dos jovens atletas?

MF — Para o futuro, não temos muitos atletas jovens de destaque. Temos o Tiago Abiodun, um grande talento com muito potencial para uma carreira longa, e o João Geraldo, que ainda tem alguns anos pela frente.

Fora estes dois, não vejo muitos jogadores capazes de levar a equipa ao pódio nas grandes competições. A formação precisa ser mais estruturada para garantir uma transição eficaz da nossa geração para uma nova que mantenha os resultados dos últimos 15 anos. Penso que a federação trabalha nesse sentido e espero que, nos próximos anos, consiga desenvolver outros jogadores capazes de representar Portugal com a mesma qualidade que temos demonstrado.

O campeão chamado Marcos Freitas.
Hoje, Marcos Freitas comemora 38 anos. É dia de festa.

Desafios e campeonatos

EMM — Está prestes a disputar um Campeonato do Mundo muito especial, que assinala os 100 anos da ITTF. Qual o significado que tem para si?

MF — Participar no Mundial de Equipas é sempre especial. Trata-se de uma prova icónica e será já a minha 11.ª participação em Campeonatos do Mundo. É um número que me deixa muito orgulhoso. A minha estreia foi no Catar, em 2004, e desde então tenho tido a felicidade de representar Portugal em várias edições.

Este ano terá ainda um significado especial, pois celebra-se o centenário da ITTF, em Londres. Estou muito motivado para fazer uma boa preparação, viajar para Londres e dar o meu melhor para representar Portugal da melhor forma possível, lutando para chegar o mais longe possível na competição.

Madeirense triste com a derrota.
Marcos olha para a bola...

EMM — Ao longo de tantos anos na elite mundial, o que mais mudou no ténis de mesa: o condicionamento físico, o material (raquetes, borrachas e bolas) ou a estratégia de jogo?

MF — Posso dizer que o ténis de mesa mudou bastante. Como acontece em qualquer modalidade, há sempre uma evolução constante, e no nosso caso isso nota-se em vários aspetos. Um dos principais aspetos que mudaram está ligado ao material. As bolas têm menos efeito do que antigamente, o que tornou o jogo mais rápido e, de certa forma, mais fácil de manter a bola em cima da mesa. Como consequência, os pontos tornaram-se mais longos. Isso exige muito mais do ponto de vista físico. Hoje em dia, a componente física é ainda mais determinante.

EMM — E em termos de calendário e exigência competitiva, o que mudou nos últimos anos?

MF — Outro fator importante foi a criação da WTT, uma organização relativamente recente, com cerca de 5 anos, que trouxe um calendário muito mais preenchido. No presente, participamos em muitos torneios, jogamos mais e viajamos com maior frequência ao longo da temporada. Tudo isto tornou o ténis de mesa um desporto fisicamente mais exigente do que era há alguns anos. É algo que sinto claramente e acredito que todos os jogadores sentem. Por isso, temos de trabalhar diariamente para melhorar a nossa condição física e lidar com a carga de jogos e viagens ao longo do ano.

Conselhos e legado

EMM — Muitos jovens portugueses olham-no como exemplo a seguir. Que conselho daria a quem está a começar no ténis de mesa?

MF — O conselho que dou é que, acima de tudo, se divirtam e desfrutem do jogo, porque o ténis de mesa é uma modalidade muito divertida. No início, o mais importante é aproveitar e gostar de jogar.

Mais tarde, se realmente tiverem talento e ambição de se tornarem jogadores federados ou até profissionais, é fundamental ter muita disciplina. Procurar sempre um bom acompanhamento faz toda a diferença no desenvolvimento de um atleta. Mas, acima de tudo, no começo, o mais importante é desfrutar, divertir-se e aproveitar ao máximo, porque o ténis de mesa é um desporto fantástico.

EMM — A alta competição é exigente, tanto no plano físico quanto no mental. 

Já pensa em quando poderá chegar o momento de se retirar da competição ao mais alto nível?

MF — Para já, tenho como principal objetivo os Jogos Olímpicos de 2028. Todas as competições que vou disputar até lá têm esse foco: somar pontos e tentar garantir a qualificação para os Jogos Olímpicos. Esse é o objetivo que tenho, neste momento, bem definido na minha cabeça.

Depois disso, farei uma análise mais tranquila, até porque, nessa altura, já terei cerca de 40 anos. Nessa altura, vou refletir e conversar também com a federação e com os treinadores para entender qual será a melhor decisão e o caminho mais adequado a seguir.

EMM — Quando esse dia chegar, imagina-se ligado ao ténis de mesa de outra forma — treinador, dirigente, mentor de jovens atletas?

MF — Sim, vejo-me sempre ligado ao ténis de mesa, mesmo após deixar de competir. Talvez não de forma tão intensa, mas gostaria de continuar envolvido. São muitos anos dedicados a esta modalidade e, ao longo deles, adquiri experiência e conhecimentos valiosos. Sinto que tenho a bagagem ideal para continuar a ajudar outras pessoas no ténis de mesa e desenvolver algum trabalho na área. É, sem dúvida, algo que vejo como uma possibilidade para o futuro, após retirar-me da competição.

EMM – Para terminar, imaginando o último ponto decisivo da sua carreira, em que lugar gostaria de jogá-lo e contra quem?

MF – Sem dúvida com o Cristiano Ronaldo… e seria no pavilhão do Estreito, claro!

Olhando para o futuro, Marcos Freitas mantém a mesma paixão e determinação que o levaram ao topo do ténis de mesa. Mais do que títulos, o seu legado inspira novas gerações e prova que cada ponto, dentro e fora da mesa, continua a contar.

Marcos Freitas no pódio.
Uma das muitas medalhas conquistadas por Marcos Freitas.

Outro exemplo de dedicação semelhante é o de Annamaria Erdelyi... Veja aqui! 




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