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João Almeida chega ao Mundial de Montreal com uma corrida que não perdoa!
🖋️ António Vieira Pacheco · 📅 25 de setembro 2026 · 📸 Direitos Reservados · ⏱️ 2 min · 🌱EMM
O português integra uma
seleção nacional de seis corredores para a prova de fundo de domingo. São
273,7 quilómetros, 3.803 metros de desnível e um circuito final que promete
transformar o desgaste numa das principais armas da corrida.
João Almeida chega ao Mundial de Montreal sem o ruído
habitual de quem parte para uma grande competição após uma época linear. O
português teve de reconstruir a temporada após uma doença que o afastou da
competição durante vários meses e chega ao Canadá para disputar uma prova
completamente diferente daquelas em que habitualmente concentra a sua
temporada.
Domingo, 27 de setembro, será dia de Campeonato do Mundo. E
será também um teste particularmente exigente para o corredor da UAE Emirates,
que vai integrar uma seleção portuguesa de seis elementos na prova de fundo
masculina: Afonso Eulálio, António Morgado, Ivo Oliveira, João Almeida, Nelson
Oliveira e Tiago Antunes.
Não é uma corrida para especialistas de uma única
característica. Nem é apenas uma questão de subir, nem apenas de resistir. A
distância, o acumulado de subida e a sucessão de dificuldades no circuito de
Montreal colocam à frente dos corredores uma prova onde a capacidade de guardar
forças poderá ser tão importante como a capacidade de atacar.
E é precisamente aí que começa a história de João Almeida.
Um regresso diferente
Há poucas semanas, a presença do português num Mundial poderia nem sequer ser encarada como certa.
Almeida começou 2026 em bom nível, mas uma infeção viral
contraída no final de fevereiro obrigou-o a interromper a temporada. O regresso
aconteceu apenas em agosto, muito mais tarde do que o previsto, deixando o
corredor perante um problema que não se resolve simplesmente com alguns dias de
treino.
Na Vuelta, Almeida voltou a competir durante três
semanas e terminou a prova numa situação que ilustra bem o momento da sua
temporada. O resultado não correspondeu às expectativas que habitualmente
acompanham o português, mas houve sinais de recuperação, nomeadamente no
contrarrelógio de 32,1 quilómetros, no qual esteve em bom nível.
Ainda assim, o próprio Almeida foi claro sobre a condição em
que se encontrava.
“Ainda estou muito longe das minhas melhores pernas”,
afirmou durante a Vuelta, explicando que o objetivo passava mais por recuperar
sensações do que por buscar resultados imediatos.
Essa frase ajuda a perceber o ponto de partida para Montreal.
O Mundial não aparece, portanto, no calendário de Almeida
como mais uma corrida depois de uma temporada normal. Surge depois de um
processo de recuperação e de uma Vuelta particularmente exigente. E isso torna
a prova de domingo ainda mais interessante para perceber até onde pode chegar nesta fase da época.
Uma corrida para resistir
O percurso não facilita a tarefa.
A prova masculina de elite terá 273,7 quilómetros e 3.803
metros de desnível acumulado. Depois de uma primeira parte de corrida mais
longa, os corredores entram no circuito final de Montreal, que será percorrido
12 vezes.
É nesse circuito que a corrida deverá ganhar outra dimensão.
A Voie Camillien-Houde, a Côte de la Polytechnique
e a subida de Pagnuelo fazem parte de uma sequência de dificuldades que
será repetida volta após volta. A Polytechnique inclui zonas com inclinações
superiores a 11%, enquanto a avenida do Parc, onde estará instalada a meta,
apresenta um falso plano ascendente que pode complicar os últimos metros.
O problema não está necessariamente numa subida isolada.
Está em fazê-las depois de mais de 200 quilómetros de
corrida.
É por isso que a distância ganha um peso especial. Uma
corrida de 273,7 quilómetros não permite olhar apenas para o momento em que os
ataques começam. Cada esforço feito antes da fase decisiva pode fazer a
diferença quando os corredores chegarem às últimas voltas.
Para João Almeida, habituado a gerir esforços em provas por
etapas e a manter um ritmo elevado durante longos períodos, haverá aqui uma
questão particularmente interessante: saber até que ponto essa capacidade de
resistência pode ser transferida para uma corrida de um dia desta dimensão.
Sem
o campeão
Montreal terá ainda uma particularidade importante.
Tadej Pogačar, campeão mundial em 2024 e 2025, não estará na
partida. A ausência do esloveno altera naturalmente o contexto competitivo da
corrida e abre espaço a diferentes estratégias entre as seleções presentes.
Pogačar abandonou a Vuelta a España após queda e não
fará parte do pelotão que vai disputar a camisola arco-íris no Canadá.
Mas a ausência de um campeão não significa ausência de nomes
capazes de assumir protagonismo.
Remco Evenepoel, Wout van Aert, Mathieu van der Poel, Tom Pidcock, Isaac del Toro, Paul Seixas, Primož Roglič, Enric Mas, Giulio Ciccone e outros corredores chegam a Montreal com características e possibilidades distintas em uma corrida que pode sofrer alterações profundas ao longo de quase sete horas de competição.
É também por isso que o Mundial é diferente de uma corrida
por etapas.
As equipas comerciais não controlam a corrida da mesma
maneira. As seleções nacionais têm recursos diferentes e, sobretudo, objetivos
que podem mudar consoante o que acontece na estrada.
Portugal terá de fazer a sua própria leitura.
Seis
portugueses
João Almeida não estará sozinho.
A seleção portuguesa para a prova de fundo masculina integra Afonso Eulálio, António Morgado, Ivo Oliveira, João Almeida,
Nelson Oliveira e Tiago Antunes. Os seis corredores têm características e experiências muito distintas.
Afonso Eulálio chega com a experiência de um nono lugar no
Mundial de 2025, em Kigali. O corredor da Bahrain Victorious também teve uma
temporada de destaque, com o sexto lugar no Giro d’Italia e a vitória na
classificação da juventude.
António Morgado acrescenta outra possibilidade à equipa
portuguesa. Campeão nacional de fundo e de contrarrelógio, o corredor da UAE
Emirates já mostrou capacidade para disputar corridas de um dia e tem
experiência internacional suficiente para enfrentar uma corrida desta dimensão.
Nelson Oliveira representa experiência acumulada. O corredor
da Movistar é uma das referências portuguesas em provas contra o relógio e tem
igualmente um longo historial em Mundiais. Em Montreal, além do trabalho
individual, poderá ter um papel importante na prova de fundo.
Ivo Oliveira completa a presença da UAE Emirates na seleção,
enquanto Tiago Antunes representa o ciclismo português das equipas nacionais. O
corredor da Efapel chega depois de uma temporada com resultados importantes no
calendário português, incluindo vitórias na Volta ao Alentejo, no Troféu
Joaquim Agostinho e nas 12 Voltas à Gafa.
A questão será perceber como Portugal distribuirá esses recursos quando a corrida entrar na fase decisiva.
A presença de João Almeida acrescenta naturalmente uma
dimensão especial à seleção.
O português é o único corredor nacional que terminou entre os
quatro primeiros nas três Grandes Voltas, um registo que ajuda a explicar a
importância que ganhou no ciclismo português nos últimos anos.
Mas o Mundial de estrada não é uma Grande Volta.
Não há vinte etapas para recuperar de um dia menos bom. Não
há uma classificação geral para construir ao longo de três semanas. Não há uma
equipa comercial a trabalhar exclusivamente para um corredor durante toda a
corrida.
Há um único dia.
E esse dia terá quase 274 quilómetros.
Almeida terá, por isso, de interpretar a corrida de uma forma
diferente. Guardar energia, responder aos movimentos certos e chegar às últimas
voltas com capacidade para acompanhar as acelerações serão aspetos
fundamentais.
A sua condição física será igualmente determinante.
Depois de ter passado vários meses afastado, a questão não é
apenas saber se Almeida tem capacidade para enfrentar as subidas. É perceber
como o corpo responderá quando a corrida entrar na terceira, quarta ou quinta
hora de esforço.
A experiência adquirida nas Grandes Voltas poderá ajudá-lo
nesse capítulo, mas o contexto é diferente.
O Mundial começa muito antes da meta
Há uma tendência para olhar para uma prova desta dimensão
apenas a partir dos ataques finais.
Em Montreal, isso poderá ser enganador.
Uma corrida com 273,7 quilómetros começa a decidir-se muito
antes de os corredores entrarem nas últimas voltas do circuito urbano. A
posição no pelotão, a gestão das forças, os cortes, as fugas e o trabalho das
seleções serão fatores que poderão determinar quem chega às últimas
dificuldades em condições de discutir a corrida.
O percurso oficial prevê que a prova termine na Avenida do
Parc, após 12 passagens pelo circuito final.
Isso significa que os corredores não terão apenas de
sobreviver às subidas.
Terão de sobreviver à corrida.
E são coisas diferentes.
Uma subida pode ser ultrapassada em poucos minutos. O
desgaste acumulado durante seis ou sete horas não desaparece.
É precisamente essa característica que torna Montreal um
teste interessante para João Almeida. O português não chega ao Canadá com a
temporada desenhada especificamente para este momento. Chega depois de uma
recuperação, de uma longa ausência e de uma Vuelta que lhe permitiu voltar a
competir a alta intensidade.
O Mundial será mais um passo.
Pode ser um passo importante, mas continua a ser apenas um dia de corrida.
Portugal entra em Montreal com uma seleção experiente e
diversificada. João Almeida será um dos nomes em torno dos quais se concentrará a atenção, mas a equipa não dependerá apenas de um
corredor.
Afonso Eulálio já sabe o que é terminar entre os dez
primeiros num Mundial de elite. António Morgado tem características para
responder a uma corrida seletiva. Nelson e Ivo Oliveira oferecem experiência e
capacidade de trabalho. Tiago Antunes chega com uma temporada nacional de
relevo.
E Almeida chega com uma história diferente. Depois de um início de ano interrompido pela doença, do regresso tardio à competição e de uma Vuelta em que assumiu publicamente que ainda estava longe das melhores pernas, o Mundial representa agora uma nova etapa.
Não será necessário buscar grandes declarações.
A estrada dará a resposta.
A partir das 14 horas de domingo, 27 de setembro, hora de
Portugal continental, seis portugueses estarão na partida para 273,7
quilómetros e 3.803 metros de desnível.
No final, a classificação será apenas uma parte da história.
Para João Almeida, Montreal será uma medida do caminho
percorrido desde fevereiro. Para Portugal, será a oportunidade de perceber o
que pode fazer uma seleção com corredores de características tão diferentes
numa das corridas mais exigentes do calendário internacional.
O Mundial não perdoa muito.
E, desta vez, também não dará tempo para começar de novo.
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