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36ª ASA Classic Race levou 170 cicloturistas à estrada: o ciclismo não vive só de competição
🖋️ António Vieira Pacheco · 📅 20 de setembro 2026 · 📸 Revista Notícias do Pedal · ⏱️4 min · 🌱EMM
Cerca de 170 cicloturistas pedalaram. Sem pódios, sem segundos para discutir e sem a obsessão pela classificação. Apenas uma bicicleta, uma estrada e uma ideia de ciclismo que continua a resistir.
O ciclismo português
habituou-se a contar vencedores. Quem ganhou a etapa, quem atacou, quem perdeu
tempo, quem chegou primeiro. Mas a modalidade não se resume a isso. Há também
quem pedale sem classificação, sem pódio e sem outra recompensa, apenas para ter o prazer
de estar na estrada.
Mas há um ciclismo que não
cabe numa classificação.
No domingo, na Amadora, cerca
de 170 pessoas voltaram a lembrar isso.
A 36.ª edição do Passeio de Cicloturismo ASA Classic Race, organizado pelo Grupo de Cicloturismo Estrelas da Amadora, colocou bicicletas na estrada. Não para decidir um campeão, mas para recuperar o que parece cada vez mais raro: o prazer de pedalar em conjunto.
Às 9h15, o pelotão saiu. Não havia uma camisola amarela à espera de alguém. Nem havia uma meta para separar os melhores dos restantes.
Havia estrada e a oportunidade de observar a paisagem.
E havia pessoas.
Falagueira, Massamá, Mem Martins, Algueirão, Cacém e Idanha fizeram parte de um percurso de aproximadamente 50 quilómetros entre a Amadora e Sintra.
Num tempo em que praticamente
tudo no ciclismo é medido — velocidade, potência, tempo, distância, posição — o
cicloturismo mantém uma espécie de rebeldia silenciosa.
Pedala-se porque se gosta de
pedalar.
E isso talvez seja mais
importante do que parece.
36 anos contra o desaparecimento
Trinta e seis edições não
acontecem por acaso.
Por trás de um passeio, surge
uma organização que começa muito antes do primeiro participante aparecer. Há
inscrições, percurso, segurança, abastecimentos, acompanhamento e uma equipa
que garante que tudo funciona.
A ASA Classic Race está na memória do cicloturismo nacional.
Mas também revela uma
realidade menos confortável: há hoje menos participantes e menos passeios
organizados do que noutras épocas.
É precisamente daí que
resistir tem significado.
Manter uma iniciativa durante
décadas, num calendário em que a competição ocupa quase todo o espaço mediático,
é uma forma de dizer que a bicicleta não pertence apenas aos atletas.
Pertence também às pessoas.
Sintra, calor e 50 quilómetros
O percurso teve alguns setores mais exigentes, mas apresentou um grau de dificuldade médio.
Em Sintra, uma paragem na
Decathlon permitiu recuperar forças com água e fruta antes do regresso.
O calor, esse, não facilitou a
tarefa.
O céu limpo e temperaturas
superiores a 31 graus transformaram a manhã numa verdadeira prova de
resistência, ainda que sem classificação.
Porque também há esforço
quando não há competição.
Há pernas cansadas. Há subidas
que custam. Há momentos em que o ritmo baixa.
E há sempre alguém que espera
por alguém.
É aí que começa a diferença.
A bicicleta como lugar de encontro
O cicloturismo tem algo que o cronómetro não consegue medir.
A conversa.
O reencontro.
A ajuda entre participantes.
A sensação de chegar ao fim
com mais uma história para contar.
Na estrada, os 170
participantes deixaram de ser números e passaram a formar um grupo.
É essa dimensão humana que muitas vezes desaparece quando se olha para o ciclismo apenas das grandes provas.
Uma bicicleta pode servir para
ganhar uma Volta.
Mas também pode servir para
levar alguém a reencontrar velhos amigos numa manhã de domingo.
Segurança
A PSP de Trânsito da Amadora
acompanhou o percurso, assegurando a segurança do pelotão, enquanto os
Bombeiros da Amadora estiveram igualmente presentes.
O passeio terminou sem
acidentes.
Pouco depois do meio-dia, os
participantes regressaram ao lugar da partida, na Praceta da Terra
da Bonita.
A missão estava cumprida.
Não havia vencedores.
Mas também não havia derrotados.
A reportagem não fica pelas
bicicletas.
A Amadora tem uma história
própria e foi o cenário desta jornada.
O ciclismo que não aparece
Talvez esta seja a parte do
ciclismo que menos aparece.
Não há manchetes para quem
chega a meio do pelotão.
Quem pedala nestas provas raramente aparece nas manchetes. Mas é também essa gente que mantém o ciclismo vivo.
Não há pódios para quem
termina simplesmente feliz por ter chegado.
Mas sem essa gente, a
bicicleta seria apenas uma máquina.
São as pessoas que fazem ciclismo.
E a 36.A ASA Classic Race
voltou a demonstrá-lo.
Num domingo de setembro, cerca
de 170 cicloturistas lembraram uma verdade simples: o ciclismo não precisa
sempre de uma meta para ter sentido.
Às vezes, basta uma estrada.
Uma bicicleta.
E vontade de continuar.
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