Ana Caramelo questiona: «Como se pode afirmar uma coisa destas sobre uma atleta?»
🖋️ António Vieira Pacheco · 📅 15 de setembro 2026 · 📸 Direitos Reservados · ⏱️ 3 min · 🌱EMM
Ana Caramelo decidiu tornar pública uma questão que, para a ciclista portuguesa, não se resume a uma mera convocatória para uma competição.
A atleta natural de Cária não foi selecionada para os Jogos do
Mediterrâneo nem para o próximo Campeonato do Mundo de estrada e
questiona como foi avaliada no processo de seleção. Mais tarde, recebeu a
informação de que estava pré-convocada para os Europeus de Ciclismo, mas
afirma que essa possibilidade não responde às questões que colocou e que não
pretende participar na competição nestas circunstâncias.
No centro da sua posição está uma expressão que lhe foi transmitida numa conversa eletrónica: «Tu não és atleta de equipa.»
Caramelo quer saber em que elementos concretos foi feita essa avaliação.
A questão não era a
existência de critérios
Por meio do WhatsApp, foi enviado à Ana Caramelo o caminho
para consultar o Regulamento das Seleções Nacionais de Ciclismo de Alto
Rendimento e os Critérios de Elegibilidade.
A atleta voltou a consultar o documento.
Mas esclarece que nunca questionou a existência de critérios
de seleção.
A sua questão era outra: como haviam sido aplicados
esses critérios ao seu caso concreto? Ela é a campeã nacional de contrarrelógio, vencedora da Taça de Portugal e a melhor portuguesa na Volta a Portugal.
Durante a conversa, foi-lhe indicado o ponto relativo ao
perfil das corredoras selecionadas, nomeadamente a capacidade e o compromisso
com o papel de apoio à equipa.
Ana perguntou:
«E onde não me posso incluir?»
Segundo o relato da atleta, a resposta foi:
«Tu não és atleta de equipa.»
Perante a pergunta sobre o significado dessa afirmação, terá
lido:
«Trabalhas de forma muito individual.»
É a partir daqui que coloca a questão que
considera fundamental.
«Como se pode afirmar uma coisa destas sobre
uma atleta?»
A ciclista entende que há uma diferença entre observar
uma atleta numa competição e conhecer verdadeiramente como ela trabalha
numa equipa.
Um estágio, uma concentração ou um período de preparação
conjunta permite, em princípio, observar aspetos que uma corrida isolada não
revela necessariamente.
Como uma atleta reage às indicações do treinador?
E como trabalha para uma companheira?
Como abdica do próprio resultado quando o objetivo
coletivo assim o exige?
E como comunica no interior da equipa?
Como reage quando o seu papel não é ganhar, mas contribuir
para que outra atleta ganhe?
É neste contexto que Caramelo pergunta:
«Como é que se pode afirmar uma coisa destas sobre uma atleta
sem nunca ter trabalhado com ela num contexto de estágio ou de
preparação enquanto equipa?»
A atleta afirma que nunca teve consigo um processo desse género que lhe permitisse demonstrar essas características num contexto de seleção.
E é precisamente essa circunstância que considera
insuficiente para sustentar uma avaliação tão determinante.
Não diz que tinha de ser convocada.
Caramelo faz questão de estabelecer limites à própria
contestação.
Não afirma, em momento algum, que devia ser convocada.
Não afirma ser melhor do que outras atletas.
Também não questiona o direito de outras corredoras às
oportunidades que receberam.
A questão que coloca é diferente.
Se o perfil de atleta de equipa constitui um elemento
relevante para uma decisão de seleção, Ana entende que a avaliação dessa
característica deve assentar numa base concreta.
«Questiono como se pode avaliar aquilo que nunca se procurou
verdadeiramente conhecer.»
É uma distinção importante.
A atleta não está a contestar a existência de critérios. Está
a questionar a forma como foram aplicados e avaliados no seu caso.
«No ano passado, muitas vezes não ganhei para mim»
Ana Caramelo recorre também ao seu próprio percurso
competitivo para contestar a ideia de que trabalha exclusivamente de forma
individual.
Recorda que, na época passada, nas anteriores, na presente, trabalhou várias vezes para
companheiras e abdicou de oportunidades individuais em benefício do resultado
coletivo.
E aponta um exemplo desta temporada.
Na prova de Albergaria, afirma ter assumido o trabalho de
lançamento do sprint de uma atleta da sua própria equipa.
«Não estava a correr apenas para mim.»
A ciclista explica, porém, que há uma realidade
competitiva que não pode ser ignorada.
Quando uma atleta não dispõe de uma equipa suficientemente
forte para a acompanhar, posicionar ou proteger, acaba, muitas vezes, por ter de
assumir individualmente tarefas que, noutras circunstâncias, poderiam ser
desempenhadas coletivamente.
«Se não tenho quem me acompanhe, quem me leve, quem me
coloque na posição certa ou quem faça esse trabalho coletivo, tenho de
trabalhar para mim.»
Para Caramelo, isso não significa falta de capacidade
para trabalhar em equipa.
Significa que nem sempre há condições competitivas
para demonstrar esse trabalho coletivo.
Uma decisão que, para a atleta, deixou perguntas.
A ciclista considera que esta situação pode criar um problema
difícil de ultrapassar.
Na sua perspetiva, comportamentos diferentes podem acabar por
receber interpretações distintas consoante o resultado.
«Se ganhamos, é porque ganhámos.»
«Se trabalhamos para outras, é porque trabalhamos.»
«Se trabalhamos para ganhar, é porque trabalhamos
individualmente.»
E acrescenta:
«No fim, fico com a sensação de que há sempre uma explicação
que se adapta ao que já foi decidido.»
É uma perceção da atleta, e é assim que o EMM a
apresenta.
Não cabe ao EMM transformar essa perceção numa conclusão
sobre a intenção de quem tomou as decisões.
Mas cabe registar a pergunta que Caramelo considera não
ter sido respondida.
Mediterrâneo e Mundial ficaram fora do percurso.
A questão ganhou maior dimensão porque não é apenas um assunto de competição.
Caramelo não foi convocada para os Jogos do
Mediterrâneo.
Também não integrou a convocatória para o Campeonato do
Mundo.
Posteriormente, foi-lhe dito que estava pré-convocada
para os Europeus.
A própria atleta, contudo, faz questão de distinguir os
conceitos:
«Uma pré-convocatória não é uma convocatória.»
E considera que essa informação não responde à questão
inicial.
Não procurava uma garantia de uma oportunidade futura.
Queria perceber por que razão não foi selecionada para
os Jogos do Mediterrâneo e de que forma foi avaliado o seu perfil enquanto
atleta de equipa.
A atleta afirma ainda que não pretende participar nos Europeus.
A existência de uma pré-convocatória para os Europeus
introduz, naturalmente, uma questão adicional.
Se uma das características consideradas importantes é a
capacidade de trabalho coletivo, como se articula essa avaliação com a pré-convocatória de uma atleta?
Caramelo não apresenta esta questão como prova de uma
contradição formal.
Apresenta-a como uma dúvida sobre coerência e a compreensão
do processo.
E é precisamente essa transparência que pretende obter.
Caramelo já representou Portugal num Campeonato do
Mundo.
Recorda essa convocatória com orgulho e reconhece a
importância da oportunidade.
Durante a competição, há condições meteorológicas e
outras circunstâncias que, segundo a atleta, ultrapassaram o que se podia
controlar.
Fez o que conseguiu nas condições que tinha.
Mas a experiência deixou-lhe uma reflexão que permanece:
«Estou aqui para quê, se o trabalho que deveria ter sido
feito antes não foi devidamente feito?»
A atleta esclarece que esta reflexão não significa que
considere que não deveria ter sido convocada.
Aceitou a oportunidade e procurou corresponder.
O que agora questiona é outra coisa: até que ponto uma
convocatória internacional deve ser acompanhada de uma preparação específica
para o objetivo?
«Uma coisa é ser convocada. outra é ser preparada»
É talvez aqui que o caso individual de Ana Caramelo passa
a ser uma discussão mais abrangente sobre o modelo de preparação das seleções.
Para a ciclista, representar Portugal numa grande competição
não deveria significar apenas estar presente.
Deveriam existir um objetivo previamente definido,
planeamento, acompanhamento, estágios, provas de preparação e um programa de
trabalho articulado entre a atleta, o treinador e a estrutura.
«Porque não se prepara uma competição internacional com um
mês e meio de antecedência.»
Na sua perspetiva, a preparação deve começar muito antes, idealmente desde o início da época ou, melhor ainda, através de um planeamento que estabeleça a ligação entre uma época e a seguinte.
A lógica que defende é simples:
«Não se pode exigir excelência sem criar condições para a
alcançar.»
O resultado é apenas uma parte da atleta
A ciclista levanta ainda outra questão: afinal, o que se conhece de uma atleta ao olhar apenas para os resultados?
A ciclista pergunta se, para além das classificações, são
conhecidos aspetos como o FTP, o processo de treino, o treinador, a evolução ou
as capacidades específicas de cada corredora.
E coloca uma pergunta particularmente relevante:
«Sabem o que poderia fazer com um programa, especificamente, pensado para determinado objetivo?»
Para Ana, o potencial de uma atleta não surge no momento da
competição.
É construído.
«Talento trabalha-se. Atletas preparam-se. Equipas
constroem-se. Objetivos planeiam-se.»
É nesta ideia que assenta grande parte da sua reflexão.
Quantos talentos ficam pelo caminho?
A discussão deixa de estar limitada ao nome de Ana
Caramelo.
A atleta questiona quantos corredores e corredoras poderão
ter ficado pelo caminho por falta de oportunidades, de acompanhamento ou de confiança
num processo que não conseguem compreender.
Não apresenta números nem afirma conhecer a dimensão desse
fenómeno.
Coloca uma pergunta.
Quantos atletas poderiam ter chegado mais longe se tivessem
encontrado acompanhamento e oportunidades no momento certo?
É uma questão que ultrapassa qualquer convocatória individual
e merece ser discutida no contexto do desenvolvimento do ciclismo
português.
«Não quero favores»
Ana Caramelo também deixa claro que não pretende tratamento
privilegiado.
Não quer favores.
Nem pretende ser escolhida por simpatia.
Não quer que outra atleta perca uma oportunidade para que ela
tenha a sua.
Quer saber quais são as regras do caminho.
«Quero critérios.»
«Quero transparência.»
«Quero acompanhamento.»
«Quero planeamento.»
«Quero oportunidades justas.»
É uma posição que coloca o foco não apenas na convocatória,
mas também na relação entre mérito, avaliação, acompanhamento e oportunidade.
Para a atleta, quem trabalha, evolui e também apresenta resultados
deve conseguir perceber o que precisa fazer para atingir o nível seguinte.
«Vou continuar a fazer aquilo que sempre fiz»
No final, Caramelo não anuncia uma mudança de atitude.
Pelo contrário.
Diz que continuará a treinar, competir, trabalhar, evoluir e
lutar pelos seus objetivos.
Sabe que não controla as convocatórias.
Não controla as decisões.
Nem controla os resultados.
Mas controla o trabalho que realiza todos os dias.
«Sem favores. Sem atalhos. Sem baixar os braços.»
E é nesse princípio que termina o seu depoimento.
A questão que ficou em aberto permanece,
Num processo de seleção nacional, basta avaliar os resultados
apresentados por uma atleta ou é necessário conhecer o que essa
atleta pode fazer quando lhe são dadas condições para trabalhar em equipa?
Caramelo entende que essa avaliação deve ser feita antes
de se tirar uma conclusão.
E, enquanto aguarda respostas, continuará a fazer o que está
ao seu alcance: trabalhar para se tornar uma atleta melhor.
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