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Tiago Antunes ganha ouro e Benjamim Carvalho não esquece a Volta: «Tinha tudo para a ganhar»
🖋️ António Vieira Pacheco · 📅 22 agosto 2026 · 📸 Direitos Reservados · ⏱️2 min · 🌱EMM
Terminou a Volta
a Portugal. Tiago Antunes ficou sem a vitória. Agora, poucos dias depois,
voltou a subir ao pódio — desta vez para receber ouro. E Benjamim Carvalho
voltou a olhar para trás. Com números, convicção e uma frustração que não
esconde.
Há derrotas que desaparecem
com o passar dos dias. E há outras que se tornam ainda mais difíceis de engolir
quando, logo a seguir, o ciclista volta a provar exatamente o que muitos tinham percebido.
Tiago Antunes perdeu a Volta a
Portugal ao terminar em sexto lugar.
Mas esta sexta-feira, em
Taranto, fez uma coisa que não deixa grande espaço para dúvidas: voltou a
ganhar.
O corredor português
conquistou a medalha de ouro no contrarrelógio dos Jogos do Mediterrâneo,
percorrendo os 17 quilómetros em 20,05 minutos. Foi oito segundos mais rápido
do que o cipriota Bogdan Zabelinskiy e também superior a Rafael Reis, que
fechou o pódio com a medalha de bronze.
As primeiras medalhas de
Portugal em Taranto'2026 tiveram, assim, duas rodas.
E Tiago Antunes levou a
melhor.
«Não tinha grandes dúvidas. Enganei-me»
Para Benjamim Carvalho, antigo
ciclista e médico da Efapel, o resultado não trouxe surpresa.
Trouxe outra coisa.
Frustração.
Porque, para ele, o ouro de
Taranto apenas voltou a confirmar o que havia visto no decorrer de toda a temporada —
e, especialmente, na Volta a Portugal.
«Este ano, confesso, não tinha
grandes dúvidas. Enganei-me», escreveu o antigo ciclista
nas suas redes sociais.
Uma frase curta.
Mas carregada.
Carvalho acreditava que Tiago
Antunes tinha tudo para ganhar a Volta. Os resultados anteriores apontavam
nessa direção. Os números também. A consistência era evidente.
«Pelo que havia feito durante
a época, pelos valores que apresentava e pela forma como se batia com os
mesmos adversários, o Tiago Antunes era, para mim, o grande candidato.»
E não ficou por uma impressão.
Segundo Benjamim Carvalho, o
ciclista ganhou mais vezes do que perdeu durante a temporada e, na
Volta, conseguiu elevar o nível.
«Em praticamente todas as
etapas, apresentou números superiores aos que havia revelado no decorrer da época.»
No contrarrelógio, acrescenta,
chegou mesmo a bater os dois especialistas de referência.
Ou seja: não faltava potência.
Não faltava capacidade.
E, aparentemente, não faltava
forma.
«A Volta escapou-lhe»
E, mesmo assim, não ganhou.
É esse o ponto que continua a
incomodar Benjamim Carvalho.
«Tinha a força. Tinha os
números. Tinha a consistência.»
Mas havia um problema.
A equipa, na opinião do antigo
ciclista e médico, não conseguiu acompanhar o nível demonstrado por Tiago
Antunes.
«A equipa, para ser justo, para
mim, não acompanhou o nível do ciclista. Mas deu tudo o que pôde, quando
pôde...»
E é aqui que a história ganha
outra dimensão.
Porque Benjamim Carvalho não
está a dizer que Tiago Antunes perdeu porque foi inferior.
Está a dizer precisamente o
contrário.
«Mesmo assim, a Volta
escapou-lhe.»
Para quem acredita que o
corredor tinha capacidade de ganhar, é uma derrota particularmente difícil de
aceitar.
«Fica a sensação de termos
visto passar um comboio que estava ao alcance da mão... e, ainda assim, não
conseguimos entrar nele.»
Uma imagem forte.
E talvez ainda mais forte agora que, poucos dias depois, Tiago Antunes voltou a vestir-se de ouro.
Em Taranto, Tiago Antunes não
ganhou uma corrida qualquer.
Ganhou um contrarrelógio.
E voltou a bater Rafael Reis,
um dos grandes especialistas portugueses na disciplina.
Para Benjamim Carvalho,
surpresa? Nenhuma.
«Hoje, nos Jogos do
Mediterrâneo, voltou a ganhar. Medalha de ouro. E voltou a bater o nosso melhor
contrarrelogista. Não fico surpreendido.»
Mas a vitória apenas tornou
mais difícil esquecer a Volta.
«Fico, isso sim, ainda mais
frustrado quando penso na enorme prestação que teve durante a Volta e percebo
que, mesmo com todas as condições reunidas, não chegou para vencer.»
É uma espécie de paradoxo.
Quanto melhor Tiago Antunes
corre agora, mais cresce a pergunta sobre o que poderia ter acontecido na
Volta a Portugal.
«Faz quase tudo bem»
Benjamim Carvalho tentou
explicar o valor do ciclista por meio de uma comparação com o futebol.
E a imagem não podia ser mais
clara.
«Se isto fosse futebol, diria
que o Tiago é daqueles jogadores que conseguem jogar em praticamente todas as
posições: rola, sobe, desce, sprinta, e o
contrarrelógio... faz quase tudo bem.»
É, no fundo, um elogio à
versatilidade.
Tiago Antunes não é apenas um
especialista numa única vertente. Tem capacidade para subir, andar no
contrarrelógio, disputar diferentes tipos de etapas e adaptar-se às exigências
de uma corrida por etapas.
E, para Benjamim Carvalho,
isso transforma-o num ativo especial.
«A EFAPEL talvez tivesse ali
um ativo capaz de valer uma fortuna.»
A expressão é forte.
Mas leva a uma preocupação
ainda maior.
A porta que nunca abre
Depois do ouro em Taranto,
Benjamim Carvalho deixou uma reflexão que vai muito além de uma medalha ou de
uma Volta perdida.
A preocupação é o futuro de
Tiago Antunes.
«Com o valor que tem, com
aquilo que demonstrou e com as circunstâncias que temos no ciclismo português,
receio que o Tiago, neste país, esteja condenado a correr atrás de uma porta
que nunca chega a abrir.»
É uma frase pesada.
Porque coloca em causa algo
maior do que a classificação de uma corrida.
Coloca em causa as
oportunidades.
Tiago Antunes tem 29 anos.
Acaba de conquistar uma medalha de ouro nos Jogos do Mediterrâneo. Na opinião
de alguém que conhece bem o ciclismo e trabalhou de perto com a realidade da
Efapel, tinha condições para ganhar a Volta a Portugal.
Mas será que isso chega para
abrir a porta seguinte?
«E isso, sinceramente,
frustra-me.»
A conclusão de Benjamim
Carvalho é clara.
Há corredores que perdem
porque são inferiores.
E há corredores que, mesmo
demonstrando valor, acabam por ver a oportunidade escapar.
«Há ciclistas que perdem uma
Volta porque foram inferiores. E há outros que perdem uma Volta apesar de terem
mostrado que tinham tudo para a ganhar.»
Para o antigo ciclista e
médico, Tiago Antunes pertence ao segundo grupo.
«Talvez esteja errado. É,
naturalmente, apenas a minha modesta e ínfima opinião.»
Mas, depois do que aconteceu
na Volta e do que acabou de acontecer em Taranto, a opinião ganha uma nova
força.
Porque Tiago Antunes perdeu
uma oportunidade.
Depois ganhou ouro.
E deixou uma pergunta que
continuará a perseguir o ciclismo português: quantas vitórias serão necessárias para que a porta finalmente se abra?
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