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O homem dos 70 km chega à UAE
🖋️ António Vieira Pacheco · 📅 18 agosto 2026 · 📸 Direitos Reservados · ⏱️2 min · 🌱EMM
Há ciclistas que passam anos a tentar descobrir quem são no pelotão. Marco
Frigo resolveu parte do problema atacando a 70 quilómetros da meta.
Não foi um daqueles ataques de
última hora, calculados ao milímetro, com meia dúzia de quilómetros para sofrer
e uma mota à frente para garantir o enquadramento perfeito. Foi mesmo cedo.
Muito cedo. Setenta quilómetros cedo.
O italiano de 26 anos
lançou-se sozinho na terceira etapa do Tour dos Alpes de 2025 e chegou à meta sem ser apanhado. A primeira vitória como profissional ficou
assim conquistada à antiga: atacando, sofrendo e obrigando os outros a perceber
que talvez aquele homem não estivesse ali apenas para encher o grupo.
A UAE Emirates-XRG percebeu.
E quando a UAE percebe que o talento mora ali, normalmente tenta contratá-lo antes que outra equipa o faça.
De fugitivo a gregário
Marco Frigo assinou por duas
temporadas, até ao final de 2028, e torna-se o primeiro reforço anunciado pela
equipa para a próxima época.
O destino está definido:
trabalhar para uma estrutura em que Pogačar não costuma precisar de ajuda para ganhar corridas, mas na qual ter mais uma arma nunca
fez mal a ninguém.
Frigo chega da NSN Cycling
Team com um currículo que vai além daquela vitória solitária no Tour
dos Alpes. Na Vuelta a Espanha de 2025 foi segundo numa etapa e terceiro
noutra. Já este ano entrou numa fuga na Amstel Gold Race e terminou em décimo
lugar.
Não são números que obriguem
Pogačar a olhar por cima do ombro.
Mas são suficientes para
convencer a UAE de que ali há matéria-prima.
A UAE viu qualquer coisa
O italiano tornou-se
profissional em 2023 e no primeiro ano, participou no Giro d'Italia. Na 15.ª
etapa, com chegada a Bérgamo, esteve perto de uma vitória importante, mas
acabou terceiro, atrás de Brandon McNulty — que agora será colega de equipa — e de Ben Healy.
O ciclismo tem destas ironias:
primeiro perde para um futuro colega. Depois acaba por ser contratado para
ajudá-lo.
Frigo, contudo, parece saber
perfeitamente para que vai. Não chega à UAE a vender sonhos de liderança ou a
exigir espaço para discutir o Tour com Pogačar. O italiano fala de identidade, de evolução e de ambição coletiva.
Traduzindo para a linguagem do pelotão: encontrou uma equipa que acredita nele e está disposta a perceber até onde pode chegar. Mesmo que, muitas vezes, esse «onde» seja na liderança do grupo, a puxar por alguém que, poucos quilómetros depois, desaparece sozinho pela estrada acima.
Talvez a especialidade de
atacar a 70 quilómetros da meta ainda lhe seja útil.
Uma peça para o império
A UAE continua, assim, a fazer
aquilo que tem feito melhor: reforçar uma estrutura já assustadoramente forte.
Pogačar tem líderes,
co-líderes, vencedores de etapas, caçadores de clássicas e uma colecção de
gregários que, em muitas equipas, poderiam perfeitamente discutir vitórias por
conta própria.
Agora chega Frigo.
Um ciclista que sabe sofrer
sozinho, que mostrou capacidade para grandes esforços e que já provou sobreviver quando a corrida se parte muito antes do guião previsto.
A pergunta é básica: quanto
tempo Frigo ataca por si?
Na UAE, a resposta pode ser
cruelmente simples.
Depende de quem estiver à
frente.
E, se esse alguém for Pogacar,
Marco Frigo já sabe o que provavelmente o espera: atacar, puxar, sofrer… e,
no final, levantar os braços talvez fique para outro.
Mas no império da formação árabe há
lugares que valem muito.
Mesmo que sejam conquistados a
70 quilómetros da meta.
“Acho que os primeiros quatro
anos como profissional foram um processo durante o qual construí e encontrei a
minha identidade como ciclista.”
Frigo acredita que
encontrou nos UAE uma equipa que compreende essa identidade.
“Sinto que a UAE compreendeu
isso, acreditou nisso e que as nossas ideias para o futuro estão muito
alinhadas.”
Agora falta descobrir onde
termina essa identidade quando se entra numa equipa construída à volta de um
homem que raramente deixa vitórias aos outros.
Porque atacar a 70 quilómetros
da meta é difícil. Ainda mais difícil pode ser sobreviver na equipa de Pogačar
sem acabar por trabalhar para o ataque de outra pessoa.
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