Destaque do Universo do Ciclismo e dos Desportos de Raquetes
- Obter link
- X
- Outras aplicações
João Almeida: «Só dependo mesmo das minhas pernas»
O português recuperou de um vírus, perdeu confiança, caiu na Polónia e chega à Vuelta sem saber se vai lutar pela geral. Mas João Almeida não se sente bloqueado por Pogačar, Del Toro ou pelo passado recente: «Só dependo mesmo das minhas pernas».
Há corredores que chegam a uma
Grande Volta com promessas. João Almeida chega com uma espécie de aviso: não
lhe solicitem certezas antes de as pernas falarem.
É já este sábado, 22 de
agosto, que a Vuelta começa. Para o português, será a estreia em Grandes Voltas
em 2026, após meses em que um vírus o afastou da versão a que o
ciclismo se habituou.
Pelo caminho houve uma
preparação longe do ideal, uma Volta à Polónia que não correu como esperava,
uma queda, um joelho esquerdo ligado e uma confiança que o próprio admite ter
ficado pelo caminho.
Ainda assim, Almeida está no
Mónaco.
E está na Vuelta.
Não para prometer uma posição,
não para garantir um pódio e nem sequer para dizer que vai discutir a
classificação geral.
Está para descobrir.
E, sobretudo, para pedalar.
João Almeida não tentou
esconder o que sente.
«Tive uma semana dura na
semana transata, mas estamos aqui, à partida, para dar o nosso melhor. É claro que
chego com pouca confiança, não só em termos de resultados, mas também porque a
preparação não foi o ideal.»
A Volta à Polónia deveria ter
sido um teste importante na preparação para a Vuelta. Ritmo competitivo,
intensidade de corrida e, acima de tudo, uma oportunidade de testar as pernas
antes da primeira Grande Volta da temporada.
Mas não aconteceu como estava
previsto.
«Não conseguir fazer a Volta à
Polónia como queria teria sido muito importante para ganhar ritmo de competição
e ter um estímulo diferente do treino, além de testar as pernas.»
É aqui que aparece o
verdadeiro problema.
Não é apenas uma questão de
resultados.
É a dúvida.
Após meses difíceis, o
português chega à Vuelta sem saber exatamente onde está. Pode treinar, pode
sentir-se bem, pode acreditar no trabalho feito — mas uma corrida de bicicleta
tem uma maneira particularmente cruel de responder a todas as perguntas.
Ainda assim, Almeida recusa-se a entregar-se à incerteza.
«Mas podemos sempre estar
confiantes no nosso talento.»
E talvez seja essa a frase
mais importante de todas.
Porque a confiança pode ter
desaparecido temporariamente.
O talento, esse, João Almeida
sabe que continua lá.
Começar mal não significa acabar mal
Há, porém, uma característica
que joga a favor do português: Almeida é um corredor de três semanas.
E ele próprio acredita que
isso pode fazer a diferença.
«Sendo um voltista, espero ir
melhorando de dia para dia. Mesmo que comece mal, espero continuar todos os
dias e chegar à última semana melhor do que comecei.»
É uma declaração que merece
atenção.
Porque João Almeida não está a
pensar apenas na primeira etapa, nos primeiros ataques ou nos primeiros dias de
montanha.
Está a pensar na última
semana.
E quem conhece o português
sabe que isso não é um pormenor.
Em 2025, terminou a Vuelta no
segundo lugar da classificação geral e ainda conquistou uma etapa. Agora chega
com menos certezas, menos ritmo competitivo e uma missão diferente no interior da
UAE Emirates.
Mas três semanas são três
semanas.
E o português parece disposto a esperar até ao fim para descobrir o que ainda consegue fazer.
«Ele é quase uma garantia»
O grande líder da UAE Emirates
será Tadej Pogačar.
E, curiosamente, João Almeida
vê nisso uma enorme vantagem.
«Sim, sem dúvida. Ele é quase
uma garantia. As perguntas para ele já nem são se vai ganhar, mas se vai ganhar
por muito, ou por pouco, ou onde vai atacar...»
É uma forma bastante clara de
explicar o fenómeno Pogačar.
Quando o esloveno aparece numa
corrida, a discussão muda. Já não é simplesmente saber se vai ganhar. A questão
passa a ser como vai ganhar.
E para Almeida, ter
Pogačar na equipa significa uma situação fundamental: tranquilidade.
«Ter o Tadej dá uma
tranquilidade enorme a toda a equipa e tira a pressão de cima de tudo.»
O português não terá de
carregar sozinho uma equipa às costas.
Não terá de se sentir obrigado a
defender a liderança desde o primeiro dia.
Pode ajudar a observar-se e
perceber o que as pernas permitem.
Mas isso não significa que
esteja condenado a ser apenas um gregário de luxo.
A pergunta sobre um eventual
pódio surgiu dos jornalistas.
E o nativo das Caldas da
Rainha respondeu à sua maneira.
«Só dependo mesmo das minhas
pernas!»
Curto.
Direto.
E com uma mensagem clara.
Pogačar não o bloqueia. A UAE
Emirates não o bloqueia. Isaac del Toro não o bloqueia.
No final, será o corpo a
decidir.
Almeida elogiou ainda o líder
esloveno de forma particularmente forte.
«Ele é um corredor muito
simpático em todos os aspetos e extremamente generoso. Gosta de recompensar
qualquer colega de equipa pelo trabalho que fazemos por ele.»
E foi ainda mais longe.
«Penso que nunca vimos, no
passado, campeões como ele a fazer pelos colegas o que ele faz. É mesmo muito
raro ver isso no ciclismo.»
Pogačar, garante Almeida, não
é apenas o corredor que ganha quase tudo.
É também um líder que
recompensa.
E isso, para quem vai passar
três semanas a trabalhar numa equipa que quer colocar o esloveno no topo do
pódio em Madrid, não é um detalhe.
Geral? Etapas? «Vou dia a dia»
Então, afinal, o que quer o
português desta Vuelta?
A classificação geral?
Uma vitória de etapa?
Um novo pódio?
A resposta é: ainda ninguém
sabe. Nem o próprio.
«Vou dia a dia ver como me
sinto. Obviamente vou tentar ajudar o Tadej ao máximo que conseguir. As
questões relativas aos resultados individuais vão ficar pendentes.»
A estratégia é simples.
Primeiro, quer perceber como o corpo responde.
Depois, decidir.
«Vou dar o meu máximo nestes
primeiros dias para ver onde estou e como me sinto. Se vir que não estou bem
para discutir uma classificação geral, focar-me-ei noutra coisa.»
É talvez a declaração mais
honesta que João Almeida poderia fazer antes da Vuelta.
Não há promessas artificiais.
Não há frases feitas sobre
pódios.
Há apenas uma condição: as
pernas têm de aparecer.
«O principal objetivo é ajudar o Tadej. Somos uma equipa forte e temos de estar bem para ajudá-lo no
que precisar.»
A ideia é manter-se na frente,
sobreviver aos primeiros testes e estar no grupo dos melhores.
Depois?
«Ver dia a dia.»
O joelho, Del Toro e o vírus
que ninguém consegue explicar em duas frases
A queda na Volta à Polónia
deixou marcas visíveis. O joelho esquerdo continua protegido, embora Almeida
desvalorize o problema.
«Foi uma ferida um pouco mais
funda e uma pancada forte, com edema ósseo, mas nada de especial. É só para não
apanhar sol. Mais uns dias e tiro o penso. Está tudo tranquilo.»
Muito mais complicado foi o
vírus que condicionou boa parte da temporada.
E Almeida não quis transformar
o assunto numa consulta médica pública.
«Não é assim tão simples
perceber isso, principalmente pós-doença. É um tema complexo e não
quero estar aqui a detalhar tudo o que aconteceu.»
O português lembrou que
situações semelhantes já afetaram outros ciclistas ao longo de meses.
«O corpo, por vezes, reage
assim.»
E talvez essa seja a
explicação mais simples para um problema que, como o próprio reconhece, não é
simples.
«Não interessa muito saber o
que é ou o que não é. O que interessa é que, às vezes, as coisas não correm tão
bem, mas estamos sempre aqui a tentar dar o nosso melhor.»
Del Toro? «Há espaço para todos»
E Isaac del Toro?
O mexicano tornou-se uma das
grandes figuras da UAE Emirates e a sua ascensão poderia, à primeira vista,
parecer uma ameaça ao espaço de Almeida na equipa.
O português não vê as coisas
assim.
«Sinto-me igual. Acho que há
espaço para todos.»
Sem dramas.
«É um bom companheiro de
equipa, dou-me muito bem com ele e fico super feliz pelos resultados que tem
tido e por ver o esforço dele ser recompensado.»
Para Almeida, a questão não é
quem tem mais protagonismo.
«O que interessa é a nossa
capacidade e os nossos objetivos.»
E a frase encaixa
perfeitamente na forma como encara esta Vuelta.
Pogačar pode ser o líder.
Del Toro pode continuar a
crescer.
Mas ninguém está «bloqueado».
«É tudo uma questão de força e
capacidade física.»
No fundo, voltamos ao
princípio.
Só
depende das pernas.
A cabeça também pedala
Mas uma grande volta não se
corre apenas com as pernas.
Almeida sabe isso melhor do
que ninguém depois dos últimos meses.
«É muito frustrante trabalhar
tanto e depois não estar ao nível desejado.»
A frustração existe.
Seria estranho se não
existisse.
Mas o português recusa-se a transformar um período difícil numa tragédia.
«As coisas nem sempre correm
como queremos. Faz parte da vida ter percalços; se esse fosse o maior problema
das nossas vidas, acho que o mundo estaria muito melhor do que está.»
É uma das declarações mais
reveladoras de Almeida.
Porque, apesar da confiança
reduzida e de uma preparação que reconhece não ter sido ideal, não parece
haver qualquer sinal de desistência.
Muito pelo contrário.
«O ciclismo é a minha grande
paixão e o meu objetivo de vida. Tudo o que faço é com o objetivo de ser um ciclista melhor.»
A Vuelta começa este sábado.
João Almeida chega com
dúvidas.
Com pouca confiança.
Com um vírus que lhe roubou
meses, uma queda recente e uma preparação incompleta.
Mas também chega com talento,
experiência e três semanas para recuperar o que sente ter perdido.
E talvez a melhor definição da
sua Vuelta esteja numa frase que o próprio deixou pelo caminho:
«Mesmo que comece mal, espero
chegar à última semana melhor do que comecei.»
Almeida não promete o pódio.
Não promete uma vitória.
Nem promete lutar pela
geral.
No entanto, há uma situação que parece garantida: antes de Madrid, ninguém deve dar a resposta por ele.
- Obter link
- X
- Outras aplicações
Mensagens populares
João Almeida falha Clássica de San Sebastián e adia regresso
- Obter link
- X
- Outras aplicações
João Almeida sem espaço para reaprender no Dauphiné
- Obter link
- X
- Outras aplicações

Comentários
Enviar um comentário
Críticas construtivas e envio de notícias.