Matteo Jorgenson:“Não tivemos tempo para entrar em pânico”

 🖋️Por: António Vieira Pacheco

📅9 junho 2026

📸 Créditos: Direitos Reservados

⏱️ Tempo de leitura: 4 minutos

Matteo Jorgenson revelou como a Visma superou problemas com Wout van Aert e Ben Tulett para conquistar o contrarrelógio coletivo do Tour Auvergne-Rhône-Alpes.


Enquanto muitos observavam apenas o resultado da terceira etapa do Tour Auvergne-Rhône-Alpes, a vitória da Team Visma | Lease a Bike no contrarrelógio coletivo escondeu uma história bem diferente daquela que os tempos finais revelam. A equipa neerlandesa foi a mais rápida do dia, bateu a Netcompany INEOS por nove segundos e colocou Matteo Jorgenson numa posição privilegiada para o restante da corrida, mas o triunfo esteve longe de ser um percurso sem sobressaltos.

Após a etapa, o norte-americano conversou com o CyclingProNet e explicou que a estratégia desenhada antes da partida sofreu alterações profundas ao longo do percurso. Problemas físicos, um furo e algumas divisões no grupo obrigaram a equipa a improvisar constantemente para conquistar a vitória.

Plano alterado

A Visma entrou no contrarrelógio como uma das principais favoritas. A equipa havia preparado meticulosamente a etapa e acreditava possuir um dos blocos mais fortes da competição. No entanto, os acontecimentos na estrada obrigaram a mudanças quase imediatas.

Segundo Matteo Jorgenson, uma das primeiras dificuldades surgiu quando Wout van Aert não conseguiu corresponder ao papel que lhe estava destinado na estratégia inicial.

“Não saiu exatamente como planeado. Esperávamos que o Wout passasse a segunda subida na frente. Porém, ele não teve um bom dia; assim, ficamos sem um corredor importante e já tivemos de nos adaptar.”

A declaração do norte-americano ajuda a perceber a importância que Van Aert tinha no plano da equipa. O belga era uma das principais locomotivas previstas para a fase decisiva da etapa, mas acabou por não conseguir acompanhar o ritmo dos companheiros.

O resultado ficou bem visível nas imagens da chegada. Enquanto Jorgenson celebrava a vitória com os restantes elementos do grupo principal, Van Aert cruzava a linha de meta bastante mais tarde, isolado e sem influência no resultado da formação neerlandesa.

Novos problemas

Se perder um corredor da importância de Wout van Aert já representava um desafio significativo, a situação agravou-se pouco depois.

A Visma sofreu um novo contratempo quando Ben Tulett teve um furo numa fase crítica da etapa. O incidente quase provocou uma queda e obrigou a equipa a reorganizar-se rapidamente.

“Logo depois perdemos o Ben Tulett por um furo; ele quase caiu também, então tivemos algumas divisões na nossa equipa na descida.”

Num contrarrelógio coletivo, qualquer quebra de organização pode ter consequências devastadoras. As diferenças entre equipas de topo são frequentemente medidas em segundos e a perda de elementos importantes pode comprometer completamente uma estratégia construída ao detalhe.

Foi precisamente nessa fase que entrou em ação a estrutura técnica da equipa.

Ajuda decisiva

Apesar das dificuldades, Jorgenson fez questão de destacar o papel de Mathieu Heijboer, diretor desportivo da Visma, nos momentos mais complicados da etapa.

Segundo o norte-americano, a comunicação constante a partir do carro foi essencial para manter o grupo organizado e adaptar a estratégia em tempo real.

“Conseguimos adaptar-nos bem, graças ao Mathieu no carro, que geria a situação, fazia novos cálculos e redirecionava-nos.”

As palavras de Jorgenson ajudam a compreender a complexidade dos modernos contrarrelógios coletivos. Muito para além da força física dos corredores, estas etapas exigem coordenação permanente entre atletas, diretores desportivos, especialistas em aerodinâmica e analistas de desempenho.

A capacidade de reação da Visma acabou por transformar uma situação potencialmente desastrosa numa das melhores exibições coletivas da temporada.

Motores ligados

Após ultrapassar os momentos mais delicados da etapa, a equipa conseguiu reencontrar estabilidade e construir a vitória na fase final do percurso.

Jorgenson mostrou-se particularmente impressionado com o rendimento dos seus colegas após a segunda subida do dia.

“Estou orgulhoso da forma como os rapazes pedalaram depois da segunda subida.”

O norte-americano destacou especialmente Jörgen Nordhagen, uma das jovens promessas da equipa, mas também elogiou Per Strand Hagenes, Bruno Armirail e Edoardo Affini.

“O Jörgen estava muito forte e os nossos três grandes motores — Per, Bruno e Edoardo — fizeram a diferença na última descida.”

A referência aos “grandes motores” revela o papel fundamental dos especialistas do esforço prolongado na obtenção do resultado. Foi graças ao trabalho destes corredores que a equipa conseguiu manter uma velocidade elevadíssima até aos quilómetros finais.

Subida final

Com o trabalho dos companheiros concluído, chegou o momento de Matteo Jorgenson assumir o protagonismo.

O norte-americano explicou que beneficiou da excelente preparação dos colegas para chegar à subida final em condições ideais.

“Nos últimos quilómetros consegui apanhar vácuo até ao início da última subida e tinha boas pernas, por isso consegui finalizar.”

A aceleração final permitiu à Visma completar os 28 quilómetros do percurso em 32 minutos e 52 segundos, tornando-se a única equipa a baixar da barreira dos 33 minutos.

O resultado foi suficiente para derrotar a Netcompany INEOS por míseros nove segundos e conquistar uma das vitórias coletivas mais importantes da temporada.

Sem pânico

Apesar dos múltiplos problemas enfrentados durante a etapa, Jorgenson garantiu que nunca sentiu receio de perder a vitória.

Questionado sobre se houve algum momento de preocupação, a resposta foi imediata.

“Para mim, não. Eu realmente não tive tempo para entrar em pânico.”

A frase resume perfeitamente a abordagem do norte-americano durante a corrida.

“Não. Sinceramente, não tive tempo de entrar em pânico. O esforço já era duro e exigente o suficiente.”

Num esforço em que cada segundo conta, não havia espaço para pensar nas consequências dos problemas. O foco estava exclusivamente em continuar a produzir potência e executar as adaptações necessárias para salvar a estratégia.

Vitória especial

O triunfo também teve um significado emocional importante para Jorgenson.

O norte-americano admitiu que ainda sentia alguma desilusão. Os motivos foram os resultados obtidos nas clássicas das Ardenas, uma das fases da temporada em que mais ambicionava vencer.

“Significa muito. Queria realmente vencer nas Ardenas este ano; isso não aconteceu. Foi muito dececionante.” 

Por esse motivo, conquistar uma vitória numa prova importante do calendário francês representou uma forma de recuperar confiança.

“Perdi essa oportunidade; daí vir aqui e ter uma vitória é ótimo.”

Jorgenson aproveitou ainda para destacar o enorme trabalho realizado nos bastidores.

“Deixa-me orgulhoso de fazer parte desta equipa porque o desempenho de hoje é resultado do trabalho coletivo da direção, dos corredores, dos nutricionistas e de toda a estrutura.” 

A conversa terminou inevitavelmente com o Tour de France no horizonte.

A Visma acredita que todo o trabalho desenvolvido para este novo formato de contrarrelógio coletivo poderá trazer benefícios nas próximas semanas.

Segundo Jorgenson, vários elementos da equipa passaram períodos importantes de preparação conjunta em altitude, na Sierra Nevada, precisamente com esse objetivo.

“Colocámos muito trabalho nisto juntos.”

O norte-americano revelou ainda que a equipa espera reunir-se novamente com Jonas Vingegaard antes do arranque da Grande Boucle.

“Esperamos reunir-nos com o Jonas antes de Barcelona para treinarmos juntos como equipa e tentarmos ganhar o contrarrelógio coletivo do Tour.”

A mensagem deixa claro que a vitória conquistada no Tour Auvergne-Rhône-Alpes não é vista apenas como um sucesso isolado. Para a Visma, representa também um importante ensaio geral para os grandes objetivos da temporada.

>Após superar problemas com Van Aert, um furo de Tulett e várias alterações estratégicas em plena corrida, a equipa saiu da etapa com uma vitória, uma demonstração de profundidade coletiva e a convicção de que continua a ser uma das referências mundiais quando o assunto é trabalho de equipa.

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