🖋️Por: António Vieira Pacheco
📸 Créditos: Entrar no Mundo das Modalidades
⏱️ Tempo de leitura: 2 minutos
A espera inevitável
Crescemos a escutar que um jogador de qualidade não escolhe adversário. Que, para vencer um torneio, é necessário superar todos os adversários que surgem pelo caminho.
O discurso é bonito, quase épico — sobretudo
quando falamos dos outros. Na realidade do circuito, porém, o discurso muda. Importa distinguir a retórica daquilo que é verdadeiramente sério.
Nenhum tenista entra num sorteio a
desejar um Djokovic, um Sinner ou um Alcaraz logo na primeira ronda. Preferir um adversário teoricamente mais acessível não é falta de ambição. É sim gestão de carreira. E no Australian Open, como em qualquer Grand Slam, a espera pelo
quadro é tão inevitável quanto reveladora.
Olhar para a frente
Todos olham para o quadro. Uns fingem
que não, outros admitem-no sem pudor. Poucos jogadores se limitam à análise da
primeira ronda. A maioria vai mais longe, identifica o grande cabeça de série
da sua secção e percebe onde está posicionada no mapa do torneio.
Alguém acredita que o australiano
Alex de Minaur ficou satisfeito por defrontar o italiano Matteo Berrettini logo
na estreia, em casa e perante o seu público? Evidentemente que não. O sorteio
não se comenta por educação. Avalia-se em silêncio.
O caso Borges
Pensando como Nuno Borges, é
impossível ignorar a dimensão do desafio. O português volta a enfrentar um top
10 logo na primeira ronda, Félix Auger-Aliassime, num teste imediato à sua
capacidade competitiva ao mais alto nível. Borges sabe que já fez história nos Grand Slams, está ciente de que tem argumentos, mas também sabe que esta é uma estreia de
fogo.
Se olhar para o quadro, vê uma secção
exigente, sem espaço para crescimento gradual. Aqui, a realidade impõe-se ao
discurso: é preciso jogar perto do limite desde o primeiro dia.
Faria e o outro lado do quadro
Jaime Faria, por sua vez, teve um
quadro mais simpático. Não é fácil — porque isso não existe nos quadros principais
de Grand Slam —, mas claramente mais respirável. Arthur Cazaux é competitivo,
mas permite ao português entrar no torneio com a possibilidade real de discutir
o encontro.
E depois? Se vence, surge Andrey
Rublev. É aqui que a lógica do quadro entra em ação. Faria sabe onde está, sabe
o que pode ambicionar e sabe até onde pode sonhar. Respeitando todos, mas com
plena consciência do contexto.
Discurso versus realidade
Dizer que não se escolhe adversário
faz parte da liturgia do ténis. Preparar-se mentalmente para o que vem a seguir
faz parte da profissão. O quadro não garante vitórias, mas molda expectativas,
estratégias e até narrativas.
No Australian Open, os portugueses entram com desafios distintos, mas com algo em comum. Sabem perfeitamente o que o quadro lhes reserva. E isso, goste-se ou não, também joga.
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