Gabriel Rodrigues: “Representar Portugal é uma escolha de coração, orgulho e identidade”
🖋️Por: António Vieira Pacheco
📸 Créditos: Federação Portuguesa de Badminton
⏱️ Tempo de leitura: 6 minutos
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| Gabriel Rodrigues atento ao desenrolar da jogada na partida de pares. |
Gabriel Rodrigues nasceu a 15 de abril de 2002, em
Berre-l’Étang, no sul da França, perto de Marselha. Filho de mãe francesa e pai
português, cresceu entre duas culturas que influenciaram profundamente a sua
identidade pessoal e desportiva. França e Portugal fazem parte de quem é,
dentro e fora do campo.
Viveu em França até aos 19 anos,
altura em que decidiu mudar-se para as Caldas da Rainha, onde passou três anos
a viver e a treinar, em Portugal. Foi uma fase muito importante para o seu
crescimento pessoal e desportivo. Atualmente, regressou à região de Marselha,
onde continua a treinar e a evoluir no badminton de alto rendimento.
Além da carreira desportiva no badminton, sempre
valorizou os estudos. É licenciado em Matemática e encontra-se atualmente a frequentar um mestrado em Informática. Procura manter um equilíbrio entre a exigência do
desporto e a formação académica, acreditando que ambas se complementam e
contribuem para o seu desenvolvimento global.
A sua vida é marcada por uma forte
ligação entre os dois países. Representar Portugal no badminton é uma
escolha de coração. Sempre que veste a camisola da Seleção Nacional, sente
orgulho, responsabilidade e uma motivação extra para dar o seu melhor. É internacional português desde 2020 e conquistou várias medalhas em competições de juniores.
Entrar no Mundo das Modalidades — Nasceu e cresceu na França, mas tem raízes e ligações muito fortes com Portugal. De que forma essa identidade entre dois países influencia o seu percurso desportivo e pessoal.
Gabriel Rodrigues — Fora do campo, sinto-me privilegiado por poder viver entre várias culturas e falar diferentes línguas. É uma aprendizagem constante, sobretudo pela influência das duas partes da minha família. Dentro do
campo é igual porque aprendi com treinadores franceses e portugueses. Cada um
tem as suas próprias ideias e aprendi muito de cada lado.
EMM — Quando percebeu que o badminton
podia ser mais do que um passatempo e tornar-se uma carreira?
GR — Percebi isso quando tinha mais ou
menos 14 ou 15 anos. A participação em torneios internacionais e o aumento da intensidade dos treinos nessa fase permitiram-me começar a obter melhores resultados. Foram esses resultados
que me deram vontade de fazer mais e alcançar mais.
EMM — Que papel teve a sua
família no seu percurso no badminton?
GR — Iniciei a prática da modalidade por influência do meu tio, que também era praticante. Sem a minha família, dificilmente teria descoberto o badminton. Até porque ele foi o meu primeiro treinador e uma peça fundamental no meu desenvolvimento como atleta.
EMM — Representar a Seleção Nacional, mesmo tendo sido formado desportivamente em França, implica uma responsabilidade acrescida?
GR — Representar a Seleção Nacional é um
orgulho enorme. Escolhi representar Portugal e, quando jogo com a camisola da seleção, dou sempre o meu melhor. É uma grande responsabilidade, uma vez que os mais jovens nos observam, pelo que é fundamental dar sempre o exemplo, dentro e fora do campo.
EMM — Em três palavras,
como descreve a diferença entre jogar em França e em Portugal?
GR — É o mesmo desporto, com as mesmas regras, mas as comparações não são justas, já que cada país tem realidades estruturais e níveis de investimento bem diferentes. Mas se tivesse de escolher três palavras, diria:
densidade de jogadores, experiência de alto nível e profissionalismo. Quando há
mais investimento, há mais estrutura, mais jogadores e mais oportunidades —
está tudo ligado.
EMM — O modelo francês de formação
prepara melhor os atletas para o profissionalismo?
GR — O sistema francês proporciona uma melhor preparação dos atletas, fruto de maior investimento e melhores condições desde as fases mais precoces da formação. A realidade
financeira é diferente. Há muito mais estrutura profissional: centros de alto
rendimento em cada região, dois centros federais (Bordeaux e Strasbourg) e o
centro de alto rendimento em Paris para a seleção sénior. E isto sem contar com as academias privadas e com os clubes que dispõem de centros próprios, com treinadores a tempo inteiro. Quando os
miúdos entram nestas estruturas, com preparação física, equipa médica e
treinadores formados, o profissionalismo passa naturalmente. No entanto, volto a referir que não é justo comparar, uma vez que o investimento financeiro e as realidades estruturais são completamente diferentes
EMM — Que aprendizagens da França
acha que poderiam ser adaptadas em Portugal?
GR — penso que cada país deve ter o seu
próprio sistema. A França aprendeu muito com a Dinamarca, mas sem copiar. Para
Portugal, além das estruturas de treino, acho importante transmitir cedo as
exigências do alto nível: os sacrifícios, mas também a mensagem de que é
possível chegar lá. Isso fez muita diferença no meu percurso.
EMM — Como a França consegue atrair
tantos jovens para o badminton?
GR — Hoje são quase 250 000 pessoas a
jogar badminton em França. Conseguem ter tanta gente porque têm estruturas para
acolher todos. À volta de onde resido, há um clube a cada quase 10 quilómetros. Quando
alguém quer começar um desporto, é muito mais fácil quando está perto de casa.
Depois, há a cultura desportiva: quase todos os miúdos praticam pelo menos um
desporto fora da escola. E ter jogadores como o Christo Popov a ganhar
grandes torneios e aparecer nos media ajuda muito a atrair jovens.
EMM — Qual o papel das escolas e
clubes na captação de talento em França?
GR — O sistema é simples, mas funciona graças ao investimento que o sustenta e à organização que proporciona. Os jovens começam nos clubes ou nas escolas, integram as secções competitivas e participam em muitos torneios perto de casa, desenvolvendo gradualmente o gosto pela competição e pelo desporto de alto rendimento. Depois vêm as seleções departamentais e regionais, as
estruturas regionais com treinos diários, preparação física e torneios
internacionais. Com 12 ou 13 anos, já têm um pé na vida de atleta profissional.
Depois vêm os “Pôles France” e, para os melhores dos melhores, o INSEP, em
Paris. E isto é só o sistema federal — ainda há clubes profissionais e
academias privadas.
EMM — Se pudesse implementar uma mudança em Portugal para fazer o badminton crescer, qual seria a prioridade?
GR — É difícil dizer. Com mais
investimento poderíamos fazer muito mais em Portugal. Mas com pouco já fazemos
coisas bem. O primeiro passo seria ter mais clubes, ajudar estes a atrair mais
pessoas e aumentar o número de licenciados. Quanto maior for a base de praticantes, mais fácil será identificar e desenvolver novos talentos.
EMM — Há mais pressão para representar
Portugal, mesmo tendo sido formado em França?
GR — Não sinto mais pressão; sinto
orgulho. Representar Portugal é uma escolha, não um peso. Pelo contrário, dá-me
energia e motivação extra.
EMM — O que gostaria que dissessem
daqui a 10 anos sobre a sua carreira?
GR — Espero que as pessoas digam que foi
um sucesso, que alcancei grandes resultados. Mas no fim, a opinião dos outros
não é a mais importante.
EMM — Se o seu volante pudesse falar, o
que diria sobre si em cada treino e em cada competição?
GR — Sem dúvida que afirmaria: estou sempre a dar o meu melhor, a desafiar constantemente os meus limites e a seguir no caminho certo para atingir os meus objetivos.
EMM — Se tivesse que resumir a
carreira até agora em apenas um smash, como seria esse momento?
GR — É uma questão difícil de responder, mas acredito que foi um bom smash, sabendo que o melhor ainda está por vir.
EMM — Qual é a maior lição que o
campo ensinou que nenhum treinador ou livro de técnicas poderia ensinar?
GR — Os valores desportivos: a
resiliência do trabalho, lutar por um objetivo, tentar sempre e nunca desistir.
O respeito também é um valor essencial. Reforcei esse valor com a prática do desporto. O campo
ensinou-me muitas coisas. No interior do campo estamos sozinhos — mesmo quando temos
parceiro ou treinadores — e isso traz muita reflexão pessoal. Foi assim que
aprendi muito sobre mim mesmo.
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| O luso-francês em ação nas Caldas da Rainha. |
Um percurso marcado pela dualidade
entre França e Portugal, entre a exigência dos estudos e o rigor da alta
competição, no qual Gabriel Rodrigues continua a construir a sua história com
ambição, disciplina e determinação. O futuro é encarado com ambição, mas
também com humildade, seguindo uma filosofia simples: ‘Le meilleur reste à
venir’ — porque o melhor ainda está por vir.


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