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Ténis de Mesa nos Açores: Nove ilhas, três com sucesso no equador do Oceano Atlântico

🖋️Por: António Vieira Pacheco

📸 Créditos: Federação Portuguesa de Ténis de Mesa

🎥 Créditos RTP

⏱️ Tempo de leitura: 6 minutos
Júlia Leal festeja efusivamente uma vitória.
 Júlia Leal é o nome mais sonante do ténis de mesa açoriano.

Ondas de futuro!

Nas nove ilhas do arquipélago, onde o vento leva histórias e o mar molda os dias, há um desporto que cresce em silêncio. Longe das luzes do futebol, distante do barulho dos pavilhões cheios, o ténis de mesa floresce nos Açores como uma árvore resistente nas brumas da serra. Discreto, mas firme. Leve, mas sério. Uma modalidade onde a leveza da bola contrasta com o peso da dedicação.

Enquanto o mundo gira depressa, nas salas dos clubes de São Miguel, Terceira e Pico, a bola gira também — rápida, imprevisível, obedecendo somente ao compasso do gesto e à escuta do instante. 

No ténis de mesa das nove ilhas açorianas, não se vê somente um jogo. Ele é uma prática, uma trajetória, uma forma de comunicação entre diferentes gerações.

Pequenas salas, grandes sonhos

Tudo começa de forma simples. Uma mesa que serve de palco, duas raquetes como extensões das mãos, uma rede que separa mundos e uma bola delicada, leve como um suspiro. Nas escolas e nos clubes locais que muitos jovens açorianos descobrem esta modalidade, muitas vezes por acaso. Mas o que começa como curiosidade, depressa se transforma em paixão — e, em alguns casos, em percurso competitivo sério.

RTP transmite uma competição de ténis de mesa.
Atletas em prova nos Regionais dos Açores.

Na ilha de São Miguel, o Clube União Desportiva do Porto Formoso tem sido um berço, onde se semeia o futuro do ténis de mesa com mãos pacientes e corações dedicados. É ali que nomes como Ema Pacheco, Afonso Mendonça ou Júlia Vieira começaram a construir o seu percurso, com treinos diários e espírito de superação. A dedicação destes jovens é notável: entre a escola, os treinos e as viagens para competições regionais ou nacionais, o ténis de mesa transforma-se numa disciplina de vida.

Do Pico emergem nomes como a Casa do Povo da Madalena e o icónico Grupo Desportivo Os Toledos, que no passado brilhou em competições nacionais e internacionais e fez ecoar o nome da ilha fora de portas. Ainda hoje, os seus pavilhões acolhem treinos, menos do que o passado, torneios locais e o entusiasmo de quem encontra no jogo uma paixão que se transmite de geração em geração.

Juncal, Terceira: Um farol de excelência

No cenário tranquilo da Terceira, entre campos verdejantes e construções de outros tempos, sobressai um nome de peso: o Clube Desportivo Social do Juncal, fundado em 2003. A história do clube, iniciada em 2003, é exemplo de como o esforço local pode gerar projeção nacional. Em 2019, a equipa masculina venceu o Campeonato Nacional da 1.ª Divisão, um feito histórico para um clube insular.

Essa conquista não foi um acaso. Esse feito foi resultado de um projeto sólido, que contou com a presença de jogadores e jogadoras estrangeiros experientes. A presença em competições europeias, como a Taça ETTU, tornou o Juncal um embaixador da Terceira em palcos internacionais.

Júlia em ação numa partida de ténis de mesa..
Júlia Leal, a estrela açoriana do ténis de mesa.
Mas mais do que títulos, o Juncal é uma escola de formação. A sua base jovem é ativa, entusiasta e focada. Num pavilhão onde ecoa o som constante da bola, criam-se campeões, mas sobretudo cidadãos com valores sólidos. Júlia Leal é a grande promessa do ténis de mesa dos Açores, internacional portuguesa de sub-15, sub-17 e sub-19. Pelo Juncal, conquistou o título nacional da I Divisão sénior na presente temporada.

Competições com alma insular

Todos os anos, o calendário do ténis de mesa nos Açores preenche-se com torneios regionais e nacionais. O Campeonato Regional, que teve lugar na Terceira e no Pico, juntou dezenas de atletas dos três principais polos da modalidade.

Mais do que competições, o 'Cidade da Ribeira Grande' e o Torneio do Arrifes — dinamizados pela incansável Associação de Ténis de Mesa de São Miguel — tornam-se cenários de comunhão, onde o ténis de mesa se mistura com o espírito de pertença e superação.

As partidas são guiadas pelo respeito, pela honra e por um senso coletivo de dedicação. Cada raquete representa horas de treino, cada ponto é uma conquista contra o isolamento e as dificuldades logísticas de competir num arquipélago.

Silêncio, precisão e escuta

O ténis de mesa exige uma atenção rara. Os atletas não falam, escutam. Não correm, deslocam-se com leveza. Nem gritam, respiram. O movimento carrega um ar meditativo — cada ponto surge como um momento único como um bailado, que merece ser vivido com total atenção e presença.

Nos Açores, esse ritmo encaixa com naturalidade. Aqui, os dias deslizam num ritmo diferente, e o jogo desenha-se com profundidade.
Nas ilhas, o ténis de mesa é a respiração do próprio lugar — um sussurro que chama ao silêncio, um convite à presença, um ensinamento de paciência que floresce no tempo.

Resistência, identidade e comunidade

Ser atleta de competição nos Açores é enfrentar desafios únicos. Os custos de deslocação são elevados, os apoios escassos e o acesso ao continente obriga a sacrifícios. Ainda assim, clubes como o Juncal, o Porto Formoso, o Sebastianense e Os Toledos (no vídeo podem escutar a entrevista a André Silva, campeão nacional em 2013/2014) mantêm viva a chama da modalidade com espírito ilimitado e com os apoios do Governo Regional dos Açores.

As famílias participam, os treinadores são muitas vezes voluntários, e as vitórias são sentidas como conquistas coletivas. Cada viagem é uma aventura, cada torneio uma celebração da resistência.

Entre o mar e a raquete

A geografia insular é um desafio, mas também fonte de inspiração. O ténis de mesa, como a vida nas ilhas, exige adaptação constante. Uma bola ligeira, um movimento preciso, uma resposta imediata. Há paralelismos entre o jogo e o quotidiano açoriano: a observação cuidadosa, o tempo certo, o respeito pelo adversário e pela natureza.

No Juncal, essa ligação é visível. Os treinos decorrem entre o verde das encostas e a brisa do Atlântico. No Pico, o vulcão vigia silenciosamente os jogos. Em São Miguel, o eco do mar mistura-se ao som ritmado da bola.

Uma juventude em movimento

Está a crescer nos Açores uma geração de jovens atletas que alia talento técnico a uma maturidade rara. Contudo, há muito valor além dos nomes que ganham destaque. Atrás de cada atleta, há uma ilha, uma escola, um treinador, uma família, uma comunidade.

O ténis de mesa, mesmo com visibilidade reduzida, molda carácter. Ensina foco, paciência, resiliência. É uma escola sem quadro nem manual, mas com valores que ficam para a vida.

Um jogo, muitas ilhas, e uma voz

O ténis de mesa nos Açores é uma lição de persistência e paixão. Numa região onde tudo chega mais tarde e custa mais caro, esta modalidade mostra que o talento, quando cuidado, ultrapassa fronteiras.

E talvez seja por isso que, mesmo em silêncio, o som da bola a bater na mesa tenha tanto significado. É um som de presença. De quem está, de quem insiste, de quem acredita.

Numa mesa de jogo, entre raquetes e gestos contidos, os Açores encontram espelho: pequenos à vista, imensos por dentro. É uma identidade que se revela no silêncio e na persistência.

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