🖋️Por: António Vieira Pacheco
📸 Créditos: Direitos Reservados/Federação Portuguesa de Badminton
⏱️ Tempo de leitura: 6 minutos
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| Diogo Glória adora estar no recinto de jogo. |
O percurso até ao recinto
Na véspera do Campeonato Nacional de Badminton absoluto, onde é um dos principais candidatos ao título, Diogo Glória recebeu o Entrar no Mundo das Modalidades para uma conversa sobre o jogo, a mente e os sonhos que o movem.
Com somente 23 anos, o atleta natural de Peniche representa
a equipa algarvia CHE Lagoense e concilia o desporto de alta
competição com o curso de medicina. Entre raquetes, volantes e
horas de treino — visíveis e invisíveis —, o jovem atleta partilha a sua visão
sobre o jogo, a mente e os sonhos que o movem.
Entrar no Mundo das Modalidades (EMM) — Como o badminton entrou na sua vida — foi amor à primeira raquete ou uma paixão que cresceu com o tempo?
Diogo Glória (DG) — Na altura, fazia competição de natação e jogava
futsal. Por vezes, ia com o meu pai — que jogou badminton quando era mais novo,
em conjunto com o meu tio — treinar ao pavilhão de Peniche. Comecei a gostar de
pegar na raquete e a dar umas chicotadas no volante. Tornou-se incompatível
praticar os três desportos ao mesmo tempo, e acabei por me focar somente no
badminton.
EMM — O som do volante a bater na raquete desperta-lhe mais concentração, adrenalina ou tranquilidade?
DG — Sou uma pessoa muito competitiva, talvez até demais. Sempre que entro em campo, os meus níveis de adrenalina sobem ao máximo.
EMM — Quando está em campo, joga mais contra o
adversário ou contra os seus próprios limites?
DG — Tenho consciência do meu valor e sei que, muitas vezes, o
nível apresentado em competição não corresponde àquilo que consigo fazer. Por
isso, jogo a maioria do tempo contra a minha cabeça — mas nunca tiro o mérito
aos meus adversários.
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| Diogo Glória olha para o volante a pensar na vitória. |
EMM — Há algum ponto perdido que lhe tenha ensinado mais do que qualquer vitória?
DG — Todas as derrotas ensinam-me qualquer coisa. Tento sempre retirar uma lição, algo que tenha de melhorar, para conseguir reverter o resultado da próxima vez.
EMM — O badminton é um jogo de leveza e explosão.
Como encontra o equilíbrio entre técnica e instinto?
DG — Sou um jogador muito explosivo e, muitas vezes, preciso de
sair dessa perspetiva para evidenciar as minhas habilidades técnicas e tornar o
jogo mais tático. Com exercícios de respiração e foco na parte tática que
preparei do jogo, consigo equilibrar essas duas vertentes.
EMM — O que é mais desafiante de treinar: a mente, o
corpo ou a paciência?
DG — Sem dúvidas, a mente. Não há um método de treino específico
que diga: “se treinar assim, vai ter resultados”. Já os aspetos físicos,
técnicos e táticos podem ser evoluídos com um plano consistente.
EMM — Já houve dias em que o corpo lhe disse “não”, mas a vontade respondeu “sim”?
DG — Claramente — aliás, acontece-me na maior parte dos torneios. A
carga de encontros é tão grande num curto espaço de tempo que, se a vontade não
for maior que o cansaço corporal, não há hipótese de disputar os jogos que
quero ganhar.
O poder da disciplina
EMM — O treino invisível — aquele que ninguém vê — é o que mais pesa nas suas vitórias?
DG — Na verdade, quando adotamos este estilo de vida de atleta,
estamos sempre a treinar, porque cada decisão, cada opção que tomamos em prol
de outra, vai causar impacto na nossa desempenho. O treino invisível será
sempre o fator desencadeante de muitas vitórias.
EMM — Como transforma a fadiga em foco quando o jogo
entra no limite?
DG — A análise pré-jogo tem um papel fundamental no transformar de
fadiga em foco porque, nesses momentos, é importante ter algo para nos guiar.
Por outro lado, confio na minha capacidade de sacrifício e na minha reflexão
crítica.
EMM — Quando representa Portugal, sente mais orgulho
ou responsabilidade?
DG — Representar Portugal é o sonho de qualquer atleta e a
responsabilidade de vestir a camisola portuguesa pesa sempre mais que outro
sentimento, porque quando entramos em campo representamos não só a
nossa pessoa, mas cada um que almeja estar na nossa posição e, claro, ser um
exemplo para todos os atletas mais novos.
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| As saudades do volante e a relação próxima. |
DG — Diria que o trato bem na maior parte das vezes, que gosto de o
observar no chão do campo adversário e que temos uma relação próxima, porque
quando não o vejo por mais de dois dias fico com saudades.
Valores dentro e fora do court
EMM — Que valores leva consigo para o campo — e
quais traz dele para a vida?
DG — Sou muito convicto de que em campo tenho de ser igual, a
mim próprio, convicto da minha integridade como ser humano, e são esses os
primeiros valores que entrego. Para mim, o desporto sempre teve um papel
fulcral na minha personalidade enquanto civil, porque me ensinou a ser mais
disciplinado, a acatar responsabilidades e a utilizar o desporto como
ferramenta para organizar a minha rotina.
EMM — Há algum atleta, dentro ou fora do badminton,
que o inspire?
DG — Há tantos que nem consigo enumerar, mas Kobe Bryant, Rafael
Nadal, Cristiano Ronaldo e Michael Phelps são alguns daqueles que me fizeram
vibrar enquanto espetador e também me inspiraram e continuam a inspirar com a
sua ética de trabalho e modo como vivem.
Sonho, medo e superação
EMM — Que sonho ainda o faz levantar todos os dias
para treinar?
DG — Acho que é transversal a todos os atletas que almejam ser
profissionais no seu desporto: pisar um dia no maior palco do desporto mundial
que são os Jogos Olímpicos. É isso que, muitas das vezes, quando durmo
tão bem, está frio fora da cama e tenho dores no corpo todo, faz-me sair de
casa e dar tudo de mim, todo o santo dia.
EMM — Como vence o medo quando o jogo está no fio da
decisão?
DG — Na minha opinião, não se deve tentar vencer o medo, mas sim
usá-lo como alavanca, através da pressão inerente ao mesmo, para conseguirmos
atingir patamares do nosso jogo que sem essa pressão, nunca conseguiríamos
alcançar.
EMM — Tem algum ritual antes de entrar em campo?
DG — Costumo ouvir música de Carnaval ou fado antes de cada encontro,
para conseguir relativizar a competição, porque, no final de contas, é só
um simples jogo e não é isso que me vai fazer ser melhor ou pior pessoa. Por
outro lado, dedico todos os meus encontros à minha família através dos acessórios
que levo para o interior do court e utilizo sempre a mesma fórmula de nutrição em
cada jogo.
O futuro do badminton português
EMM — Como imagina o badminton português daqui a 10
anos?
DG — É uma pergunta difícil de responder presentemente, no entanto,
espero que os resultados internacionalmente estejam mais equiparados aos
outros países europeus, que haja possibilidade dos atletas se
profissionalizarem e que as perspetivas de estrutura dos clubes evoluam.
EMM — Qual é o momento em que o mundo desaparece e
só existe o jogo?
DG — Gosto de sentir que, para além de mim, há muitas
mais coisas a acontecer. Não sou apologista de nos distanciarmos do resto,
porque sinto que isso só faz a pressão aumentar. No final de contas, sou só
mais um num pavilhão cheio de amantes de volantes e raquetes.



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