Destaque do Universo do Ciclismo e dos Desportos de Raquetes

Assessoria de imprensa ou barreira à informação no desporto?

  António Vieira Pacheco

1 de novembro de 2026
DIREITOS RESERVADOS — EMM

Leitura estimada: 2 min



Há uma pergunta que tem de ser feita a quem exerce funções de assessoria de imprensa: afinal, para que serve um assessor?

A questão não é meramente teórica. Algumas situações vividas no contacto com estruturas desportivas levantam dúvidas sobre como certas assessorias encaram a relação com os jornalistas.

No ténis, perante um pedido de credencial de imprensa, a resposta foi uma pergunta: para que queria o jornalista a credencial?

Noutro episódio, perante um pedido de contacto de uma atleta de ciclismo, a solução apresentada foi remeter o jornalista às redes sociais.

Dois episódios distintos, mas com um denominador comum: a dificuldade em compreender que a assessoria de imprensa existe, entre outras razões, para facilitar o trabalho dos jornalistas.

Uma credencial não é um favor

É legítimo haver procedimentos de acreditação, critérios de acesso e regras de organização dos eventos desportivos. Ninguém contesta isso.

O que merece reflexão é a necessidade de questionar a finalidade de um pedido de credencial de imprensa, como se o jornalista tivesse de justificar previamente a razão pela qual pretende exercer a sua atividade.

Uma credencial permite aos profissionais da comunicação social o acesso aos acontecimentos desportivos, segundo as regras estabelecidas pela organização. Não é um favor pessoal, nem um privilégio que deva ser tratado como uma concessão discricionária.

Se existem critérios, devem ser explicados. Se é necessário apresentar documentação, deve ser indicado o procedimento. A função de um gabinete de imprensa também passa por: informar, esclarecer e facilitar.

As redes sociais não fazem jornalismo!

A outra situação não é menos reveladora.

Perante um pedido de contacto de uma atleta, a resposta foi encaminhar o jornalista para as redes sociais.

Desde quando é que a assessoria de imprensa se resume a indicar páginas de Facebook ou de Instagram?

Não estava em causa exigir o número de telefone privado da atleta, nem obrigá-la a conceder uma entrevista. Estava em causa solicitar a colaboração de quem deveria assegurar a ligação entre os protagonistas desportivos e os órgãos de comunicação social.

A resposta poderia ter sido simples: encaminhar o pedido à atleta, perguntar-lhe se estaria disponível para falar ou facilitar um eventual contacto, respeitando a sua privacidade e vontade.

Em vez disso, optou-se pela solução mais cómoda: remeter o jornalista para as redes sociais.

Mas uma publicação no Instagram não substitui uma entrevista. Um comunicado não responde a uma pergunta adicional. Uma fotografia acompanhada de algumas palavras não permite aprofundar um assunto.

Comunicação não é jornalismo

É fundamental perceber que a comunicação institucional e o jornalismo têm objetivos diferentes.

Nas redes sociais, uma instituição ou um atleta publica o que entende, quando considera oportuno e nos termos que escolhe. O jornalismo tem outra natureza: procura informação, faz perguntas, pede esclarecimentos, confronta versões e tenta chegar à origem dos acontecimentos.

A comunicação social não existe para reproduzir exclusivamente os conteúdos que clubes, federações ou atletas decidem disponibilizar nos seus canais oficiais.

Um jornalista tem de poder procurar fontes, solicitar entrevistas e fazer perguntas. É esse trabalho que distingue a informação jornalística da comunicação promocional.

Naturalmente, nenhum atleta ou dirigente é obrigado a conceder entrevistas. Também não cabe ao assessor divulgar contactos pessoais sem autorização. Mas entre respeitar a privacidade de um protagonista e ignorar a responsabilidade de facilitar um pedido de contacto existe uma diferença considerável.

O assessor não é o dono da informação

Um assessor de imprensa trabalha para a instituição que representa. Tem responsabilidades na gestão da comunicação, na organização de entrevistas, na divulgação de informações e no relacionamento com os órgãos de comunicação social.

Não é, porém, o proprietário da informação, nem deve assumir o papel de porteiro que decide quem merece o acesso às fontes.

A sua função não é controlar os jornalistas, selecionar as perguntas que lhes devem ser permitidas ou transformar pedidos legítimos de informação em obstáculos burocráticos.

Pode estabelecer procedimentos, explicar as regras e proteger a privacidade dos atletas. O que nem deve fazer é confundir organização com condicionamento ou com gestão da comunicação e com afastamento dos jornalistas.

Uma assessoria de imprensa deve ser uma ponte entre as instituições e a comunicação social. Nunca um muro.

Quando um pedido de credencial é recebido com desconfiança e um pedido de contacto acaba numa indicação para procurar alguém nas redes sociais, fica uma pergunta inevitável: estamos perante verdadeiras assessorias de imprensa ou perante estruturas que confundem comunicação institucional com controlo do acesso à informação?

Os jornalistas não precisam de assessores que lhes mandem ir às redes sociais para contactar alguém. Precisam de interlocutores que compreendam a importância do seu trabalho e estejam disponíveis para colaborar dentro das regras e dos limites de cada instituição.

Porque se é para procurar tudo no Facebook e no Instagram, dispensam-se os gabinetes de imprensa. O jornalista sabe perfeitamente onde estão as redes sociais.

Comentários