Assessoria de imprensa ou barreira à informação no desporto?
Há uma pergunta que tem de ser feita a quem exerce funções de assessoria de
imprensa: afinal, para que serve um assessor?
A questão não é meramente
teórica. Algumas situações vividas no contacto com estruturas desportivas
levantam dúvidas sobre como certas assessorias encaram a relação com os
jornalistas.
No ténis, perante um pedido de
credencial de imprensa, a resposta foi uma pergunta: para que queria o
jornalista a credencial?
Noutro episódio, perante um
pedido de contacto de uma atleta de ciclismo, a solução apresentada foi remeter
o jornalista às redes sociais.
Dois episódios distintos, mas com um denominador comum: a dificuldade em compreender que a assessoria de imprensa existe, entre outras razões, para facilitar o trabalho dos jornalistas.
Uma credencial não é um favorÉ legítimo haver procedimentos de acreditação, critérios de acesso e regras de organização dos
eventos desportivos. Ninguém contesta isso.
O que merece reflexão é a
necessidade de questionar a finalidade de um pedido de credencial de imprensa,
como se o jornalista tivesse de justificar previamente a razão pela qual
pretende exercer a sua atividade.
Uma credencial permite aos profissionais da comunicação social o acesso aos acontecimentos desportivos, segundo as regras estabelecidas pela organização. Não é um favor
pessoal, nem um privilégio que deva ser tratado como uma concessão discricionária.
Se existem critérios, devem
ser explicados. Se é necessário apresentar documentação, deve ser indicado o
procedimento. A função de um gabinete de imprensa também passa por: informar,
esclarecer e facilitar.
As redes sociais não fazem jornalismo!
A outra situação não é menos
reveladora.
Perante um pedido de contacto
de uma atleta, a resposta foi encaminhar o jornalista para as redes sociais.
Desde quando é que a
assessoria de imprensa se resume a indicar páginas de Facebook ou de Instagram?
Não estava em causa exigir o
número de telefone privado da atleta, nem obrigá-la a conceder uma entrevista.
Estava em causa solicitar a colaboração de quem deveria assegurar a ligação
entre os protagonistas desportivos e os órgãos de comunicação social.
A resposta poderia ter sido
simples: encaminhar o pedido à atleta, perguntar-lhe se estaria disponível para
falar ou facilitar um eventual contacto, respeitando a sua
privacidade e vontade.
Em vez disso, optou-se pela
solução mais cómoda: remeter o jornalista para as redes sociais.
Mas uma publicação no
Instagram não substitui uma entrevista. Um comunicado não responde a uma
pergunta adicional. Uma fotografia acompanhada de algumas palavras não permite
aprofundar um assunto.
Comunicação não é jornalismo
É fundamental perceber que a
comunicação institucional e o jornalismo têm objetivos diferentes.
Nas redes sociais, uma
instituição ou um atleta publica o que entende, quando considera oportuno
e nos termos que escolhe. O jornalismo tem outra natureza: procura informação,
faz perguntas, pede esclarecimentos, confronta versões e tenta chegar à origem
dos acontecimentos.
A comunicação social não
existe para reproduzir exclusivamente os conteúdos que clubes, federações ou
atletas decidem disponibilizar nos seus canais oficiais.
Um jornalista tem de poder
procurar fontes, solicitar entrevistas e fazer perguntas. É esse trabalho que
distingue a informação jornalística da comunicação promocional.
Naturalmente, nenhum atleta ou
dirigente é obrigado a conceder entrevistas. Também não cabe ao assessor
divulgar contactos pessoais sem autorização. Mas entre respeitar a privacidade
de um protagonista e ignorar a responsabilidade de facilitar um pedido de
contacto existe uma diferença considerável.
O assessor não é o dono da informação
Um assessor de imprensa
trabalha para a instituição que representa. Tem responsabilidades na gestão da comunicação, na organização de entrevistas, na divulgação de informações e no relacionamento com os órgãos de comunicação social.
Não é, porém, o proprietário
da informação, nem deve assumir o papel de porteiro que decide quem merece o acesso às fontes.
A sua função não é controlar
os jornalistas, selecionar as perguntas que lhes devem ser permitidas ou
transformar pedidos legítimos de informação em obstáculos burocráticos.
Pode estabelecer
procedimentos, explicar as regras e proteger a privacidade dos atletas. O que nem deve fazer é confundir organização com condicionamento ou com gestão da comunicação e com afastamento dos jornalistas.
Uma assessoria de imprensa
deve ser uma ponte entre as instituições e a comunicação social. Nunca um muro.
Quando um pedido de credencial
é recebido com desconfiança e um pedido de contacto acaba numa indicação para
procurar alguém nas redes sociais, fica uma pergunta inevitável: estamos
perante verdadeiras assessorias de imprensa ou perante estruturas que confundem
comunicação institucional com controlo do acesso à informação?
Os jornalistas não precisam de
assessores que lhes mandem ir às redes
sociais para contactar alguém. Precisam de interlocutores que compreendam a importância do seu
trabalho e estejam disponíveis para colaborar dentro das regras e dos limites
de cada instituição.
Porque se é para procurar
tudo no Facebook e no Instagram, dispensam-se os gabinetes de imprensa. O
jornalista sabe perfeitamente onde estão as redes sociais.

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