Iúri Leitão deixa aviso sobre a pista lusa: «O futuro nunca está garantido»
António Vieira Pacheco
Leitura estimada: 2 min
O campeão
mundial de Omnium chegou a Lisboa depois de uma semana marcada por um problema no músculo, quatro medalhas portuguesas em Xangai e a confirmação de que o
trabalho continua a dar frutos. Agora, quer descansar antes de voltar a pensar
nos próximos desafios.
Iúri Leitão regressou a
Portugal com mais um título mundial, uma medalha de prata no Madison e a
sensação de ter ultrapassado uma das semanas mais exigentes da carreira. À
chegada ao Aeroporto de Lisboa, esta terça-feira, o ciclista português explicou
como um problema muscular pôs em dúvida a participação nos Mundiais de pista,
em Xangai, antes de uma recuperação que lhe permitiu voltar ao topo do Omnium.
«A falta de preparação não
seria o que me impediria de conquistar uma medalha», afirmou o corredor da Caja
Rural, consciente de que o trabalho realizado antes da competição lhe permitiu
manter a ambição, apesar das dificuldades.
A conquista teve um
significado especial para o vianense, de 28 anos, que voltou a sagrar-se
campeão do mundo da disciplina, depois do primeiro título alcançado em Glasgow,
em 2023. Desta vez, porém, o caminho foi marcado pela incerteza e pela
necessidade de recuperar a tempo de competir.
Uma semana de dúvidas
O problema muscular obrigou a
comitiva portuguesa a gerir cuidadosamente os dias anteriores à competição.
Iúri Leitão fez questão de destacar o apoio recebido do selecionador nacional,
Gabriel Mendes, dos terapeutas e do médico da equipa.
«Toda a gente esteve do meu
lado», explicou, sublinhando a união do grupo durante um período em que chegou
a existir a possibilidade de não conseguir competir.
A recuperação acabou por
permitir a presença em pista e, consequentemente, um desfecho que superou as
expectativas. O campeão português reconheceu que não era possível antecipar com
segurança o resultado, sobretudo perante adversários cuja preparação e condição
física desconhecia.
«Era muito difícil definir um
objetivo claro», admitiu, recordando que a equipa considerava possível alcançar
um lugar entre os cinco primeiros. Terminar no lugar mais alto do pódio tornou
o resultado ainda mais significativo.
A vitória trouxe também
alívio. Depois de três anos sem conseguir discutir o título mundial de omnium,
por diferentes circunstâncias, Iúri Leitão voltou a confirmar a capacidade para
competir ao mais alto nível numa disciplina em que cada detalhe pode determinar
o resultado.
«Fiquei extremamente feliz e
aliviado de todo o trabalho ter dado resultados», confessou.
O descanso depois do sucesso
A temporada terminou com um
balanço particularmente positivo. Ao ouro no Omnium e à prata no Madison dos
Mundiais juntaram-se os resultados alcançados nos Europeus de Konya, na
Turquia, onde conquistou novamente o título de Omnium e foi segundo no Madison,
ao lado de Diogo Narciso.
Na estrada, o próprio
considera ter vivido a melhor época da carreira até ao momento. Um conjunto de
resultados que explica a vontade de interromper a rotina competitiva e
recuperar energias.
«O próximo objetivo é ir de
férias», anunciou, sem esconder a satisfação por ter cumprido as
metas traçadas para a temporada.
O segundo título mundial de Omnium coloca-o também perante a possibilidade de alcançar um feito inédito: conquistar três títulos mundiais na especialidade. Iúri Leitão admitiu
desconhecer que dois títulos constituíam o máximo alcançado até agora, mas
recebeu com agrado essa perspetiva.
Mais do que perseguir
recordes, o objetivo passa por prolongar a carreira competitiva. «Se puder
estar competitivo a este nível, eu hei de tentar», afirmou, desejando terminar
o percurso desportivo com a sensação de realização.
Los Angeles ainda está longe
Os Jogos Olímpicos de Los
Angeles, em 2028, já fazem parte do horizonte, mas Iúri Leitão evita
transformar os resultados recentes numa promessa de sucesso futuro.
O português, campeão olímpico
no Madison com Rui Oliveira, conquistou a prata mundial da disciplina ao lado
de Ivo Oliveira. Ainda assim, a definição da aposta olímpica entre o Omnium e o
Madison cabe ao selecionador nacional.
Antes de pensar numa eventual
convocatória, existe uma condição indispensável: Portugal terá de garantir a
qualificação.
«Primeiro temos de tentar
qualificar a nação», salientou, lembrando que o processo começou nos Mundiais
de Xangai. Só depois dessa etapa será possível discutir escolhas e objetivos
concretos para os Jogos.
A prudência estende-se às
expectativas para 2028. O ciclista recorda que cada época e cada preparação são
diferentes, tal como a condição dos adversários. Por isso, recusa-se a
antecipar classificações.
A garantia que deixa é outra:
a equipa continuará a trabalhar para chegar à competição nas melhores condições
possíveis, mantendo a concentração mesmo perante eventuais contratempos.
Para além dos resultados, Iúri
Leitão deixou uma mensagem clara sobre a evolução do ciclismo de pista em
Portugal. Apesar das quatro medalhas conquistadas pela seleção em Xangai,
considera que o crescimento da disciplina exige continuidade no investimento.
«O futuro nunca está garantido
se não continuarmos a apostar nele», advertiu.
Na sua perspetiva, Portugal
dispõe de atletas capazes de sustentar o desenvolvimento da modalidade. O
desafio está em manter o trabalho e assegurar condições para que esse potencial
se transforme em novos resultados internacionais.
O campeão mundial reconhece
que as condições oferecidas à seleção têm melhorado de ano para ano, mas
considera que ainda existe uma diferença entre os meios disponíveis e o nível
alcançado pelos corredores portugueses.
«Nós estamos no topo do mundo
e as nossas condições não estão no topo do mundo»,
observou, ressalvando, contudo, o esforço realizado para melhorar a situação.
A evolução da pista também tem
de ser entendida à luz da história do ciclismo português. Com uma tradição
muito mais recente do que a estrada, a disciplina olímpica precisa de tempo
para conquistar maior dimensão e reconhecimento.
Os resultados internacionais
têm ajudado a acelerar esse processo, mas, para Iúri Leitão, não bastam
vitórias isoladas: é necessário continuar a investir e criar condições para que
surjam mais atletas capazes de lutar por medalhas.
Estrada e pista de mãos dadas
O percurso de Iúri Leitão
demonstra, precisamente, que as duas vertentes podem complementar-se. O
português compete tanto na pista como na estrada e considera que nenhuma deve
ser encarada isoladamente.
Questionado sobre qual das
disciplinas beneficia mais a outra, foi direto: «As duas são extremamente
importantes uma para a outra e não dá para não se conjugar as duas».
A mensagem deixada no regresso
a casa junta, assim, a satisfação por mais um título à consciência de que o
trabalho está longe de terminar. Primeiro, o descanso merecido e depois de uma
temporada de excelência. Depois, a preparação para novos desafios, com Los
Angeles no horizonte e a ambição de continuar a colocar Portugal entre os
melhores do mundo.


Comentários
Enviar um comentário
Críticas construtivas e envio de notícias.