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Iúri Leitão deixa aviso sobre a pista lusa: «O futuro nunca está garantido»

  António Vieira Pacheco

20 de outubro de 2026
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Leitura estimada: 2 min 

Iuri Leitão no aeroporto de Lisboa.

O campeão mundial de Omnium chegou a Lisboa depois de uma semana marcada por um problema no músculo, quatro medalhas portuguesas em Xangai e a confirmação de que o trabalho continua a dar frutos. Agora, quer descansar antes de voltar a pensar nos próximos desafios.

Iúri Leitão regressou a Portugal com mais um título mundial, uma medalha de prata no Madison e a sensação de ter ultrapassado uma das semanas mais exigentes da carreira. À chegada ao Aeroporto de Lisboa, esta terça-feira, o ciclista português explicou como um problema muscular pôs em dúvida a participação nos Mundiais de pista, em Xangai, antes de uma recuperação que lhe permitiu voltar ao topo do Omnium.

«A falta de preparação não seria o que me impediria de conquistar uma medalha», afirmou o corredor da Caja Rural, consciente de que o trabalho realizado antes da competição lhe permitiu manter a ambição, apesar das dificuldades.

A conquista teve um significado especial para o vianense, de 28 anos, que voltou a sagrar-se campeão do mundo da disciplina, depois do primeiro título alcançado em Glasgow, em 2023. Desta vez, porém, o caminho foi marcado pela incerteza e pela necessidade de recuperar a tempo de competir.

Uma semana de dúvidas

O problema muscular obrigou a comitiva portuguesa a gerir cuidadosamente os dias anteriores à competição. Iúri Leitão fez questão de destacar o apoio recebido do selecionador nacional, Gabriel Mendes, dos terapeutas e do médico da equipa.

«Toda a gente esteve do meu lado», explicou, sublinhando a união do grupo durante um período em que chegou a existir a possibilidade de não conseguir competir.

A recuperação acabou por permitir a presença em pista e, consequentemente, um desfecho que superou as expectativas. O campeão português reconheceu que não era possível antecipar com segurança o resultado, sobretudo perante adversários cuja preparação e condição física desconhecia.

«Era muito difícil definir um objetivo claro», admitiu, recordando que a equipa considerava possível alcançar um lugar entre os cinco primeiros. Terminar no lugar mais alto do pódio tornou o resultado ainda mais significativo.

A vitória trouxe também alívio. Depois de três anos sem conseguir discutir o título mundial de omnium, por diferentes circunstâncias, Iúri Leitão voltou a confirmar a capacidade para competir ao mais alto nível numa disciplina em que cada detalhe pode determinar o resultado.

«Fiquei extremamente feliz e aliviado de todo o trabalho ter dado resultados», confessou.

O descanso depois do sucesso

A temporada terminou com um balanço particularmente positivo. Ao ouro no Omnium e à prata no Madison dos Mundiais juntaram-se os resultados alcançados nos Europeus de Konya, na Turquia, onde conquistou novamente o título de Omnium e foi segundo no Madison, ao lado de Diogo Narciso.

Na estrada, o próprio considera ter vivido a melhor época da carreira até ao momento. Um conjunto de resultados que explica a vontade de interromper a rotina competitiva e recuperar energias.

«O próximo objetivo é ir de férias», anunciou, sem esconder a satisfação por ter cumprido as metas traçadas para a temporada.

O segundo título mundial de Omnium coloca-o também perante a possibilidade de alcançar um feito inédito: conquistar três títulos mundiais na especialidade. Iúri Leitão admitiu desconhecer que dois títulos constituíam o máximo alcançado até agora, mas recebeu com agrado essa perspetiva.

Mais do que perseguir recordes, o objetivo passa por prolongar a carreira competitiva. «Se puder estar competitivo a este nível, eu hei de tentar», afirmou, desejando terminar o percurso desportivo com a sensação de realização.

Los Angeles ainda está longe

Os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028, já fazem parte do horizonte, mas Iúri Leitão evita transformar os resultados recentes numa promessa de sucesso futuro.

O português, campeão olímpico no Madison com Rui Oliveira, conquistou a prata mundial da disciplina ao lado de Ivo Oliveira. Ainda assim, a definição da aposta olímpica entre o Omnium e o Madison cabe ao selecionador nacional.

Antes de pensar numa eventual convocatória, existe uma condição indispensável: Portugal terá de garantir a qualificação.

«Primeiro temos de tentar qualificar a nação», salientou, lembrando que o processo começou nos Mundiais de Xangai. Só depois dessa etapa será possível discutir escolhas e objetivos concretos para os Jogos.

A prudência estende-se às expectativas para 2028. O ciclista recorda que cada época e cada preparação são diferentes, tal como a condição dos adversários. Por isso, recusa-se a antecipar classificações.

A garantia que deixa é outra: a equipa continuará a trabalhar para chegar à competição nas melhores condições possíveis, mantendo a concentração mesmo perante eventuais contratempos.

Para além dos resultados, Iúri Leitão deixou uma mensagem clara sobre a evolução do ciclismo de pista em Portugal. Apesar das quatro medalhas conquistadas pela seleção em Xangai, considera que o crescimento da disciplina exige continuidade no investimento.

«O futuro nunca está garantido se não continuarmos a apostar nele», advertiu.

Na sua perspetiva, Portugal dispõe de atletas capazes de sustentar o desenvolvimento da modalidade. O desafio está em manter o trabalho e assegurar condições para que esse potencial se transforme em novos resultados internacionais.

O campeão mundial reconhece que as condições oferecidas à seleção têm melhorado de ano para ano, mas considera que ainda existe uma diferença entre os meios disponíveis e o nível alcançado pelos corredores portugueses.

«Nós estamos no topo do mundo e as nossas condições não estão no topo do mundo», observou, ressalvando, contudo, o esforço realizado para melhorar a situação.

A evolução da pista também tem de ser entendida à luz da história do ciclismo português. Com uma tradição muito mais recente do que a estrada, a disciplina olímpica precisa de tempo para conquistar maior dimensão e reconhecimento.

Os resultados internacionais têm ajudado a acelerar esse processo, mas, para Iúri Leitão, não bastam vitórias isoladas: é necessário continuar a investir e criar condições para que surjam mais atletas capazes de lutar por medalhas.

Estrada e pista de mãos dadas

O percurso de Iúri Leitão demonstra, precisamente, que as duas vertentes podem complementar-se. O português compete tanto na pista como na estrada e considera que nenhuma deve ser encarada isoladamente.

Questionado sobre qual das disciplinas beneficia mais a outra, foi direto: «As duas são extremamente importantes uma para a outra e não dá para não se conjugar as duas».

Iuri Leitão e o ouro.

A mensagem deixada no regresso a casa junta, assim, a satisfação por mais um título à consciência de que o trabalho está longe de terminar. Primeiro, o descanso merecido e depois de uma temporada de excelência. Depois, a preparação para novos desafios, com Los Angeles no horizonte e a ambição de continuar a colocar Portugal entre os melhores do mundo.

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