A morte de Finlay Tarling e os incidentes recentes fez o ciclismo parar!
António Vieira Pacheco
A 14 de agosto do corrente
ano, uma família recebeu a notícia que nunca deveria ter recebido. Quase dois
meses depois, o ciclismo voltou a parar para lembrar que há um problema que não
pode continuar a ser tratado como um risco inevitável da modalidade.
No sábado, 10 de outubro, o pelotão da Volta à Lombardia recusou-se a iniciar a corrida durante cinco minutos. Remco Evenepoel falou em nome dos corredores. A mensagem não se limitou a denunciar os incidentes recentes com veículos nas provas: lembrou também Finlay Tarling, o britânico de 19 anos que faleceu durante a Volta a Portugal.
Desta vez, porém, houve uma reação que proporcionou ao protesto um significado ainda mais profundo. Michael Tarling, pai do jovem ciclista, agradeceu publicamente aos corredores por tomarem posição.
A sua mensagem foi simples e devastadora: nenhuma outra família deveria receber o telefonema que a sua recebeu naquele dia de agosto.
Finlay Tarling, corredor da NSN Development Team e irmão do ciclista Joshua Tarling, pereceu na oitava etapa da Volta a Portugal, na sequência de uma colisão com um veículo.
A tragédia teve lugar em Arcozelo, no concelho de Ponte de Lima, e desencadeou uma discussão sobre as condições de segurança da prova.
As circunstâncias do acidente exigem, contudo, rigor na forma como são relatadas. A GNR apresentou esclarecimentos sobre a dinâmica da colisão, incluindo o facto de o jovem se ter afastado da viatura de apoio que o acompanhava. A investigação e o apuramento das circunstâncias concretas são essenciais nas responsabilidades.
O que não está em discussão é o resultado: um jovem de 19 anos faleceu enquanto competia na estrada.
É essa realidade que ajuda a explicar por que o seu nome voltou a ser evocado numa das corridas mais importantes do calendário internacional.
O pelotão deixou de aceitar o silêncio
Na Volta à Lombardia, uma das cinco grandes clássicas conhecidas como Monumentos do ciclismo, os corredores transformaram a partida num protesto coletivo.
A corrida entre Bérgamo e Como, com 239 quilómetros, começou após uma paragem de cinco minutos. Evenepoel assumiu a palavra para explicar que os sucessivos incidentes com veículos estavam a expor os corredores a perigos inaceitáveis.
A indignação tinha razões recentes. Na Tre Valli Varesine, Marcel Camprubí e Thomas Gloag foram atingidos por uma mota policial que circulava no sentido contrário ao da prova. Outros episódios envolvendo veículos nos percursos das corridas reforçaram a preocupação.
O protesto não pretendia impedir a realização da Lombardia. Pretendia tornar impossível ignorar o problema.
E a força da iniciativa esteve precisamente na união do pelotão. Quando corredores de diferentes equipas suspendem a competição para exigir condições de segurança, a mensagem ultrapassa as rivalidades desportivas.
O ciclismo não pode pedir aos seus atletas que assumam riscos competitivos extremos e, ao mesmo tempo, aceitar que a circulação de veículos torna-se uma ameaça evitável.
«Nenhuma outra família» deveria passar pelo mesmo
A reação de Michael Tarling foi uma das imagens mais marcantes do dia.
O pai de Finlay manifestou gratidão, emoção e orgulho perante a decisão dos corredores de se unirem para exigir mudanças. E deixou um apelo dirigido a quem tem capacidade para alterar as condições em que as provas se realizam: que nenhuma outra família tenha de receber uma notícia semelhante.
Não se trata de uma declaração de um dirigente, de um organizador ou de alguém que analisa a segurança à distância. É a voz de um pai que perdeu um filho.
A sua mensagem dá uma dimensão humana a uma discussão que facilmente se perde entre regulamentos, procedimentos e comunicados oficiais.
Por detrás de cada corredor está uma família que espera o seu regresso. Essa realidade deveria ser suficiente para colocar a segurança no centro das decisões.
A pergunta que fica para a UCI
O protesto na Lombardia pôs pressão sobre a União Ciclista Internacional (UCI) e os organizadores das corridas.
A exigência dos corredores é que se discutam e se apliquem alterações concretas à forma como os percursos são protegidos e geridos. Não basta reconhecer que existem perigos. É necessário perceber onde falham os mecanismos de prevenção e como impedir que veículos não autorizados ou automóveis que circulam de forma inadequada se cruzem com os atletas.
Isso implica avaliar os acessos ao percurso, a coordenação entre organizadores e autoridades, a circulação das viaturas autorizadas e os procedimentos de segurança ao longo de toda a prova.
Cada corrida tem características próprias. Mas a proteção dos corredores não pode depender apenas da sorte ou da capacidade de reação face a um imprevisto.
O protesto de cinco minutos não resolve estas questões. Também não garante que os próximos incidentes sejam evitados. O seu valor estará na capacidade de transformar a indignação em decisões assertivas.
É essa a responsabilidade que agora recai sobre as entidades que dirigem e organizam o ciclismo.
A corrida acabou por começar
Os corredores arrancaram para a Volta à Lombardia após o protesto. A competição prosseguiu, mas a mensagem ficou.
Finlay Tarling não pode regressar. O seu pai não pode recuperar o filho. Nenhum comunicado poderá alterar essa realidade.
O ciclismo, porém, pode decidir o que fazer com ela.
Pode limitar-se a recordar a tragédia sempre que ocorre um novo incidente. Ou pode usar a união demonstrada na Lombardia para exigir medidas concretas, acompanhar a sua aplicação e responsabilizar quem não cumprir as obrigações de segurança.
A diferença entre estas duas possibilidades é decisiva.
O pelotão parou por cinco minutos. A família Tarling continuará a viver com a perda para sempre. Agora, cabe ao ciclismo provar que este protesto não foi apenas mais um momento de indignação.

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