O dia em que a Vuelta acabou em combate no asfalto!
🖋️ António Vieira Pacheco · 📅 15 de setembro 2026 · 📸 Direitos Reservados · ⏱️ 3 min · 🌱EMM
6 de setembro de 1995. O vento já tinha obrigado a organização a encurtar a etapa. A 21 quilómetros da meta, uma queda no pelotão transformou-se numa discussão e, em segundos, Ramón González Arrieta e Leonardo Sierra lutaram no asfalto.
A quarta etapa da Vuelta a
Espanha de 1995 decorreu em condições pouco comuns.
Entre Tapia de Casariego e A
Corunha, o vento soprava com rajadas de 80 a 100 km/h. A
organização chegou a neutralizar a corrida para proteger os corredores e, após
uma passagem em caravana até Villalba, a etapa foi retomada. Mais tarde, o
percurso seria novamente encurtado.
O pelotão avançava, portanto,
num ambiente de nervosismo pouco habitual.
Ramón González Arrieta, o
corredor da Banesto conhecido no pelotão por «Ramontxu», estava no meio daquele
caos. Leonardo Sierra, venezuelano da equipa italiana Carrera, também.
Num momento da etapa surgiu
uma discussão.
Segundo a versão apresentada
posteriormente por Arrieta, o espanhol procurara proteger-se do vento e entrou
pelo espaço ocupado por Sierra. O venezuelano não gostou da manobra e reclamou.
A partir daí, as versões
começam a divergir.
Mas há uma coisa que ninguém
discutiu: a discussão terminou no chão e com uma cena de pancadaria. Um combate de boxe.
De uma queda para uma luta
A 21 quilómetros da chegada,
Arrieta e Sierra caíram no equador do pelotão.
A queda, por si só, não teria
sido extraordinária.
O que aconteceu depois foi.
O pelotão abriu-se para evitar
ambos os corredores, enquanto Arrieta e Sierra permaneceram no chão, envolvidos
numa luta que durou cerca de meio minuto.
E havia câmaras de televisão a
filmar.
A notícia chegou rapidamente à
Rádio Vuelta.
Ramón Mendiburu, diretor
técnico da corrida, ouviu que ocorrera uma queda envolvendo um corredor da
Banesto e outro da Carrera. Quando percebeu o que realmente acontecia, reagiu
em direto:
«Que vergonha!»
Não era uma queda.
Eram dois ciclistas a lutar.
O presidente do júri técnico,
Rufino Martellini, também não hesitou quando se percebeu a dimensão do episódio.
«Que vergonha! Toda
a Europa viu isto pela televisão.»
A decisão foi imediata:
- expulsão dos dois
corredores.
O motorista da organização, Rafael Landa, acabaria por intervir para os separar.
Leonardo Sierra não deixou dúvidas ao relatar a sua versão dos acontecimentos.
O venezuelano acusou Arrieta
de lhe ter fechado a passagem.
«A culpa foi do Ramontxu.
Fechou-me a passagem e, quando me virei para lhe recriminar a ação, empurrou-me
para o chão.»
Sierra acabou por levar alguns
pontos de sutura num cotovelo, mas, apesar das consequências, a sua reação
posterior esteve longe de ser de arrependimento.
Quando lhe perguntaram pelo
confronto, respondeu com uma frase que ficou associada para sempre ao episódio:
«A única coisa de que me
arrependo é de ele me ter dado mais socos do que eu lhe dei.»
Era uma resposta quase
desafiante.
Arrieta, pelo contrário, passou a noite devastado.
No hotel, alguns companheiros
da Banesto, entre eles Marino Alonso, passaram pelo quarto para o consolar.
O corredor tinha visto as
imagens na Eurosport.
E não gostou do que viu.
«Vi aquilo e não conseguia
acreditar que era eu.»
A frase, publicada no dia
seguinte pelo El País, revela melhor do que qualquer descrição o
estado de espírito do espanhol.
Arrieta garantia que aquilo
não fazia parte da sua personalidade.
«Foi a primeira vez, aos meus
28 anos, que me envolvi numa luta. Nem na rua nem numa corrida me tinha
acontecido algo semelhante.»
Estava tão abatido que queria
simplesmente regressar a Bilbao.
Tinha trabalhado para disputar
a Vuelta e, de repente, a corrida terminava para ele por causa de uma discussão
que virou numa cena de violência.
Ainda assim, Arrieta não
procurou destruir Sierra publicamente.
Na sua própria crónica,
publicada pelo El País, recusou-se a transformar o episódio numa
acusação pessoal contra o venezuelano.
E, quando questionado sobre a
responsabilidade pelo sucedido, admitiu uma divisão de culpas:
«Se tivermos de repartir as
responsabilidades, seria 50% para cada um.»
O castigo não terminou na Vuelta
A expulsão daquela tarde foi
apenas a primeira consequência.
Em outubro, a União Ciclista
Internacional decidiu suspender Arrieta e Sierra por cinco meses, até
março de 1996, pelo confronto ocorrido na Vuelta.
A Carrera também tomou medidas
contra Sierra e acabou por afastá-lo da equipa.
E assim terminou uma das
histórias mais absurdas da Vuelta a Espanha.
Não houve uma chegada
dramática.
Não houve uma batalha pela
camisola.
Não houve uma fuga para a
vitória.
Houve vento, nervos, uma queda
e uma discussão que ultrapassou todos os limites.
Durante cerca de meio minuto,
dois ciclistas profissionais esqueceram que estavam numa das maiores corridas
do mundo e começaram a lutar no asfalto, diante das câmaras.
Anos depois, a imagem
continuaria a parecer surreal.
Mas talvez a frase que melhor
explique tudo continue a ser a de Arrieta, depois de se ver na televisão:
«Vi aquilo e não conseguia acreditar que era eu.»
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