Johan Bruyneel avisa a Lidl-Trek :“Há muita gente descontente”
🖋️ Por: António Vieira Pacheco
📅 Data: 5 de junho de 2026A saída gradual de Luca Guercilena do centro
das decisões, a chegada de novos responsáveis e a crescente influência alemã
transformam uma das principais equipas do WorldTour numa estrutura
completamente diferente.
EMM
Tempestade numa potência do WorldTour
Durante anos, a Lidl-Trek foi vista como um dos projetos mais estáveis e consistentes do ciclismo mundial. Uma equipa construída com paciência, liderança forte e uma identidade bem definida.
Mas, nos bastidores, o cenário muda rapidamente.
Segundo Johan Bruyneel e Spencer Martin, que analisaram a situação no ‘podcast’ The Move, a formação norte-americana atravessa uma das principais transformações da sua história, numa altura em que o investimento da Lidl aumentou significativamente e a influência alemã na organização cresce a cada mês.
Para Bruyneel, as mudanças vão muito além do que o público consegue ver.
“Quando vi as notícias, fiquei completamente surpreendido”, admitiu o antigo diretor-desportivo belga.
O homem que construiu a equipa
Grande parte da discussão centrou-se em Luca Guercilena, figura histórica da estrutura e considerado por muitos o principal arquiteto do crescimento da equipa ao longo da última década.
Bruyneel foi particularmente elogioso.
“Ele construiu esta equipa ao longo dos últimos catorze anos”, afirmou.
Na visão do belga, Guercilena foi o responsável por transformar uma estrutura competitiva numa potência do WorldTour, capaz de vencer Monumentos, as Grandes Voltas e afirmar-se tanto no setor masculino como no feminino.
Por isso, não escondeu o desconforto com o facto do italiano parecer estar a perder influência.
“Não acho que tenham lidado com isto da forma mais correta.”
Bruyneel recordou ainda os problemas de saúde enfrentados por Guercilena nos últimos anos, sublinhando que o dirigente continuou a liderar a equipa mesmo durante períodos particularmente delicados.
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Uma nova era
A chegada de novos responsáveis representa uma mudança profunda na identidade da Lidl-Trek.
Spencer Martin resumiu a situação de forma simples:
“A identidade da equipa muda completamente.”
A nomeação de Andy Schleck para CEO foi um dos temas mais debatidos.
Bruyneel mostrou-se cético quanto à escolha do antigo vencedor da Volta a França para liderar uma estrutura em crescimento.
“O Andy foi ciclista e geriu uma loja de bicicletas, mas isto é outro campeonato.”
Para o belga, dirigir uma organização moderna exige competências muito diferentes das que são necessárias no pelotão.
A contratação que simboliza a mudança
Outro nome que ganhou destaque foi o de Grischa Niermann.
O alemão deixou a poderosa Team Visma | Lease a Bike para assumir um papel central na nova estrutura da Lidl-Trek.
“Quando pensas na Visma, imaginas o Grischa no carro”, observou Spencer Martin.
Bruyneel compreende a decisão.
“É a oportunidade da vida dele.”
No entanto, considera preocupante a velocidade a que as mudanças acontecem.
“Chegam demasiadas pessoas novas ao mesmo tempo, para funções críticas.”
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O risco da mudança acelerada
Ao longo do debate, surgiu repetidamente a comparação com a Visma e com a forma como a equipa neerlandesa construiu o seu sucesso.
Enquanto a Visma cresceu gradualmente ao longo de vários anos, a Lidl-Trek parece estar a tentar acelerar um processo de transformação que normalmente exige tempo.
“A Visma construiu tudo passo a passo”, lembrou Bruyneel.
Na sua opinião, a estabilidade organizacional foi um dos pilares do recente domínio das equipas de Jonas Vingegaard.
A Lidl-Trek segue agora uma estratégia diferente.
E isso aumenta os riscos.
Cresce o desconforto interno
Foi precisamente neste ponto que Bruyneel fez a revelação mais forte de toda a conversa.
“Pelo que ouço internamente, há muita gente descontente.”
Segundo o antigo dirigente, vários elementos históricos da equipa perdem espaço à medida que os novos responsáveis assumem os cargos-chave.
A mudança não será apenas estrutural.
Será também cultural.
“As decisões são agora tomadas apenas pela Lidl”, afirmou.
A “germanização” da equipa
Bruyneel acredita em uma estratégia clara por parte do patrocinador principal.
Na sua leitura, a Lidl pretende criar uma identidade cada vez mais alemã à equipa.
“Existe uma clara intenção de germanizar a estrutura.”
O belga aponta vários sinais nesse sentido: novas contratações alemãs, nas áreas técnicas e administrativas, alterações nos centros operacionais e uma reorganização interna que reduz progressivamente a influência de elementos históricos ligados à Trek e à gestão anterior.
Para alguns, trata-se de uma evolução natural.
Para outros, representa uma rutura significativa com a cultura que moldou a equipa ao longo de mais de uma década.
Muito dinheiro não garante sucesso
Outro dos temas abordados foi o enorme investimento realizado pela Lidl. A equipa dispõe atualmente de um dos principais orçamentos do ciclismo mundial e continua a reforçar-se com nomes de topo.
Bruyneel reconhece essa realidade.
“Gastam uma quantidade de dinheiro.”
Mas deixa um aviso.
“O dinheiro pode resolver muitos problemas.”
Contudo, acrescenta que construir uma organização vencedora exige muito mais do que a capacidade financeira. A história do ciclismo está repleta de projetos milionários que nunca alcançaram os resultados esperados.
Um futuro em aberto
Apesar das críticas, Bruyneel não fecha a porta ao sucesso da nova Lidl-Trek.
“Posso ter de acabar por engolir as minhas palavras.”
É uma admissão importante.
A equipa continua a ter recursos, talento e capacidade para atrair alguns dos melhores profissionais do mundo. Mas também enfrenta uma das fases mais delicadas da sua história recente.
A conclusão do debate deixa uma pergunta inevitável: estará a Lidl-Trek a construir a próxima superpotência do ciclismo mundial ou a correr riscos excessivos numa transformação demasiado rápida?
A resposta poderá definir não apenas os próximos anos da equipa, mas também o equilíbrio de forças no topo do WorldTour.
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