João Monteiro e o tempo que passa no ténis de mesa
🖋️Por: António Vieira Pacheco
📸 Créditos: WTT
⏱️ Tempo de leitura: 3 minutos
O Mundial visto de fora
Há momentos no desporto em que a
ausência pesa mais do que a presença. João Monteiro viveu um desses momentos no
recente Mundial, realizado em Londres. Aos 42 anos, um dos nomes mais importantes da história do
ténis de mesa português atravessou grande parte da competição longe do
protagonismo competitivo que marcou décadas da sua carreira internacional.
Mais do que uma simples opção
circunstancial, a situação acabou por expor uma mudança silenciosa na própria
seleção portuguesa.
Portugal atravessou o Mundial sem depender de Monteiro à mesa — um cenário raro numa carreira marcada, por vários anos, pelo papel central nas decisões competitivas da seleção.
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Durante anos, Portugal habituou-se a
ver o atleta natural da Guarda como uma certeza competitiva. Desta vez, pela primeira
vez em muito tempo, a sensação pareceu diferente.
Uma carreira rara
Poucos atletas portugueses
conseguiram construir um percurso tão longo e consistente no ténis de mesa
internacional. Monteiro atravessou diferentes gerações, participou em grandes
competições e ajudou Portugal a transformar-se numa seleção respeitada no panorama
europeu.
Durante anos, representou
estabilidade competitiva numa modalidade na qual a margem para permanecer ao mais
alto nível é extremamente reduzida. O ténis de mesa exige velocidade,
intensidade física e capacidade constante de adaptação. Permanecer relevante durante
décadas nunca é um detalhe.
E Monteiro conseguiu fazê-lo.
Um papel diferente
O Mundial acabou por expor algo que o ténis de mesa português raramente enfrentou: Monteiro num papel secundário na dinâmica competitiva da seleção.
Isso não significa ausência de
qualidade nem perda automática de competitividade. Aos 42 anos, manter-se na seleção nacional é, por si só, uma raridade no panorama internacional da modalidade.
Mas existe uma diferença importante
entre integrar a seleção e continuar no centro das decisões competitivas.
Durante muitos anos, Portugal
dependia diretamente da experiência, da estabilidade e da capacidade competitiva de
Monteiro nos momentos mais exigentes. Desta vez, a equipa encontrou outras
soluções, outras lideranças competitivas e outra distribuição de protagonismo.
E esse detalhe tem, inevitavelmente, um peso simbólico.
Mais do que a ausência de jogos,
impressionou a naturalidade silenciosa com que Monteiro pareceu aceitar um
lugar diferente no interior da equipa.
Entre jogos, foi visto sobretudo fora
da mesa, acompanhando a competição num registo discreto, mas ainda plenamente
integrado no grupo.
O
tempo no desporto
O desporto raramente permite suspender o tempo. Em modalidades de reação e de explosividade como o ténis de mesa, a longevidade é ainda mais uma exceção.
A recuperação física muda. O desgaste
acumulado aumenta. A velocidade de decisão exigida pela competição
internacional torna-se cada vez mais difícil de sustentar ao longo dos anos.
Ainda assim, Monteiro continua presente num espaço onde poucos permanecem por tanto tempo.
Talvez seja precisamente aí que
reside a singularidade da sua carreira: não apenas nos títulos ou nas medalhas,
mas na capacidade de atravessar épocas, mudanças geracionais e diferentes fases
do ténis de mesa europeu mantendo relevância competitiva.
O ténis de mesa raramente anuncia
mudanças geracionais. Elas acontecem lentamente, quase sem ruído, até que um
dia alguém deixa de estar no centro da competição.
E, quando isso acontece, raramente há
um momento claro de rutura — apenas pequenas deslocações silenciosas de lugar.
O
silêncio sobre o futuro
Talvez o mais curioso seja o silêncio
que continua a rodear o tema. No ténis de mesa português fala-se pouco sobre
finais de carreira. As transições acontecem quase sempre de forma discreta, sem
despedidas cuidadosamente preparadas ou sem anúncios grandiosos.
Monteiro parece seguir essa
mesma linha.
Não há confirmação de retirada, nem indícios claros de continuidade prolongada. Existe apenas a perceção de que a carreira entrou numa nova fase — na qual a experiência segue a ter peso, mas o protagonismo já não se impõe com a mesma regularidade de outros tempos.
Muito além de um Mundial
Reduzir Monteiro ao papel desempenhado neste Mundial seria profundamente injusto.
A sua importância para o ténis de
mesa português ultrapassa largamente qualquer convocatória específica. Durante
anos, foi um dos rostos da modalidade em Portugal, ajudou a elevar o nível
competitivo da seleção nacional e integrou uma geração que alterou
definitivamente a perceção pública do ténis de mesa português.
Durante décadas, o português ajudou
Portugal a crescer na modalidade. Desta vez, talvez tenha sido Portugal
a mostrar que aprendeu a continuar sem depender totalmente dele.
Essa herança permanece
independentemente do que acontecer a seguir.
O momento da transição
Todos os grandes atletas acabam por
enfrentar o mesmo processo: perceber quando o lugar competitivo começa
lentamente a mudar.
Alguns saem cedo. Outros prolongam a
carreira enquanto a motivação e o corpo permitirem. E há também quem encontre
novas formas de continuar relevante na equipa, mesmo sem ocupar
constantemente o centro competitivo.
João Monteiro parece viver
precisamente esse momento.
Aos 42 anos, continua ligado ao mais
alto nível e mantém espaço na seleção portuguesa. O Mundial deixou uma sensação difícil de ignorar: pela primeira vez em muitos anos, Portugal atravessou uma grande competição sem que a sua presença fosse decisiva à mesa.
E talvez seja precisamente aí que
começa a fase mais delicada de qualquer grande carreira.
O desporto raramente avisa quando muda de lugar. Simplesmente reordena, em silêncio, quem manda, quem entra em cena e quem permanece a assistir.
E, nesse silêncio, é o tempo que
acaba sempre por ter a última palavra.
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