João Monteiro e o tempo que passa no ténis de mesa

🖋️Por: António Vieira Pacheco

📸 Créditos: WTT

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João Monteiro com os colegas de equipa no Mundial.
João Monteiro é o segundo da esquerda, com a equipa portuguesa em Londres.

O Mundial visto de fora

Há momentos no desporto em que a ausência pesa mais do que a presença. João Monteiro viveu um desses momentos no recente Mundial, realizado em Londres. Aos 42 anos, um dos nomes mais importantes da história do ténis de mesa português atravessou grande parte da competição longe do protagonismo competitivo que marcou décadas da sua carreira internacional.

Mais do que uma simples opção circunstancial, a situação acabou por expor uma mudança silenciosa na própria seleção portuguesa.

Portugal atravessou o Mundial sem depender de Monteiro à mesa — um cenário raro numa carreira marcada, por vários anos, pelo papel central nas decisões competitivas da seleção.

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Durante anos, Portugal habituou-se a ver o atleta natural da Guarda como uma certeza competitiva. Desta vez, pela primeira vez em muito tempo, a sensação pareceu diferente.

Uma carreira rara

Poucos atletas portugueses conseguiram construir um percurso tão longo e consistente no ténis de mesa internacional. Monteiro atravessou diferentes gerações, participou em grandes competições e ajudou Portugal a transformar-se numa seleção respeitada no panorama europeu.

Durante anos, representou estabilidade competitiva numa modalidade na qual a margem para permanecer ao mais alto nível é extremamente reduzida. O ténis de mesa exige velocidade, intensidade física e capacidade constante de adaptação. Permanecer relevante durante décadas nunca é um detalhe.

E Monteiro conseguiu fazê-lo.

Um papel diferente

O Mundial acabou por expor algo que o ténis de mesa português raramente enfrentou: Monteiro num papel secundário na dinâmica competitiva da seleção.

Isso não significa ausência de qualidade nem perda automática de competitividade. Aos 42 anos, manter-se na seleção nacional é, por si só, uma raridade no panorama internacional da modalidade.

Mas existe uma diferença importante entre integrar a seleção e continuar no centro das decisões competitivas.

Durante muitos anos, Portugal dependia diretamente da experiência, da estabilidade e da capacidade competitiva de Monteiro nos momentos mais exigentes. Desta vez, a equipa encontrou outras soluções, outras lideranças competitivas e outra distribuição de protagonismo.

E esse detalhe tem, inevitavelmente, um peso simbólico.

Mais do que a ausência de jogos, impressionou a naturalidade silenciosa com que Monteiro pareceu aceitar um lugar diferente no interior da equipa.

Entre jogos, foi visto sobretudo fora da mesa, acompanhando a competição num registo discreto, mas ainda plenamente integrado no grupo.

O tempo no desporto

O desporto raramente permite suspender o tempo. Em modalidades de reação e de explosividade como o ténis de mesa, a longevidade é ainda mais uma exceção.

A recuperação física muda. O desgaste acumulado aumenta. A velocidade de decisão exigida pela competição internacional torna-se cada vez mais difícil de sustentar ao longo dos anos.

Ainda assim, Monteiro continua presente num espaço onde poucos permanecem por tanto tempo.

Talvez seja precisamente aí que reside a singularidade da sua carreira: não apenas nos títulos ou nas medalhas, mas na capacidade de atravessar épocas, mudanças geracionais e diferentes fases do ténis de mesa europeu mantendo relevância competitiva.

O ténis de mesa raramente anuncia mudanças geracionais. Elas acontecem lentamente, quase sem ruído, até que um dia alguém deixa de estar no centro da competição.

E, quando isso acontece, raramente há um momento claro de rutura — apenas pequenas deslocações silenciosas de lugar.

O silêncio sobre o futuro

Talvez o mais curioso seja o silêncio que continua a rodear o tema. No ténis de mesa português fala-se pouco sobre finais de carreira. As transições acontecem quase sempre de forma discreta, sem despedidas cuidadosamente preparadas ou sem anúncios grandiosos.

Monteiro parece seguir essa mesma linha.

Não há confirmação de retirada, nem indícios claros de continuidade prolongada. Existe apenas a perceção de que a carreira entrou numa nova fase — na qual a experiência segue a ter peso, mas o protagonismo já não se impõe com a mesma regularidade de outros tempos.

Muito além de um Mundial

Reduzir Monteiro ao papel desempenhado neste Mundial seria profundamente injusto.

A sua importância para o ténis de mesa português ultrapassa largamente qualquer convocatória específica. Durante anos, foi um dos rostos da modalidade em Portugal, ajudou a elevar o nível competitivo da seleção nacional e integrou uma geração que alterou definitivamente a perceção pública do ténis de mesa português.

Durante décadas, o português ajudou Portugal a crescer na modalidade. Desta vez, talvez tenha sido Portugal a mostrar que aprendeu a continuar sem depender totalmente dele.

Essa herança permanece independentemente do que acontecer a seguir.

O momento da transição

Todos os grandes atletas acabam por enfrentar o mesmo processo: perceber quando o lugar competitivo começa lentamente a mudar.

Alguns saem cedo. Outros prolongam a carreira enquanto a motivação e o corpo permitirem. E há também quem encontre novas formas de continuar relevante na equipa, mesmo sem ocupar constantemente o centro competitivo.

João Monteiro parece viver precisamente esse momento.

Aos 42 anos, continua ligado ao mais alto nível e mantém espaço na seleção portuguesa. O Mundial deixou uma sensação difícil de ignorar: pela primeira vez em muitos anos, Portugal atravessou uma grande competição sem que a sua presença fosse decisiva à mesa.

E talvez seja precisamente aí que começa a fase mais delicada de qualquer grande carreira.

O desporto raramente avisa quando muda de lugar. Simplesmente reordena, em silêncio, quem manda, quem entra em cena e quem permanece a assistir.

E, nesse silêncio, é o tempo que acaba sempre por ter a última palavra.

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