Artigo de Opinião: Do “sim” ao silêncio

🖋️Por: António Vieira Pacheco

📸 Créditos: Entrar no Mundo das Modalidades

⏱️ Tempo de leitura: 2 minutos

O sim, que se torna não...
O gesto que diz tudo: entrevistas evitadas, respostas adiadas.

             O “sim” que é não!

Não é um caso isolado. É um padrão. No universo das associações e federações, o “sim” tornou-se uma resposta automática:

Sim, damos entrevista.

Ok, falamos em breve.

Sim, combinamos.

Ok, envie as perguntas; depois, respondo por áudio ou por escrito.

E depois… o vazio.

Sem resposta. Sem explicação. Sem compromisso cumprido. O “sim” transforma-se rapidamente num silêncio conveniente e, muitas vezes, previsível.

Silêncio como estratégia

Importa dizer o óbvio: isto não é distração, nem falta de tempo. É uma opção.

Dizer “sim” evita o desconforto imediato de recusar. Adia o problema. Compra tempo. Em muitos casos, aposta no desgaste do tema na esperança de que a insistência desapareça.

Quando o silêncio se repete, deixa de ser circunstancial. Passa a ser método.

Medo de perguntas difíceis

Uma entrevista não é um monólogo — e é aí que reside o problema.

Perguntas difíceis existem. Fazem parte. São legítimas. E são necessárias. Nem todos os dirigentes estão disponíveis para esse confronto, seja por falta de preparação, seja por  desconforto ou por opção.

Evitar a entrevista passa, assim, a ser a forma mais simples de evitar respostas.

Comunicação controlada

A alternativa está sempre à mão: comunicação unilateral.

Comunicados fechados ou inexistentes. Publicações nas redes sociais. Mensagens sem contraditório. Tudo filtrado, controlado e seguro.

A entrevista, pelo contrário, introduz risco. Para quem privilegia o controlo absoluto, risco é problema, nunca oportunidade.

Há uma questão que não desaparece: responsabilidade.

Associações e federações não existem num vazio. Representam pessoas, interesses, comunidades. Tomam decisões com impacto real.

Quem decide deve estar disponível para explicar. O silêncio, por mais estratégico que seja, não substitui essa obrigação.

Confiança em risco

A curto prazo, o silêncio pode parecer confortável. A médio prazo, cobra o seu preço.

O silêncio repetido alimenta desconfiança. Fragiliza a credibilidade. Afasta aqueles que deveriam ser representados.

Prometer um “sim” e desaparecer sem responder não é mero detalhe; é um sinal que fala por si.

Não é a pergunta que fragiliza as instituições, mas a sua ausência… ou, pior ainda, a falta de quem devia responder.

Se dirigentes querem respeito, legitimidade e confiança, precisam de compreender algo essencial: palavras sem ação não valem nada.

Prometer e não cumprir, evitar entrevistas ou adiar respostas não são falhas de comunicação. É uma escolha. E escolhas têm consequências.

O futuro das associações e federações não se constrói com “sim” vazios e silêncios estratégicos. Constrói-se com transparência e coragem.


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