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“Surpreendi muita gente, a mim também”: Barry ganhou o Mundial quando quase ninguém esperava
🖋️ António Vieira Pacheco · 📅 25 de setembro 2026 · 📸 Direitos Reservados · ⏱️ 4 min · 🌱EMM
Ashlin Barry chegou ao Mundial Sub-23 sem se considerar favorito. Saiu de Montreal campeão do mundo, aos 19 anos e no próprio dia de aniversário. O americano admite que a vitória também o surpreendeu.
Há corridas em que o favorito
confirma o seu estatuto. Há outras em que um nome pouco falado aparece no momento
certo, faz a aposta certa e, quando todos percebem o que acontece, já não há
tempo para o travar.
Ashlin Barry escolheu a
segunda versão.
O americano conquistou esta
sexta-feira o título mundial de estrada Sub-23, em Montreal, precisamente no
dia em que completou 19 anos. Um aniversário difícil de esquecer, sobretudo
porque terminou com uma camisola arco-íris nos ombros e com uma confissão pouco
habitual para um campeão do mundo: nem ele estava propriamente à espera
daquilo.
Barry atacou, entrou na
frente, manteve a vantagem e chegou sozinho à meta. Enquanto atrás se
discutia quem tinha pernas para ganhar, o jovem americano tratava de fazer
outra coisa: ganhar.
E, depois, explicou que também
ficou surpreendido.
Sem plano para isto
O mais interessante na
história de Barry talvez esteja precisamente aí.
Não apresentou a vitória como
resultado de um plano genial desenhado ao milímetro. Pelo contrário. A entrada
na fuga surgiu porque o americano percebeu que poderia ter dificuldades em acompanhar os melhores trepadores no Mont Royal.
“Eu queria sair na frente da
corrida porque não sabia se conseguiria acompanhar os melhores escaladores no
Mont Royal.”
A decisão fazia sentido. O que
aconteceu depois foi que ninguém parecia ter escrito no guião.
“Não fazia parte do plano ir
tão cedo. Mas achei a corrida difícil e consegui entrar na fuga com alguns
ciclistas fortes, que eu sabia que estariam dispostos a colaborar.”
È pronto. Às vezes uma corrida
começa a mudar precisamente quando alguém decide fazer aquilo que não estava
previsto.
Barry encontrou companhia,
teve colaboração e, sobretudo, soube encontrar uma oportunidade que não
desperdiçou.
A partir daí, a corrida deixou
de ser uma questão de saber se conseguiria acompanhar os favoritos. Passou a
ser uma questão muito mais interessante: será que os favoritos conseguiriam
apanhá-lo?
O relógio a dizer outra coisa
O americano tinha outra
referência para comparar o seu desempenho.
Depois do contrarrelógio,
tinha admitido que talvez pudesse ter feito uma gestão diferente da energia.
Quando lhe perguntaram se aquela reserva estava, afinal, destinada à prova de
estrada, Barry não apresentou uma explicação particularmente elaborada.
Porque não havia grande
necessidade.
“Eu esperava sair-me melhor no contrarrelógio do que nesta corrida de estrada, com certeza. Então, sim, foi uma surpresa para mim.”
Uma resposta simples para uma
situação que, provavelmente, não teve nada de simples.
Barry chegará ao dia decisivo
sem pôr entre os principais favoritos. E terminou-o como campeão
mundial.
É uma diferença considerável
entre o que se espera de uma corrida e o que uma corrida pode
realmente oferecer.
Confiar e esperar
Quando se está sozinho na
frente de um Mundial, há duas possibilidades: acreditar demasiado cedo ou
começar a olhar demasiadas vezes para trás.
Barry optou por confiar.
“Eu confiei nos meus instintos, mantive o meu próprio ritmo e ficava pensando que, a qualquer momento, alguns ciclistas viriam me alcançar.”
Só que não vieram.
Ou, pelo menos, não chegaram a
tempo de impedir aquilo que começava a parecer cada vez mais possível.
A vantagem manteve-se e o
americano começou a perceber que a fuga já não era apenas uma fuga. Podia ser
uma candidatura ao título.
Mas havia um problema.
As pernas.
“Eu sentia as minhas pernas a fraquejar, então pensei que poderia desistir a qualquer momento.”
É provavelmente uma das
imagens mais interessantes desta vitória: um corredor isolado à frente, cada
quilómetro a aproximá-lo da camisola arco-íris e, ao mesmo tempo, a sensação de
que tudo podia acabar a qualquer instante.
Atrás, os adversários. À
frente, a meta. Dentro das pernas, a dúvida.
E ainda assim, Barry continuou.
A determinada altura, porém, a
matemática começou a mudar.
“Considero que, entre uma e duas voltas antes do final, foi ficando mais real; a vantagem manteve-se o tempo todo.”
Ainda não era certeza. Era
apenas uma possibilidade suficientemente concreta para começar a ser levada a
sério.
Depois apareceu o Mont Royal.
E foi aí que Barry disse ter
percebido que o título podia ser dele.
“Penso que no topo do Mont
Royal, na última subida, foi quando, realmente, acreditei.”
Não no início da fuga.
Não quando conseguiu abrir
espaço.
Não quando percebeu que os
perseguidores demoravam a aproximar-se.
No topo da última subida.
A partir desse momento,
faltava, sobretudo, sobreviver.
Uma última volta “surreal”
A descrição de Barry sobre os
últimos quilómetros não é propriamente a de alguém que já estivesse a preparar
a comemoração.
É a de alguém que ainda não
acreditava totalmente no que estava a acontecer.
“Aquela última volta foi
simplesmente surreal.”
A vantagem continuava.
E Barry continuava.
“Quando a vantagem se manteve
e eu continuei, foi um choque. Não sei como dizer de outra forma.”
Talvez não seja preciso dizer
de outra forma.
Porque é precisamente isso que
torna esta vitória tão inesperada: o próprio vencedor ainda estava a tentar
perceber como tinha chegado àquele ponto.
“Surpreendi muita gente”
Depois de cruzar a meta, Barry
teve de responder à pergunta inevitável.
Se alguns dos principais
adversários não consideraram um erro permitir-lhe ganhar aquela vantagem, isso
significava que tinham sido simplesmente derrotados por um corredor que, naquele
momento, foi mais forte?
Barry não fugiu à questão.
“Sim, quer dizer, fiquei
surpreso. Acho que surpreendi muita gente.”
E logo acrescentou aquilo que
talvez seja a melhor síntese de toda a corrida:
“Eu não achava que era um dos
favoritos hoje.”
Não achava.
E acabou campeão do mundo.
A frase seguinte diz quase
tudo sobre o que passou pela cabeça do americano:
“Então, sim, é loucura.”
É mesmo.
De desconhecido a campeão
A camisola arco-íris tem esse
efeito. Muda a forma como uma corrida é contada depois do seu término,
Antes da partida, há
favoritos, candidatos, outsiders, estratégias e previsões. Depois da meta, tudo
parece mais simples. O vencedor é aquele que chegou primeiro.
Entre uma coisa e outra
há uma corrida inteira.
Barry aproveitou uma fuga que
não estava inicialmente no plano, encontrou corredores com quem podia
colaborar, manteve o seu ritmo, resistiu quando as pernas começaram a acusar o
esforço e acreditou no momento em que a vantagem deixou de parecer provisória.
Não precisou de anunciar, antes
da corrida, que o objetivo era ser campeão mundial.
Nem de se colocar na lista dos
favoritos.
Fez outra coisa: apareceu
quando era preciso.
Aos 19 anos, no dia do
aniversário, Ashlin Barry conquistou o título mundial Sub-23 em Montreal.
E deixou uma conclusão
particularmente saborosa para quem gosta destas histórias: o campeão mundial
não precisava de ser convencido de que tinha surpreendido os outros.
Ele próprio ainda tentava convencer-se de que tinha acontecido.
“Surpreendi muita gente, a mim também.” Dificilmente haverá uma frase melhor para explicar uma camisola arco-íris que chegou quando quase ninguém a estava a pedir.
Daniel Moreira foi o melhor português, em Montreal, ao concluir em 14.º lugar. Ficou a apenas 1m19s do novo campeão do mundo.
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