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Espanha tornou-se a escola de muitos jovens portugueses
Uma porta aberta
A fronteira deixou de ser há muito tempo uma barreira para os
jovens ciclistas portugueses. Quando chegam ao momento de dar o salto dos
juniores para os sub-23, cada vez mais corredores olham para Espanha como uma
oportunidade para continuar a crescer, ganhar experiência e aproximar-se do
profissionalismo.
Gabriel Baptista e Gonçalo Amaral são dois exemplos dessa
realidade. Ambos têm 21 anos e representam a Technosylva Rower Bembibre, formação da província de Leão que participa regularmente em provas portuguesas e mantém uma ligação próxima ao calendário nacional.
Numa entrevista ao jornal O
JOGO, os dois corredores falaram dessa experiência e explicaram por que
decidiram procurar, além-fronteiras, as oportunidades que o ciclismo português
nem sempre lhes consegue oferecer.
Baptista, natural de Barcelos, está na segunda época em
Espanha, após ter passado pela Anicolor. A experiência em Portugal não é
desvalorizada, mas a mudança permitiu-lhe encontrar um ambiente que considera
importante para continuar a evoluir.
“Recomendo ir para fora”, afirmou o corredor, numa decisão que traduz uma
tendência cada vez mais visível entre os jovens portugueses.
Amaral fez esse caminho ainda mais cedo. O ciclista de
Famalicão deixou Portugal há três anos, após terminar o percurso júnior no ABTF
Betão/Bairrada. Desde então, a experiência acumulada em Espanha tornou-se uma
parte importante da sua formação.
“Tem sido uma mais-valia, uma aprendizagem enorme”, explicou.
O problema da transição
O verdadeiro desafio surge
quando um corredor deixa para trás os juniores e entra numa nova etapa da
carreira.
Em Espanha, os sub-23 dispõem de um espaço competitivo
próprio, com provas destinadas ao escalão e adversários da mesma faixa etária.
É precisamente essa diferença que Amaral considera
determinante.
Em Portugal, a transição para
os sub-23 nem sempre garante a um jovem corredor oportunidades regulares para
competir e continuar a evoluir.. A competição
contra atletas mais experientes, aliada à existência de poucos projetos capazes
de proporcionar um percurso de desenvolvimento contínuo, pode tornar os
primeiros anos particularmente difíceis.
E quando faltam resultados, visibilidade e oportunidades, a motivação pode desaparecer.
O problema não é apenas desportivo. É também uma questão de
continuidade na formação.
Durante anos, o caminho tradicional passava por cumprir
praticamente todo o percurso sub-23 em Portugal antes de procurar uma equipa
profissional. Hoje, muitos jovens antecipam a saída.
“Há uns anos era impensável”, recorda Baptista.
A mudança de mentalidade acompanha, assim, uma alteração no
próprio mercado do ciclismo jovem. Para alguns corredores, emigrar deixou de
ser uma aventura de futuro e passou a ser uma decisão tomada logo após
os juniores.
Mais do que bicicletas
A diferença também está nas estruturas.
Na Technosylva, os portugueses encontram uma organização
logística que lhes permite enfrentar um calendário exigente com melhores
condições de apoio. Autocarro, camião e viaturas de acompanhamento fazem parte
de uma estrutura que reduz algumas das dificuldades inerentes à competição fora
de casa.
Mas é, sobretudo, a quantidade e a qualidade da competição que
podem fazer a diferença.
É a competir que um jovem aprende. É preciso errar, voltar a estar no pelotão, compreender as suas dinâmicas e descobrir, aos poucos, até onde o corpo pode chegar.Sem oportunidades suficientes, esse processo fica
comprometido.
É por isso que a experiência espanhola pode representar mais
do que uma simples mudança de equipa: pode ser uma verdadeira escola.
Apesar da aposta em Espanha, nenhum dos dois fecha
definitivamente a porta a um regresso.
A ligação ao ciclismo português mantém-se forte, até porque a
Technosylva continua a marcar presença em provas nacionais. E existe um
objetivo que continua a fazer parte do imaginário de qualquer corredor
português.
A Volta a Portugal.
Chegar ao mais alto nível europeu é a prioridade, mas
disputar a principal corrida por etapas portuguesa continua a ser um sonho.
Para dois jovens que atravessaram a fronteira à procura de oportunidades, um
eventual regresso à Volta teria ainda um significado especial.
Seria a prova de que sair foi, afinal, uma forma de aprender
a voltar mais forte.
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