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Destaque do Universo do Ciclismo e dos Desportos de Raquetes

McNulty ganhou sozinho, mas o Mundial foi ganho por uma equipa

António Vieira Pacheco 29 de setembro de 2026 Direitos Reservados — EMM Tempo de leitura: 4 min Crédito: Direitos Reservados T odos por um Brandon McNulty levantou os braços sozinho em Montreal. Mas o título mundial norte-americano começou muito antes daquele momento. A seleção dos Estados Unidos conseguiu algo que nem sempre aparece nos resultados: colocou os interesses individuais de lado e trabalhou para um único objetivo. Levar McNulty até ao momento certo. E funcionou. O norte-americano tornou-se campeão mundial de estrada, dando aos Estados Unidos o primeiro título mundial masculino de elite em mais de três décadas. Sem egos A expressão usada pelos próprios protagonistas resume a estratégia: os corredores colocaram os egos de lado. Num Mundial com 273,3 quilómetros, inúmeras subidas e um grupo de favoritos que não parava de olhar uns para os outros, a seleção norte-americana percebeu que precisava de jogar em equipa. Não bastava ter um corredor capaz de...

Benjamín Noval: dois Mundiais e uma história incómoda

🖋️ António Vieira Pacheco · 📅 29 de setembro 2026 · 📸 Direitos Reservados · ⏱️ 4 min · 🌱EMM

Benjamim Noval corre apenas para ser campeão.

Benjamín Noval entrou definitivamente para a história do ciclismo mundial em Montreal. Aos 17 anos, o jovem espanhol conquistou os títulos mundiais juniores de contrarrelógio e estrada na mesma edição dos Campeonatos do Mundo, repetindo um feito que apenas Remco Evenepoel havia conseguido, anteriormente, em 2018.

O resultado colocou o corredor asturiano no centro das atenções e confirmou o que o seu percurso nas categorias jovens já anunciava: Noval é considerado um dos principais talentos da nova geração espanhola.

Contudo, na retaguarda dos dois arco-íris conquistados no Canadá, existe também uma história bem menos conhecida.

Uma história que envolve uma sessão de testes quando Noval tinha apenas 15 anos, um treinador que cumpria uma longa suspensão relacionada com o caso de doping da US Postal e um processo no qual a agência antidopagem espanhola chegou a propor 18 meses de suspensão ao jovem ciclista.

O processo, contudo, acabou por ser declarado caducado.

E há uma diferença fundamental que importa deixar clara: Noval não foi acusado de ter resultado positivo por doping, nem foi suspenso por utilização de substâncias dopantes. O caso estava relacionado com a regra antidopagem que impede os atletas de manter determinadas associações com pessoas que se encontram inelegíveis.

Dois arco-íris

Em Montreal, Noval teve uma semana extraordinária.

No contrarrelógio júnior, disputado a 22 de setembro, o espanhol percorreu os 20,3 quilómetros em 25 minutos, 17 segundos e 35 centésimos, terminando 6,35 segundos à frente do belga Vic De Smet. A própria UCI classificou a sua prestação como uma demonstração de força na segunda parte do percurso.

Dois dias depois veio o segundo título.

Benjamim Noval com a camiosla de campeão mundial de juniores.

Na prova de fundo júnior, Noval voltou a atacar e conseguiu afastar-se dos adversários na parte final. Percorreu os 134 quilómetros em 3h03m36s, deixando o francês Simon Defrance na segunda posição, com 42 segundos de desvantagem.

O resultado teve dimensão histórica.

Segundo a UCI, Noval tornou-se apenas o segundo ciclista da história a conquistar os títulos mundiais juniores de contrarrelógio e de estrada na mesma edição dos Mundiais, depois de Evenepoel, em Innsbruck, em 2018. 

Aos 17 anos, o espanhol conseguiu o que poucos corredores conseguem se aproximar de alcançar.

E fez com uma característica que tem marcado a sua formação: a vontade de atacar.

Uma sessão em Navacerrada

Foi precisamente essa precocidade que tornou ainda mais delicado o episódio ocorrido em 2024.

Segundo o relato publicado pelo El País, em abril daquele ano, quando Noval tinha apenas 15 anos, o jovem participou numa sessão de avaliação física em Navacerrada.

O objetivo era medir os níveis de lactato no sangue durante uma série de esforços de um quilómetro em subida.

O teste foi conduzido por José “Pepe” Martí, treinador que tinha trabalhado com Alberto Contador durante o período  em que o corredor espanhol esteve ligado à equipa US Postal.

Martí encontrava-se então a cumprir uma suspensão de 15 anos relacionada com o caso de doping da estrutura norte-americana.

Durante a sessão, agentes da unidade da Guarda Civil espanhola que acompanhavam Martí identificaram o treinador, o pai de Noval e o próprio jovem corredor.

Segundo o relato do El País, Martí explicou aos agentes que estava a realizar trabalho relacionado com uma investigação académica sobre a melhoria das provas de esforço através da medição de lactato no sangue capilar.

O problema não estava, portanto, no teste fisiológico em si.

Estava na pessoa que o realizava.

A regra antidopagem

O Código Mundial Antidopagem estabelece restrições à associação entre atletas e determinadas pessoas de apoio que estejam a cumprir períodos de inelegibilidade.

Foi essa norma que pôs Noval sob investigação.

A CELAD — Comissão Espanhola para a Luta Antidopagem no Desporto — propôs uma suspensão de um ano e meio.

Noval reconheceu ter participado na sessão.

A versão relatada pelo El País indica que o ciclista alegou desconhecer a proibição e mostrou arrependimento pelo sucedido.

A idade do corredor acabou por ser uma das circunstâncias consideradas no processo.

E aqui está novamente o ponto que merece ser sublinhado: não estava em causa um positivo no controle antidoping de Benjamín Noval.

O processo resultava da sua associação, ainda que numa situação concreta e quando tinha apenas 15 anos, com uma pessoa que se encontrava suspensa.

O processo acabou por caducar

A história poderia ter tido consequências muito diferentes.

Uma suspensão de 18 meses naquela fase da carreira poderia ter interrompido o desenvolvimento de um corredor que começava a destacar-se entre os melhores da sua geração.

Mas isso não aconteceu.

De acordo com a investigação publicada pelo El País, tanto a CELAD como o tribunal disciplinar tiveram em consideração as circunstâncias particulares do caso, incluindo a idade de Noval e o contexto da investigação a Martí.

Em 5 de novembro de 2025, o processo foi declarado caducado, após ultrapassado o prazo de 12 meses previsto para a sua tramitação. 

Noval seguiu a sua carreira.

Menos de um ano depois, estaria em Montreal a escrever uma das páginas mais impressionantes da história recente do ciclismo júnior espanhol.

Filho de um antigo profissional

A história ganha ainda outra dimensão pelo apelido que o jovem carrega.

O pai, também Benjamín Noval, foi profissional e desempenhou funções de gregário ao lado de Lance Armstrong e Alberto Contador.

O pai acompanhou de perto o crescimento do filho, que, desde muito cedo, revelou uma ambição rara.

Segundo o El País, aos 14 anos, Noval terá dito ao pai que queria ser ciclista apenas se fosse para ser campeão, e não para desempenhar o papel de gregário que o próprio pai havia exercido durante a carreira.

Essa personalidade competitiva foi sendo desenvolvida na equipa asturiana da MMR, equipa dirigida pelo campeão olímpico Samuel Sánchez.

A progressão foi tão rápida que Noval vai saltar praticamente todas as etapas tradicionais de uma carreira profissional.

WorldTour aos 18 anos

O próximo passo está definido.

A partir de 1 de janeiro de 2027, Benjamín Noval integrará a Netcompany Ineos, entrando diretamente no WorldTour.

Noval chegará ao pelotão profissional com apenas 18 anos, depois de uma temporada que dificilmente poderia ter sido mais expressiva.

Dois títulos mundiais.

Um feito que apenas Evenepoel tinha conseguido antes.

É uma história de 2024 que poderia ter posto um travão brutal na sua carreira, mas acabou sem suspensão.

Montreal mostrou ao mundo o talento.

O episódio de Navacerrada mostra que, antes de chegar ao topo, o jovem espanhol atravessou uma situação séria que podia pôr o seu futuro em risco.

Agora, a partir de 2027, a história muda de cenário.

Deixa de ser o prodígio dos juniores. Passa a ser um corredor do WorldTour.





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