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Benjamín Noval: dois Mundiais e uma história incómoda
Benjamín Noval entrou definitivamente para a história do ciclismo mundial em Montreal. Aos 17 anos, o jovem espanhol conquistou os títulos mundiais juniores de contrarrelógio e estrada na mesma edição dos Campeonatos do Mundo, repetindo um feito que apenas Remco Evenepoel havia conseguido, anteriormente, em 2018.
O resultado colocou o corredor
asturiano no centro das atenções e confirmou o que o seu percurso nas
categorias jovens já anunciava: Noval é considerado um dos principais talentos
da nova geração espanhola.
Contudo, na retaguarda dos dois
arco-íris conquistados no Canadá, existe também uma história bem menos
conhecida.
Uma história que envolve uma
sessão de testes quando Noval tinha apenas 15 anos, um treinador que cumpria
uma longa suspensão relacionada com o caso de doping da US Postal e um processo no qual a agência antidopagem espanhola chegou a propor 18 meses de
suspensão ao jovem ciclista.
O processo, contudo, acabou
por ser declarado caducado.
E há uma diferença fundamental
que importa deixar clara: Noval não foi acusado de ter resultado positivo por
doping, nem foi suspenso por utilização de substâncias dopantes. O caso
estava relacionado com a regra antidopagem que impede os atletas de manter
determinadas associações com pessoas que se encontram inelegíveis.
Dois arco-íris
Em Montreal, Noval teve uma
semana extraordinária.
No contrarrelógio júnior,
disputado a 22 de setembro, o espanhol percorreu os 20,3 quilómetros em 25
minutos, 17 segundos e 35 centésimos, terminando 6,35 segundos à frente do
belga Vic De Smet. A própria UCI classificou a sua prestação como uma
demonstração de força na segunda parte do percurso.
Dois dias depois veio o
segundo título.
Na prova de fundo júnior,
Noval voltou a atacar e conseguiu afastar-se dos adversários na parte final.
Percorreu os 134 quilómetros em 3h03m36s, deixando o francês Simon Defrance na
segunda posição, com 42 segundos de desvantagem.
O resultado teve dimensão
histórica.
Segundo a UCI, Noval tornou-se
apenas o segundo ciclista da história a conquistar os títulos mundiais juniores
de contrarrelógio e de estrada na mesma edição dos Mundiais, depois de Evenepoel,
em Innsbruck, em 2018.
Aos 17 anos, o espanhol
conseguiu o que poucos corredores conseguem se aproximar de
alcançar.
E fez com uma característica
que tem marcado a sua formação: a vontade de atacar.
Uma sessão em Navacerrada
Foi precisamente essa
precocidade que tornou ainda mais delicado o episódio ocorrido em 2024.
Segundo o relato publicado
pelo El País, em abril daquele ano, quando Noval tinha apenas 15 anos, o
jovem participou numa sessão de avaliação física em Navacerrada.
O objetivo era medir os níveis
de lactato no sangue durante uma série de esforços de um quilómetro em subida.
O teste foi conduzido por José
“Pepe” Martí, treinador que tinha trabalhado com Alberto Contador durante o
período em que o corredor espanhol esteve ligado à equipa US Postal.
Martí encontrava-se então a
cumprir uma suspensão de 15 anos relacionada com o caso de doping da
estrutura norte-americana.
Durante a sessão, agentes da
unidade da Guarda Civil espanhola que acompanhavam Martí identificaram o
treinador, o pai de Noval e o próprio jovem corredor.
Segundo o relato do El País,
Martí explicou aos agentes que estava a realizar trabalho relacionado com uma
investigação académica sobre a melhoria das provas de esforço através da
medição de lactato no sangue capilar.
O problema não estava,
portanto, no teste fisiológico em si.
Estava na pessoa que o
realizava.
A regra antidopagem
O Código Mundial Antidopagem
estabelece restrições à associação entre atletas e determinadas pessoas de
apoio que estejam a cumprir períodos de inelegibilidade.
Foi essa norma que pôs Noval sob investigação.
A CELAD — Comissão Espanhola para a Luta Antidopagem no Desporto — propôs uma suspensão de um ano e meio.
Noval reconheceu ter
participado na sessão.
A versão relatada pelo El
País indica que o ciclista alegou desconhecer a proibição e mostrou
arrependimento pelo sucedido.
A idade do corredor acabou por
ser uma das circunstâncias consideradas no processo.
E aqui está novamente o ponto
que merece ser sublinhado: não estava em causa um positivo no controle antidoping de
Benjamín Noval.
O processo resultava da sua
associação, ainda que numa situação concreta e quando tinha apenas 15 anos, com
uma pessoa que se encontrava suspensa.
O processo acabou por caducar
A história poderia ter tido
consequências muito diferentes.
Uma suspensão de 18 meses
naquela fase da carreira poderia ter interrompido o desenvolvimento de um
corredor que começava a destacar-se entre os melhores da sua
geração.
Mas isso não aconteceu.
De acordo com a investigação
publicada pelo El País, tanto a CELAD como o tribunal disciplinar
tiveram em consideração as circunstâncias particulares do caso, incluindo a
idade de Noval e o contexto da investigação a Martí.
Em 5 de novembro de 2025,
o processo foi declarado caducado, após ultrapassado o
prazo de 12 meses previsto para a sua tramitação.
Noval seguiu a sua carreira.
Menos de um ano depois,
estaria em Montreal a escrever uma das páginas mais impressionantes da história
recente do ciclismo júnior espanhol.
Filho de um antigo profissional
A história ganha ainda outra
dimensão pelo apelido que o jovem carrega.
O pai, também Benjamín Noval,
foi profissional e desempenhou funções de gregário ao lado de Lance Armstrong e
Alberto Contador.
O pai acompanhou de perto o
crescimento do filho, que, desde muito cedo, revelou uma ambição rara.
Segundo o El País, aos
14 anos, Noval terá dito ao pai que queria ser ciclista apenas se fosse para ser
campeão, e não para desempenhar o papel de gregário que o próprio pai havia exercido durante a carreira.
Essa personalidade competitiva
foi sendo desenvolvida na equipa asturiana da MMR, equipa dirigida pelo
campeão olímpico Samuel Sánchez.
A progressão foi tão rápida
que Noval vai saltar praticamente todas as etapas tradicionais de uma carreira
profissional.
WorldTour aos 18 anos
O próximo passo está definido.
A partir de 1 de janeiro de
2027, Benjamín Noval integrará a Netcompany Ineos, entrando diretamente no
WorldTour.
Noval chegará ao pelotão
profissional com apenas 18 anos, depois de uma temporada que dificilmente
poderia ter sido mais expressiva.
Dois títulos mundiais.
Um feito que apenas Evenepoel
tinha conseguido antes.
É uma história de 2024 que
poderia ter posto um travão brutal na sua carreira, mas acabou sem suspensão.
Montreal mostrou ao mundo o
talento.
O episódio de Navacerrada
mostra que, antes de chegar ao topo, o jovem espanhol atravessou uma
situação séria que podia pôr o seu futuro em risco.
Agora, a partir de 2027, a
história muda de cenário.
Deixa de ser o prodígio dos
juniores. Passa a ser um corredor do WorldTour.
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