Destaque do Universo do Ciclismo e dos Desportos de Raquetes

A Volta a Portugal entre sonhos e feridas

  🖋️ António Vieira Pacheco · 📅 16 agosto 2026 · 📸 Direitos Reservados · ⏱️2 min · 🌱EMM 

Balanço da Volta a Portugal.

A Volta a Portugal terminou este domingo no Porto. Rui Oliveira ganhou em casa, Alexis Guérin levou a camisola amarela e milhares de pessoas encheram a Avenida dos Aliados para celebrar o ciclismo.

Era suposto ser uma festa.

E foi.

Mas esta não pode ser a única fotografia que ficará da 87.Volta a Portugal.

Porque entre a partida e a chegada, aconteceu uma tragédia que mudou tudo.

Finlay Tarling faleceu.

Tinha apenas 19 anos.

O jovem ciclista britânico pereceu durante a oitava etapa, numa tragédia que deixou o pelotão em choque e transformou inevitavelmente o ambiente da competição. A corrida prosseguiu, mas já não podia ser igual.

A partir daquele momento, a Volta deixou de ser apenas uma competição.

Passou a carregar um luto.

E talvez seja essa a primeira conclusão desta edição: há momentos em que o ciclismo precisa de parar para perceber que, antes dos tempos, das classificações e das audiências, estão pessoas.

Finlay era um jovem que tentava construir o seu caminho no ciclismo. Tinha 19 anos, sonhos e uma carreira pela frente.

Não chegou ao fim.

E não há vitória, camisola ou festa que consiga apagar essa realidade.

As circunstâncias da tragédia devem ser apuradas pelas entidades competentes. Mas cabe também ao jornalismo fazer perguntas.

Perguntar como aconteceu.

Questionar se todos os mecanismos de segurança funcionaram.

Perguntar se era possível evitar a tragédia.

E perguntar o que pode ser feito para que uma situação semelhante nunca mais aconteça.

Não é atacar a organização da Volta.

É respeitar Finlay.

E depois há o EMM

É neste contexto que faço o balanço da participação do Entrar no Mundo das Modalidades nesta Volta.

O EMM acompanhou a prova com os meios que tem. Um projeto pequeno, independente, sem redação por trás, mas com uma enorme vontade de contar o ciclismo e as modalidades.

Publicámos notícias, procurámos protagonistas, acompanhámos as etapas e tentámos dar atenção às histórias, que muitas vezes ficam escondidas atrás da classificação geral.

Chegámos ao final, porém, há uma situação que não posso ignorar.

Foi recusada ao EMM uma credencial para a última etapa da Volta a Portugal.

Não escrevo isto por ressentimento.

Uma credencial não dá qualidade a ninguém.

Também não transforma automaticamente quem a recebe num jornalista melhor.

Mas uma credencial representa, neste contexto, o reconhecimento de que existe um projeto editorial interessado em acompanhar uma competição profissional no terreno.

Era isso que o EMM pretendia fazer.

Não queríamos tratamento especial. Não queríamos ocupar o lugar de nenhum grande órgão de comunicação social.

Queríamos divulgar a modalidade.

E é precisamente por isso que fica a pergunta: que espaço existe hoje para os pequenos projetos editoriais independentes?

O panorama mediático mudou.

Já não existem apenas jornais, rádios e televisões tradicionais. Existem projetos digitais especializados, independentes, com públicos próprios e que trabalham diariamente para dar visibilidade a modalidades que muitas vezes têm dificuldade em encontrar espaço nos grandes meios.

O EMM é um desses projetos.

Pequeno, sim.

Mas presente.

Uma Volta com muitas histórias

Seria, contudo, injusto reduzir esta edição à polémica da credencial.

A Volta teve ciclismo.

Teve Alexis Guérin, vencedor da classificação geral.

Teve Rui Oliveira, que encontrou no último dia a vitória que provavelmente ficará como uma das imagens mais bonitas desta edição.

Teve Iúri Leitão à espera do amigo e companheiro olímpico na chegada.

Teve jovens a aparecer.

Teve equipas portuguesas a lutar.

Teve montanha, fugas, ataques, sofrimento e público.

Teve tudo o que uma Volta a Portugal tem para ser uma corrida especial.

Mas teve também Finlay Tarling.

E essa não pode ser apagada,

O ciclismo não pode normalizar o perigo

Existe uma frase que se repete demasiadas vezes no ciclismo: «faz parte dos riscos da modalidade».

Sim, o ciclismo é perigoso.

Mas essa frase não pode servir para transformar todas as tragédias em fatalidades inevitáveis.

Uma queda pode acontecer. Um acidente pode acontecer.

Mas uma coisa é o risco inerente à competição. Outra é uma situação externa à corrida que expõe quem compete ao perigo.

É precisamente para controlar esses riscos que existem organizações, forças de segurança, veículos de apoio e sistemas de proteção da corrida.

A investigação deverá esclarecer o que aconteceu e onde ocorreram as falhas.

Mas o ciclismo deve querer saber as respostas.

Por Finlay.

Pela família.

Pelos companheiros.

E por todos os corredores que amanhã voltarão a colocar o capacete e a pedalar na estrada.




                                     A Volta termina e as perguntas ficam

A Avenida dos Aliados fechou a Volta com uma imagem bonita.

Rui Oliveira, em casa, a vencer.

O público a festejar.

A camisola do FC Porto no pódio.

Uma multidão a celebrar um corredor da terra.

É uma imagem que merece ficar.

Mas outra também ficará.

A de um jovem de 19 anos que saiu para disputar uma etapa da Volta a Portugal e nunca chegou ao fim.

Por isso, o balanço do EMM não pode ser apenas desportivo.

Esta foi uma Volta a Portugal de grandes histórias, emoção, ciclismo e festa.

Mas foi também uma Volta marcada por uma morte que ninguém poderá esquecer.

Quanto ao EMM, continuaremos.

Com ou sem credencial.

Porque o jornalismo e a divulgação não começam numa acreditação nem terminam quando alguém decide recusar.

Começa na vontade de contar.

E enquanto houver histórias para contar, o EMM estará cá.

VOLTA A PORTUGAL Ver todos →

A carregar artigos...

Comentários

Mensagens populares