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Volta a Portugal no Gerês: a Mata de Albergaria virou pista de ciclismo e a Quercus não deixa passar
🖋️ António Vieira Pacheco · 📅 11 agosto 2026 · 📸 Direitos Reservados · ⏱️ 2 min · 🌱EMM
Quercus contesta autorização do ICNF e avisa: as condicionantes podem reduzir o impacto, mas não resolvem o problema.
Há lugares onde andar de
bicicleta é uma boa ideia. E há lugares onde talvez fosse melhor deixar a
bicicleta passar… ao lado.
A Mata de Albergaria, no
Gerês, está no centro de uma nova polémica em torno da Volta a Portugal. A
Quercus contestou esta terça-feira a autorização concedida pelo Instituto da
Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) para a passagem da 7.ª etapa da
prova, marcada para quinta-feira, e considera que as medidas anunciadas não
são suficientes para afastar os riscos ambientais.
E a associação ambientalista é
taxativa: a Mata de Albergaria não é lugar para a Volta a Portugal.
O ICNF anunciou que a passagem
da corrida será acompanhada por fortes medidas de proteção da biodiversidade,
incluindo a interdição ao público nos setores mais sensíveis, limitações à
circulação dos veículos de apoio e a exclusão de meios aéreos e de amplificação
sonora.
Tudo muito condicionado,
portanto.
O problema, segundo a Quercus,
é que condicionar não é o mesmo que eliminar.
O problema está muito além das bicicletas!
A associação reconhece que as
restrições podem reduzir alguns impactos, mas considera que deixam intocada a
questão essencial: levar uma competição desportiva de dimensão nacional, com
ciclistas, equipas, veículos, organização e toda a logística associada,
precisamente para uma das áreas ecologicamente mais sensíveis do único Parque
Nacional português.
E é aqui que a discussão deixa
de ser apenas sobre uma etapa da Volta.
A Mata de Albergaria integra
áreas de proteção parcial de tipo I e é ladeada, em parte do percurso, por
áreas de proteção total. Para a Quercus, trata-se de um dos últimos redutos do
bosque original em Portugal e, por isso mesmo, de uma zona que deveria beneficiar
da máxima proteção.
A associação lembra ainda que
a Mata já suporta uma pressão automóvel e turística demasiado significativa.
Ou seja: se já há demasiado
trânsito, a solução dificilmente será acrescentar-lhe uma corrida de bicicletas
e toda a caravana que a acompanha.
O precedente que preocupa
É neste ponto que a Quercus
levanta uma questão que pode ser ainda mais importante do que a passagem desta
edição.
A associação diz não ter sido
apresentada publicamente uma avaliação da capacidade de carga da Mata de
Albergaria, dos efeitos cumulativos da visitação ou da eficácia das medidas
anunciadas para a etapa.
E teme que a autorização possa
criar um precedente.
Hoje é a Volta a Portugal.
Amanhã, pergunta a Quercus, quem poderá invocar esta decisão para justificar
outro grande evento numa área igualmente sensível?
É precisamente esse efeito
multiplicador que os ambientalistas consideram preocupante.
A contestação é, aliás, acompanhada por membros do Conselho Estratégico do Parque Nacional da Peneda-Gerês e pelo antigo diretor do parque, Henrique Miguel Pereira, que levantam dúvidas sobre a legalidade da decisão, o precedente criado e o sinal transmitido à sociedade.
A Quercus não põe em causa
a importância da Volta a Portugal nem o papel do ciclismo na promoção dos
territórios.
Mas deixa uma condição
bastante simples: promover um território não pode significar pôr em causa o que esse território torna especial.
É uma discussão incómoda para
uma prova que procura precisamente levar o ciclismo aos lugares mais
emblemáticos do país.
Porque o Gerês é magnífico. É
também um dos patrimónios naturais mais importantes de Portugal.
E talvez seja precisamente por
isso que nem todos os lugares magníficos precisam de servir de cenário para uma
fotografia da Volta.
A Quercus pede agora ao ICNF e
à organização da Volta a Portugal que revejam o percurso e retirem a passagem
da 7.ª etapa pela Mata de Albergaria, defendendo igualmente que a zona seja
excluída de futuras edições.
Pede ainda que sejam
divulgadas publicamente as fundamentações técnicas e jurídicas que sustentaram a
autorização.
No fundo, a pergunta é
simples: se existem alternativas viáveis, por que razão é necessário levar a
corrida precisamente para uma das zonas que mais proteção exigem?
A resposta poderá decidir
muito mais do que o percurso de uma etapa.
E o dia de descanso foi mais uma
oportunidade para os ambientalistas protestarem.
Volta a Portugal
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