UAE Team Emirates: a máquina que nunca larga a presa

 🖋️Por: António Vieira Pacheco

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O RX feito ao Team Emirates.
UAE Team Emirates: o império que mudou o ciclismo.

                                  Domínio sem pausa

Há equipas que vencem. Outras ocupam espaço na história. E depois existe a UAE Team Emirates, uma estrutura que deixou de correr apenas atrás de triunfos para controlar o próprio ritmo do ciclismo mundial.

O Giro d’Itália voltou a confirmar essa sensação. Mesmo limitada à metade do bloco inicial após quedas e problemas físicos, a equipa dos Emirados continua a ser a formação mais vencedora da corrida. Como um predador que caça mesmo ferido, a UAE mantém o instinto intacto.

Quatro vitórias de etapa já foram parar nas mãos da estrutura dos Emirados. Algumas nasceram da força coletiva. Outras da liberdade ofensiva dos seus corredores. Todas carregaram a mesma assinatura: controlo.

No ciclismo moderno, poucas equipas conseguem impor presença sem necessidade de dominar diariamente o pelotão. A UAE faz isso quase em silêncio. Está sempre ali. À espera do momento apropriado para atacar.

Uma nova era

O fenómeno não começou ontem.

Nas últimas quatro temporadas, a UAE Team Emirates acumulou 268 vitórias. Um número que ultrapassa a simples dimensão estatística e entra no território das dinastias desportivas.

No Giro, Tour e Vuelta, a equipa conquistou 38 etapas desde 2023. Catorze em Itália, treze em França e onze em Espanha. Nenhuma outra formação conseguiu aproximar-se verdadeiramente desse nível de consistência.

A Visma-Lease a Bike, principal rival nos últimos anos, soma 22 vitórias em grandes voltas nesse período, enquanto Lidl-Trek aparece bastante atrás. A Red Bull-BORA ainda mais distante.

E a diferença não está apenas nos resultados. Está na sensação permanente de profundidade.

Quando um corredor falha, surge outro. Quando um líder desaparece, a estrutura continua a produzir ataques, vitórias e controlo.

É uma equipa construída para sobreviver a qualquer cenário.

A fome nunca termina

Existe algo quase animal na forma como a UAE corre.

Mesmo quando já venceu, continua a atacar. E mesmo quando controla, procura mais espaço. Como um caçador que nunca abandona, totalmente o cheiro da presa.

Essa mentalidade tornou-se ainda mais forte após um momento específico: o Col du Granon, em 2022.

Naquela subida francesa, Tadej Pogačar foi cercado pela Visma numa das etapas mais simbólicas do ciclismo recente. A equipa neerlandesa desmontou o campeão esloveno peça por peça até entregar a liderança a Jonas Vingegaard.

A derrota não destruiu a UAE. Transformou-a.

O dia que mudou tudo

Mauro Gianetti nunca escondeu isso.

“O que aconteceu no Col du Granon mudou a perspetiva do Tadej e a nossa”, explicou o diretor da equipa à Marca.

Até então, a UAE tinha talento. Depois daquele dia, percebeu que precisava construir poder estrutural.

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“Percebemos que tínhamos de criar uma estrutura em torno do Tadej que estivesse em outro nível. Não importa o quão forte sejas individualmente, vencer uma grande volta sozinho é extremamente difícil.”

Foi aí que nasceu a versão mais perigosa da equipa.

A UAE deixou de depender apenas do brilho individual de Pogačar e passou a construir um exército de luxo. Corredores preparados para vencer em qualquer terreno: etapas, montanhas, clássicas ou grandes voltas.

Hoje, o plantel parece funcionar como uma coleção de armas distintas para o mesmo objetivo.

Profundidade rara

O Giro atual ajuda a perceber isso com clareza.

Mesmo sem parte importante do elenco inicial, a equipa continua a dominar momentos-chave da corrida. Igor Arrieta venceu. Jhonatan Narváez transformou-se numa ameaça constante sempre que a estrada abre espaço para fugas explosivas.

Narváez corre como quem fareja oportunidade à distância. Não precisa de muitos metros para transformar hesitação alheia em vantagem.

Essa capacidade ofensiva tornou-se uma das marcas da UAE moderna: não esperar que a corrida aconteça, mas provocá-la.

Enquanto outras equipas calculam demasiado, a UAE prefere obrigar os rivais a responder permanentemente.

Os dois rostos do projeto dos Emirates no Giro.
Matxin e Mauro Gianetti, no Giro,

O cérebro da estrutura

Por trás desse crescimento estão duas figuras decisivas: Mauro Gianetti e Joxean Fernández Matxín.

Os dois começaram a desenhar esta ideia há mais de duas décadas. 

Em 2017, transformaram a antiga Lampre-Merida na atual UAE Team Emirates. O projeto cresceu rapidamente, mas nunca perdeu a obsessão pela evolução.


Mesmo no auge do domínio, a UAE continua a agir como uma equipa que ainda tem algo a conquistar.

“Não olhamos para trás nem pensamos no quão bons somos”, explicou Gianetti. “Olhamos para a frente para continuar a melhorar”, acrescentou.

Essa mentalidade explica a dificuldade em contrariar a UAE.

A maioria das estruturas abranda após alcançar o topo. A UAE age como se ainda estivesse a persegui-lo.

Uma equipa de líderes

O ciclismo moderno raramente permite reunir tantos líderes na mesma equipa.

Mas a UAE conseguiu exatamente isso.

Há corredores preparados para ganhar etapas de montanha, clássicas, contrarrelógios ou grandes voltas. Alguns aceitam trabalhar para os líderes. Outros surgem como solução quando o plano principal falha.

É quase uma rede de segurança permanente.

Essa profundidade obriga os rivais a um alerta constante. Controlar um líder já é difícil. Controlar vários corredores perigosos, ao mesmo tempo, transforma-se numa tarefa quase impossível.

O peso psicológico

O domínio da UAE já não é apenas físico. Tornou-se mental.

Muitas equipas entram nas corridas sabendo que terão de reagir aos movimentos da formação dos Emirados. Isso muda comportamentos, estratégias e até decisões no coração do pelotão.

Quando a UAE acelera, o grupo sente imediatamente tensão. Quando um dos seus corredores entra numa fuga, a perseguição muda de intensidade e de lógica.

Quando um dos seus corredores entra numa fuga, a perseguição muda de intensidade e de lógica.

É esse tipo de influência que só as grandes dinastias conseguem impor.

Os Chicago Bulls de Michael Jordan fizeram isso no basquetebol. A Mercedes dominou a Fórmula 1 dessa forma. O Real Madrid europeu de Zidane também.

No ciclismo atual, essa sombra pertence à UAE.

O futuro já começou

O mais impressionante, talvez seja outro detalhe: a sensação de que isto ainda não atingiu o limite.

A equipa continua a contratar talento jovem, a reforçar a estrutura técnica e a aumentar a profundidade competitiva. Não existe sinal de acomodação.

Pelo contrário.

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A UAE parece movida por uma fome permanente. Como um predador que nunca abandona completamente a caça, pois acredita que a próxima presa pode ser ainda maior.

Essa mentalidade transformou a equipa numa referência absoluta do ciclismo moderno.

E enquanto os rivais tentam encontrar respostas, a UAE continua a fazer o que melhor sabe: vencer, adaptar-se e voltar a atacar.

 

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