Afonso Eulálio: “Estar em casa é o meu passatempo favorito”

  🖋️Por: António Vieira Pacheco

📸 Créditos: Direitos Reservados

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Afonso abre o livro nas páginas mais recentes da carreira.


O telefone não para

A vida de Afonso Eulálio mudou tão depressa quanto uma etapa de montanha pode rebentar um pelotão. Desde que vestiu a maglia rosa no Giro, o português passou a viver mergulhado em chamadas, mensagens e atenções inesperadas. Ao ponto de nem atender o Presidente da República.

O Presidente da República tentou ligar-me e deixou-me uma mensagem”, contou o ciclista português, referindo-se a António José Seguro, durante o segundo dia de descanso da Volta a Itália.

A explicação surgiu logo depois, quase entre sorrisos: “Nestes dias, tenho tantas chamadas e mensagens que não atendi o telemóvel”.

A frase resume bem o momento surreal vivido pelo corredor da Bahrain Victorious. Há poucas semanas era apenas mais um gregário num pelotão cheio de estrelas. Agora, tornou-se o rosto inesperado da corrida italiana.
A nova vida de líder

A liderança do Giro trouxe fama, pressão e uma rotina ainda mais pesada. Os dias começam cedo e acabam tarde, quase sempre engolidos pela exigência constante da maior corrida italiana.

Quase todos os dias vou-me deitar à meia-noite; no dia seguinte estou a pé às 7 horas”, revelou.

Entre entrevistas, massagens, deslocações e obrigações da camisola rosa, sobra pouco espaço para desligar. E talvez, por isso, a resposta sobre o seu maior passatempo tenha surpreendido.

Ter tempo para estar em casa é o meu passatempo favorito”, confessou.

A frase tem algo de simples e poderoso ao mesmo tempo. Como se, no meio do ruído do Giro, o português procurasse apenas silêncio. Para quem passa meses entre hotéis, aeroportos e estradas intermináveis, casa transforma-se quase num refúgio invisível.

Em dois meses, tenho três, quatro dias em casa. Quando vamos para casa, para nós é como estar de férias”, explicou.

Rui Costa é o início de tudo

No meio das inúmeras mensagens recebidas nos últimos dias, houve uma que teve um significado especial: a de Rui Costa.

O campeão do mundo de fundo em 2013 era o ídolo de infância de Eulálio, numa altura em que ainda dava as primeiras pedaladas no BTT com amigos “depois da escola”.

Hoje, a realidade parece improvável até para ele próprio. O jovem de 24 anos chegou ao World Tour apenas no ano passado e admite que nunca imaginou viver algo semelhante.

Não sonhava estar no World Tour, menos ainda estar vestido de rosa”, confessou.

A camisola rosa apareceu como uma porta aberta para um universo que parecia demasiado distante. Eulálio aproveitou-a sem medo.

Entre Cacia e o Giro

Apesar de estar no centro mediático do ciclismo mundial, o português continua agarrado às pequenas referências da sua vida longe das corridas.

Falou de Cacia, onde vive atualmente com a namorada e onde a população decidiu pintar o apoio de cor-de-rosa. Fitinhas, bandeiras e entusiasmo ajudam a empurrar emocionalmente o líder do Giro.

Também revelou gostos simples e descontraídos: é benfiquista, aprecia risotto, barbecue e ouve reggaeton.

Pequenos detalhes que aproximam o corredor das pessoas e ajudam a explicar por que se tornou uma das figuras mais acarinhadas desta edição do Giro.

O sofrimento invisível

Por trás da imagem festiva da camisola rosa também há desgaste. Muito desgaste.

Eulálio admite que sobra pouco tempo para falar com a família e os amigos em Portugal. A liderança da corrida italiana funciona quase como um holofote permanente, impossível de desligar.

Ainda assim, o português mantém uma postura surpreendentemente leve para alguém que está a viver os dias mais intensos da carreira.

Talvez porque ainda olhe para tudo isto com um misto de espanto e gratidão. Afinal, há poucos meses, discutir a liderança de uma grande Volta parecia um cenário impossível.

O contrarrelógio que pode mudar tudo

Na terça-feira, Eulálio regressa à estrada para defender a liderança no contrarrelógio entre Viareggio e Massa. Parte com 2,24 minutos de vantagem sobre Jonas Vingegaard, o grande favorito à vitória final.

Mas o português sabe que o relógio pode ser implacável.

O dinamarquês surge como uma ameaça constante, enquanto Felix Gall ocupa o terceiro lugar da classificação geral. O Giro entra agora numa fase em que cada segundo pesa como chumbo.

Mesmo assim, Eulálio continua a pedalar com a leveza de quem ainda está a descobrir o tamanho do próprio sonho.

E talvez seja precisamente isso que torna esta história tão diferente das outras 

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