Afonso Eulálio: “Estar em casa é o meu passatempo favorito”
🖋️Por: António Vieira Pacheco
📸 Créditos: Direitos Reservados
⏱️ Tempo de leitura: 3 minutos
O telefone não para
A vida de Afonso Eulálio mudou tão
depressa quanto uma etapa de montanha pode rebentar um pelotão. Desde que
vestiu a maglia rosa no Giro, o português passou a viver mergulhado em
chamadas, mensagens e atenções inesperadas. Ao ponto de nem atender o Presidente
da República.
“O Presidente da República tentou ligar-me e
deixou-me uma mensagem”, contou o ciclista português, referindo-se a
António José Seguro, durante o segundo dia de descanso da Volta a Itália.
A explicação surgiu logo depois,
quase entre sorrisos: “Nestes dias, tenho tantas chamadas e mensagens que
não atendi o telemóvel”.
A frase resume bem o momento surreal
vivido pelo corredor da Bahrain Victorious. Há poucas semanas era apenas mais
um gregário num pelotão cheio de estrelas. Agora, tornou-se o rosto inesperado
da corrida italiana.
A nova vida de líder
A liderança do Giro trouxe fama,
pressão e uma rotina ainda mais pesada. Os dias começam cedo e acabam tarde,
quase sempre engolidos pela exigência constante da maior corrida italiana.
“Quase todos os dias vou-me deitar
à meia-noite; no dia seguinte estou a pé às 7 horas”, revelou.
Entre entrevistas, massagens,
deslocações e obrigações da camisola rosa, sobra pouco espaço para desligar. E talvez, por isso, a resposta sobre o seu maior passatempo tenha surpreendido.
“Ter tempo para estar em casa é o
meu passatempo favorito”, confessou.
A frase tem algo de simples e
poderoso ao mesmo tempo. Como se, no meio do ruído do Giro, o português
procurasse apenas silêncio. Para quem passa meses entre hotéis, aeroportos e
estradas intermináveis, casa transforma-se quase num refúgio invisível.
“Em dois meses, tenho três, quatro
dias em casa. Quando vamos para casa, para nós é como estar de férias”,
explicou.
Rui Costa é o início de
tudo
No meio das inúmeras mensagens
recebidas nos últimos dias, houve uma que teve um significado especial: a de
Rui Costa.
O campeão do mundo de fundo em 2013
era o ídolo de infância de Eulálio, numa altura em que ainda dava as primeiras
pedaladas no BTT com amigos “depois da escola”.
Hoje, a realidade parece improvável
até para ele próprio. O jovem de 24 anos chegou ao World Tour apenas no ano
passado e admite que nunca imaginou viver algo semelhante.
“Não sonhava estar no World Tour,
menos ainda estar vestido de rosa”, confessou.
A camisola rosa apareceu como uma
porta aberta para um universo que parecia demasiado distante. Eulálio
aproveitou-a sem medo.
Entre Cacia e o Giro
Apesar de estar no centro mediático
do ciclismo mundial, o português continua agarrado às pequenas referências da
sua vida longe das corridas.
Falou de Cacia, onde vive atualmente
com a namorada e onde a população decidiu pintar o apoio de cor-de-rosa.
Fitinhas, bandeiras e entusiasmo ajudam a empurrar emocionalmente o líder do
Giro.
Também revelou gostos simples e
descontraídos: é benfiquista, aprecia risotto, barbecue e ouve reggaeton.
Pequenos detalhes que aproximam o
corredor das pessoas e ajudam a explicar por que se tornou uma das figuras mais
acarinhadas desta edição do Giro.
O sofrimento invisível
Por trás da imagem festiva da
camisola rosa também há desgaste. Muito desgaste.
Eulálio admite que sobra pouco tempo
para falar com a família e os amigos em Portugal. A liderança da corrida italiana
funciona quase como um holofote permanente, impossível de desligar.
Ainda assim, o português mantém uma
postura surpreendentemente leve para alguém que está a viver os dias mais
intensos da carreira.
Talvez porque ainda olhe para tudo
isto com um misto de espanto e gratidão. Afinal, há poucos meses, discutir a
liderança de uma grande Volta parecia um cenário impossível.
O contrarrelógio que pode mudar tudo
Na terça-feira, Eulálio regressa à
estrada para defender a liderança no contrarrelógio entre Viareggio e Massa.
Parte com 2,24 minutos de vantagem sobre Jonas Vingegaard, o grande favorito à
vitória final.
Mas o português sabe que o relógio
pode ser implacável.
O dinamarquês surge como uma ameaça
constante, enquanto Felix Gall ocupa o terceiro lugar da classificação geral. O Giro
entra agora numa fase em que cada segundo pesa como chumbo.
Mesmo assim, Eulálio continua a
pedalar com a leveza de quem ainda está a descobrir o tamanho do próprio sonho.
E talvez seja precisamente isso que torna esta história tão diferente das outras
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- 👉 “O Jonas veste a rosa quando
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- 👉 “Por mim ia até Roma de
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