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Afonso Eulálio: “Tem de ser da camisola”
🖋️Por: António Vieira Pacheco
📸 Créditos: Direitos Reservados
⏱️ Tempo de leitura: 3 minutos
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| O sorriso de Afonso Eulálio por aguentar mais um dia a camisola rosa. |
Um dia perfeito!
Há dias em que uma equipa vence uma
etapa. E há outros em que parece ganhar alma. A Bahrain Victorious viveu
precisamente esse tipo de jornada na 12.ª etapa da Volta a Itália, numa tarde
em que tudo encaixou com uma naturalidade quase improvável.
Enquanto Alec Segaert surpreendia o
pelotão com um ataque certeiro rumo à vitória, Afonso Eulálio reforçava a
liderança da classificação geral e acabava mais um dia vestido de rosa.
No final, o português resumiu tudo
numa frase que misturou humor, superstição e felicidade genuína.
“Penso que é mesmo a camisola que nos
dá alguma força. Foi o primeiro dia em que o Alec foi meu colega de quarto. Hoje, vence a etapa. Tem de ser da camisola.”
Às vezes, o ciclismo também vive
destas pequenas crenças invisíveis.
Como se certas camisolas carregassem
energia própria. Como se o rosa tivesse o poder raro de transformar confiança
em coragem.
O ataque inesperado
A etapa entre Imperia e Novi Ligure parecia encaminhar-se para um desfecho previsível.
O pelotão mantinha-se
relativamente controlado, as equipas organizavam-se para o final e poucos
imaginavam uma mudança brusca tão perto da meta.
Mas Segaert decidiu rasgar o guião.
A 3,4 quilómetros do fim, o jovem
belga levantou-se da bicicleta e atacou num instante de pura ousadia. Sem
hesitar, sem esperar pela reação dos rivais.
Atrás dele, o pelotão demorou
demasiado tempo a perceber o perigo.
Quando tentou reorganizar-se, o
corredor da Bahrain já seguia lançado, pedalando sozinho rumo à maior vitória
da carreira.
O belga de 23 anos cruzou a meta
isolado após os 175 quilómetros da etapa, concluindo o percurso em 03:53.00
horas. O grupo perseguidor, liderado por Toon Aerts, chegou apenas três
segundos depois, acompanhado pelo uruguaio Guillermo Thomas Silva.
Pouco tempo no cronómetro. Enorme
diferença no impacto emocional.
Bahrain em festa
A vitória teve um peso especial para
a equipa.
A Bahrain Victorious não triunfava no
Giro desde 2023, quando Santiago Buitrago venceu a 19.ª etapa. Agora, o
regresso aos triunfos aconteceu precisamente num momento em que a formação vive
uma das fases mais felizes da corrida.
“Hoje, foi um dia perfeito para a
equipa. Terminámos com a camisola rosa mais um dia, acabámos por vencer com o
Alec, foi perfeito”, resumiu
Afonso.
A sensação no coração da Bahrain parece
ser a de uma equipa que encontrou o equilíbrio. Há confiança, união e uma
tranquilidade rara numa grande volta onde normalmente tudo vive em permanente
estado de tensão.
O detalhe da troca de quartos entre
Afonso e Segaert acabou por dar um lado quase cinematográfico à história.
Na véspera, tornaram-se companheiros
de quarto. No dia seguinte, um reforçou a liderança e o outro venceu a etapa.
Como se o Giro tivesse decidido
escrever um argumento demasiado perfeito para ser coincidência.
Seis segundos valiosos
Apesar da festa em torno da vitória
de Segaert, Afonso também teve motivos importantes para sorrir.
O português conquistou seis segundos
de bonificação no sprint intermédio e aumentou a diferença para os principais
perseguidores da classificação geral.
Num Giro no qual cada segundo pode
pesar como pedra nas montanhas finais, ganhar margem é mais do que um simples
detalhe estatístico.
“Acabei por conseguir seis segundos
de bonificação; os outros ciclistas não estavam interessados. Fui buscá-los.
Foi mais um dia salvo com a camisola”, explicou.
A frase diz muito sobre a forma como
o português está a correr esta Volta a Itália: atento a tudo, concentrado nos
pequenos ganhos e sempre preparado para aproveitar qualquer distração dos
adversários.
Há líderes que tentam esmagar rivais
com ataques explosivos. O português parece preferir outro caminho — construir
vantagem grão a grão, quase sem fazer barulho.
Corrida
endureceu
Apesar de a etapa não apresentar
grandes dificuldades montanhosas, o ritmo elevado acabou por transformar o dia
numa batalha exigente.
“Foi um dia mais ou menos tranquilo
de início; depois, a Movistar endureceu bastante a corrida na subida. Acabou por
ser uma etapa bastante rápida e dura na parte final, com uma descida técnica
muito rápida”, descreveu o camisola rosa.
O desgaste acumulou-se especialmente
na fase final, quando o pelotão entrou numa sequência nervosa de ataques,
mudanças de ritmo e descidas perigosas.
Foi precisamente nesse ambiente mais
caótico que Segaert encontrou espaço para surpreender.
No ciclismo moderno, muitas vezes
vence quem consegue ler melhor os segundos de hesitação dos outros.
Vingegaard continua perto
Apesar do reforço da liderança, Eulálio
sabe que o Giro continua longe de estar decidido.
Jonas Vingegaard permanece como o
grande favorito à vitória final e está agora a 33 segundos do português. Já
Thymen Arensman segue na terceira posição, a 2,03 minutos.
As grandes montanhas ainda esperam
pelo pelotão e qualquer etapa pode mudar completamente o desenho da
classificação geral.
Mas há algo que começa a mudar na corrida: a perceção dos adversários.
Afonso deixou de ser apenas uma
surpresa agradável. Agora é tratado como um verdadeiro candidato.
E isso altera completamente a pressão no pelotão.
Rosa portuguesa
A ligação de Portugal à maglia rosa também continua a ganhar novos capítulos.
Eulálio assumiu a liderança após a quinta etapa do Giro d’Italia, tornando-se o segundo português com mais dias na frente da classificação geral, superado apenas por João Almeida (15 dias em 2020).
Além disso, Portugal destaca-se por ter acumulado longos períodos de liderança da camisola rosa no Giro sem nunca ter vencido a classificação geral.
Ao todo, os portugueses somam agora
24 dias de liderança no Giro: 15 de João Almeida, sete de Afonso Eulálio e dois
de Acácio da Silva em 1989.
É uma estatística curiosa, quase
contraditória. Como estar constantemente à porta da história, mas ainda sem conseguir entrar...
Mas este Giro continua aberto.
E enquanto Afonso seguir vestido de
rosa, Portugal continuará a sonhar.
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