Afonso Eulálio: “Tem de ser da camisola”

  🖋️Por: António Vieira Pacheco

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A camisola eosa deu forças a Afonso Eulálio.
O sorriso de Afonso Eulálio por aguentar mais um dia a camisola rosa.

                                        Um dia perfeito!

Há dias em que uma equipa ganha uma etapa. E há outros em que parece ganhar alma. A Bahrain Victorious viveu precisamente esse tipo de jornada na 12.ª etapa da Volta a Itália, numa tarde em que tudo encaixou com uma naturalidade quase improvável.

Enquanto Alec Segaert surpreendia o pelotão com um ataque certeiro rumo à vitória, Afonso Eulálio reforçava a liderança da classificação geral e terminava mais um dia vestido de rosa.

No final, o português resumiu tudo numa frase que misturou humor, superstição e felicidade genuína.

“Penso que é mesmo a camisola que nos dá alguma força. Foi o primeiro dia em que o Alec foi meu colega de quarto e vai hoje e vence a etapa. Tem de ser da camisola.”

A classificação Geral do Giro.Às vezes, o ciclismo também vive destas pequenas crenças invisíveis. 
Como se certas camisolas carregassem energia própria. Como se o rosa tivesse o poder raro de transformar confiança em coragem.

O ataque inesperado

A etapa entre Imperia e Novi Ligure parecia encaminhar-se para um desfecho previsível.

O pelotão mantinha-se relativamente controlado, as equipas organizavam-se para o final e poucos imaginavam uma mudança brusca tão perto da meta.

Mas Segaert decidiu rasgar o guião.

A 3,4 quilómetros do fim, o jovem belga levantou-se da bicicleta e atacou num instante de pura ousadia. Sem hesitar, sem esperar pela reação dos rivais.

Atrás dele, o pelotão demorou demasiado tempo a perceber o perigo.

Quando tentou reorganizar-se, o corredor da Bahrain já seguia lançado, pedalando sozinho rumo à maior vitória da carreira.

O belga de 23 anos cruzou a meta isolado após os 175 quilómetros da etapa, concluindo o percurso em 03:53.00 horas. O grupo perseguidor, liderado por Toon Aerts, chegou apenas três segundos depois, acompanhado pelo uruguaio Guillermo Thomas Silva.

Pouco tempo no cronómetro. Enorme diferença no impacto emocional.

Bahrain em festa

A vitória teve um peso especial para a equipa.

A Bahrain Victorious não triunfava no Giro desde 2023, quando Santiago Buitrago venceu a 19.ª etapa. Agora, o regresso aos triunfos aconteceu precisamente num momento em que a formação vive uma das fases mais felizes da corrida.

“Hoje, foi um dia perfeito para a equipa. Terminámos com a camisola rosa mais um dia, acabámos por vencer com o Alec, foi perfeito”, resumiu Afonso.

A sensação dentro da Bahrain parece ser a de uma equipa que encontrou equilíbrio. Há confiança, união e uma tranquilidade rara numa grande volta onde normalmente tudo vive em permanente estado de tensão.

O detalhe da troca de quartos entre Afonso e Segaert acabou por dar um lado quase cinematográfico à história.

Na véspera, tornaram-se companheiros de quarto. No dia seguinte, um reforçou a liderança e o outro venceu a etapa.

Como se o Giro tivesse decidido escrever um argumento demasiado perfeito para ser coincidência.

Seis segundos valiosos

Apesar da festa em torno da vitória de Segaert, Afonso também teve motivos importantes para sorrir.

O português conquistou seis segundos de bonificação no sprint intermédio e aumentou a diferença para os principais perseguidores da classificação geral.

Num Giro no qual cada segundo pode pesar como pedra nas montanhas finais, ganhar margem é mais do que um simples detalhe estatístico.

“Acabei por conseguir seis segundos de bonificação; os outros ciclistas não estavam interessados. Fui buscá-los. Foi mais um dia salvo com a camisola”, explicou.

A frase diz muito sobre a forma como o português está a correr esta Volta a Itália: atento a tudo, concentrado nos pequenos ganhos e sempre preparado para aproveitar qualquer distração dos adversários.

Há líderes que tentam esmagar rivais com ataques explosivos. O português parece preferir outro caminho — construir vantagem grão a grão, quase sem fazer barulho.

Corrida endureceu

Apesar de a etapa não apresentar grandes dificuldades montanhosas, o ritmo elevado acabou por transformar o dia numa batalha exigente.

“Foi um dia mais ou menos tranquilo de início; depois, a Movistar endureceu bastante a corrida na subida. Acabou por ser uma etapa bastante rápida e dura na parte final, com uma descida técnica muito rápida”, descreveu o camisola rosa.

O desgaste acumulou-se especialmente na fase final, quando o pelotão entrou numa sequência nervosa de ataques, mudanças de ritmo e descidas perigosas.

Foi precisamente nesse ambiente mais caótico que Segaert encontrou espaço para surpreender.

No ciclismo moderno, muitas vezes vence quem consegue ler melhor os segundos de hesitação dos outros.

Vingegaard continua perto

Apesar do reforço da liderança, Eulálio sabe que o Giro continua longe de estar decidido.

Jonas Vingegaard permanece como o grande favorito à vitória final e está agora a 33 segundos do português. Já Thymen Arensman segue na terceira posição, a 2.03 minutos.

As grandes montanhas ainda esperam pelo pelotão e qualquer etapa pode mudar completamente o desenho da classificação geral.

Mas há algo que começa a mudar dentro da corrida: a perceção dos adversários.

Afonso deixou de ser apenas uma surpresa agradável. Agora é tratado como verdadeiro candidato.

E isso altera completamente a pressão dentro do pelotão.

Rosa portuguesa

A ligação de Portugal à maglia rosa continua também a ganhar novos capítulos.

Afonso Eulálio assumiu a liderança após a quinta etapa e já é o segundo português com mais dias na liderança do Giro, apenas atrás de João Almeida, que passou 15 dias no topo da classificação em 2020.

Além disso, Portugal passou a deter o recorde de maior número de dias com a camisola rosa sem conquistar a classificação geral da prova.

Ao todo, os portugueses somam agora 24 dias de liderança no Giro: 15 de João Almeida, sete de Afonso Eulálio e dois de Acácio da Silva em 1989.

É uma estatística curiosa, quase contraditória. Como estar constantemente à porta da história sem ainda conseguir entrar completamente.

Mas este Giro continua aberto.

E enquanto Afonso seguir vestido de rosa, Portugal continuará a sonhar.

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