Afonso Eulálio: “Vou perder a camisola rosa no contrarrelógio”
🖋️Por: António Vieira Pacheco
📸 Créditos: Direitos Reservados
⏱️ Tempo de leitura: 3 minutos
![]() |
| Afonso Eulálio sonha com o top 10 no Giro. |
“Não acredito que consiga mantê-la”
Afonso Eulálio já olha de frente para
o contrarrelógio que pode mudar o rumo da Volta a Itália. Sem esconder a
realidade, o português assumiu que dificilmente continuará de rosa após a 10.ª
etapa do Giro.
“Não acredito que a mantenha”,
confessou, diretamente, quando questionado sobre a possibilidade de defender a
liderança frente a Jonas Vingegaard. Ainda assim, o ciclista da Bahrain
Victorious promete lutar até ao limite: “Gostava de defendê-la e vou lutar
por isso”.
A sinceridade de Eulálio acaba por
tornar o momento ainda mais forte. O português sabe que está prestes a entrar
num terreno quase hostil às suas características. O contrarrelógio surge
como uma longa reta contra o vento, uma estrada onde os ciclistas leves parecem
carregar pedras invisíveis nas pernas.
“O Jonas é excelente, um dos
melhores corredores do mundo”, admitiu, antes de reconhecer que as suas
hipóteses no “crono” são mínimas: “Dois, três numa escala até 10”.
O pior cenário possível
O líder do Giro não esconde que o
traçado da 10.ª etapa é praticamente desenhado para os especialistas com potência pura.
“Este contrarrelógio é plano, velocidade máxima. É o pior contrarrelógio para ciclistas leves”,
explicou.
Eulálio parte para a etapa com 2,24
minutos de vantagem sobre Vingegaard, mas percebe que esse tempo pode desaparecer num ápice. O dinamarquês entra como favorito absoluto num dia em que a velocidade constante cai sobre os rivais como um martelo incessante.
“É um contrarrelógio que é mesmo
zero para mim. É sofrer”, resumiu.
De gregário a líder inesperado
Há poucas semanas, o cenário era
completamente diferente. Eulálio chegou ao Giro com um papel secundário na
equipa e sem qualquer expectativa de discutir a geral.
“Há um mês, o meu plano era
encarar o contrarrelógio como um dia de descanso”, revelou.
Agora, tudo mudou. A camisola rosa
transformou a dimensão da corrida e também a responsabilidade do português. “Vim
para o Giro como um homem de trabalho, um gregário. Ia ter as minhas
oportunidades nas montanhas, e agora as coisas mudaram um pouco”, admitiu.
Essa mudança acabou por empurrá-lo
para um território novo — fisicamente e mentalmente. O jovem corredor natural da
Figueira da Foz passou de apoio silencioso a rosto principal da corrida.
O sonho continua vivo
Mesmo acreditando que perderá a
liderança, Eulálio se recusa a desistir de sonhar.
“O que gostaria era de fechar no
top-10 e ganhar uma etapa”, confessou.
A frase resume bem o estado atual do
português: realista perante as dificuldades, mas ainda alimentado pela ambição.
Porque no Giro, às vezes, sobreviver já é uma vitória. Eulálio quer mais do que
sobreviver.
No entanto, admite que ainda não sabe
como reagirá emocionalmente ao momento em que deixar de vestir rosa. “Quando
vesti a camisola rosa, ganhei força, mas não sei o que vai acontecer quando a
perder”, reconheceu.
Contas ajustadas com o Giro
Depois de abandonar a Volta a Itália
do ano passado a apenas dois dias do fim, Eulálio sente que esta edição já lhe
devolveu algo importante.
“Agora, penso que só falta mesmo
terminar”, afirmou.
A decisão de regressar ao Giro, em vez
de apostar no Tour, acabou por revelar-se certeira. “Deixei as contas em
aberto no ano passado. E fizemos bastante bem em regressar”, defendeu.
A corrida italiana tornou-se quase
uma dívida emocional para o português e
esta edição parece estar a pagar tudo com juros inesperados.
O português que aprendeu a gostar do caos
Foi na quinta etapa, após integrar a fuga do dia, que Eulálio vestiu a camisola rosa pela primeira vez.
Desde então, tornou-se o segundo português com mais dias na liderança do Giro,
atrás apenas de João Almeida.
O próprio admite que os dias mais
duros parecem despertar nele algo especial.
“Sofro, mas realmente gosto destes
dias, molhados, de sobe e desce”, contou.
A frase encaixa perfeitamente no
perfil que tem demonstrado nesta corrida: um corredor que cresce no desgaste, como
quem encontra conforto no caos.
Ainda assim, reconhece que lhe falta
experiência para gerir esforços ao nível dos grandes nomes da geral. E talvez
seja exatamente essa mistura de irreverência e resistência que continua a
torná-lo uma das grandes histórias deste Giro.
Duas semanas para descobrir até onde consegue ir
Apesar das dúvidas sobre o
contrarrelógio, Eulálio acredita que poderá manter-se competitivo até Roma.
“Faltam duas semanas, não sei o
que posso fazer”, proferiu.
A última semana promete ser brutal,
especialmente nas grandes montanhas, mas o português mantém confiança na
Bahrain Victorious. “Temos uma boa equipa, que está a trabalhar muito bem”,
concluiu.
O rosa pode desaparecer. O sonho,
esse, continua vivo.
Artigo Relacionado
Afonso Eulálio: “Não acredito no que estou a viver”

Comentários
Enviar um comentário
Críticas construtivas e envio de notícias.