Afonso Eulálio: “Vou perder a camisola rosa no contrarrelógio”

 🖋️Por: António Vieira Pacheco

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Afonso Eulálio está ciente que perderá a liderança do Giro no contrarrelógio.
Afonso Eulálio sonha com o top 10 no Giro.

“Não acredito que consiga mantê-la”

Afonso Eulálio já olha de frente para o contrarrelógio que pode mudar o rumo da Volta a Itália. Sem esconder a realidade, o português assumiu que dificilmente continuará de rosa após a 10.ª etapa do Giro.

Não acredito que a mantenha”, confessou, diretamente, quando questionado sobre a possibilidade de defender a liderança frente a Jonas Vingegaard. Ainda assim, o ciclista da Bahrain Victorious promete lutar até ao limite: “Gostava de defendê-la e vou lutar por isso”.

A sinceridade de Eulálio acaba por tornar o momento ainda mais forte. O português sabe que está prestes a entrar num terreno quase hostil às suas características. O contrarrelógio surge como uma longa reta contra o vento, uma estrada onde os ciclistas leves parecem carregar pedras invisíveis nas pernas.

O Jonas é excelente, um dos melhores corredores do mundo”, admitiu, antes de reconhecer que as suas hipóteses no “crono” são mínimas: “Dois, três numa escala até 10”.

O pior cenário possível

O líder do Giro não esconde que o traçado da 10.ª etapa é praticamente desenhado para os especialistas com potência pura.

Este contrarrelógio é plano, velocidade máxima. É o pior contrarrelógio para ciclistas leves”, explicou.

Eulálio parte para a etapa com 2,24 minutos de vantagem sobre Vingegaard, mas percebe que esse tempo pode desaparecer num ápice. O dinamarquês entra como favorito absoluto num dia em que a velocidade constante cai sobre os rivais como um martelo incessante.

É um contrarrelógio que é mesmo zero para mim. É sofrer”, resumiu.

De gregário a líder inesperado

Há poucas semanas, o cenário era completamente diferente. Eulálio chegou ao Giro com um papel secundário na equipa e sem qualquer expectativa de discutir a geral.

Há um mês, o meu plano era encarar o contrarrelógio como um dia de descanso”, revelou.

Agora, tudo mudou. A camisola rosa transformou a dimensão da corrida e também a responsabilidade do português. “Vim para o Giro como um homem de trabalho, um gregário. Ia ter as minhas oportunidades nas montanhas, e agora as coisas mudaram um pouco”, admitiu.

Essa mudança acabou por empurrá-lo para um território novo — fisicamente e mentalmente. O jovem corredor natural da Figueira da Foz passou de apoio silencioso a rosto principal da corrida.

O sonho continua vivo

Mesmo acreditando que perderá a liderança, Eulálio se recusa a desistir de sonhar.

O que gostaria era de fechar no top-10 e ganhar uma etapa”, confessou.

A frase resume bem o estado atual do português: realista perante as dificuldades, mas ainda alimentado pela ambição. Porque no Giro, às vezes, sobreviver já é uma vitória. Eulálio quer mais do que sobreviver.

No entanto, admite que ainda não sabe como reagirá emocionalmente ao momento em que deixar de vestir rosa. “Quando vesti a camisola rosa, ganhei força, mas não sei o que vai acontecer quando a perder”, reconheceu.

Contas ajustadas com o Giro

Depois de abandonar a Volta a Itália do ano passado a apenas dois dias do fim, Eulálio sente que esta edição já lhe devolveu algo importante.

Agora, penso que só falta mesmo terminar”, afirmou.

A decisão de regressar ao Giro, em vez de apostar no Tour, acabou por revelar-se certeira. “Deixei as contas em aberto no ano passado. E fizemos bastante bem em regressar”, defendeu.

A corrida italiana tornou-se quase uma dívida emocional para o português  e esta edição parece estar a pagar tudo com juros inesperados.

O português que aprendeu a gostar do caos

Foi na quinta etapa, após integrar a fuga do dia, que Eulálio vestiu a camisola rosa pela primeira vez. Desde então, tornou-se o segundo português com mais dias na liderança do Giro, atrás apenas de João Almeida.

O próprio admite que os dias mais duros parecem despertar nele algo especial.

Sofro, mas realmente gosto destes dias, molhados, de sobe e desce”, contou.

A frase encaixa perfeitamente no perfil que tem demonstrado nesta corrida: um corredor que cresce no desgaste, como quem encontra conforto no caos.

Ainda assim, reconhece que lhe falta experiência para gerir esforços ao nível dos grandes nomes da geral. E talvez seja exatamente essa mistura de irreverência e resistência que continua a torná-lo uma das grandes histórias deste Giro.

Duas semanas para descobrir até onde consegue ir

Apesar das dúvidas sobre o contrarrelógio, Eulálio acredita que poderá manter-se competitivo até Roma.

Faltam duas semanas, não sei o que posso fazer”, proferiu.

A última semana promete ser brutal, especialmente nas grandes montanhas, mas o português mantém confiança na Bahrain Victorious. “Temos uma boa equipa, que está a trabalhar muito bem”, concluiu.

O rosa pode desaparecer. O sonho, esse, continua vivo.

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