🖋️Por: António Vieira Pacheco
📸 Créditos: ATP Tour/Direitos Reservados
⏱️ Tempo de leitura: 4 minutos
![]() |
| É neste lugar que muitos tenistas entraram para a história do Australian Open. |
Territórios sagrados
Há courts que são mais do que
superfícies de jogo. São espaços onde o ténis se transforma em memória,
identidade e herança cultural. Nos quatro torneios do Grand Slam, os courts
centrais representam muito mais do que finais e troféus. Representam escolhas
simbólicas, visões do desporto e formas distintas de olhar para a história.
Cada um destes palcos conta uma
narrativa própria. Algumas celebram feitos irrepetíveis, outras honram líderes
silenciosos, outras ainda preferem deixar que a tradição fale sozinha. Juntas,
estas histórias ajudam a compreender a alma do ténis.
Lenda australiana
A Rod Laver Arena, em Melbourne,
carrega o nome de uma figura única na história do desporto. Rod Laver não foi
apenas um campeão. Foi um fenómeno. O australiano conquistou os quatro torneios do Grand Slam no mesmo ano, em 1962, e voltou a fazê-lo em 1969.
A decisão de dar o seu nome ao
principal court do Australian Open é um ato de reconhecimento absoluto. A decisão de dar o seu nome ao principal court do Australian Open é um ato de reconhecimento absoluto. Cada jogador que entra naquele recinto compete num espaço marcado por feitos históricos.
Ali disputam-se finais modernas sob a
sombra de uma história quase mítica. A Rod Laver Arena funciona como um
lembrete permanente de que a excelência extrema não é apenas um conceito
abstrato — já foi realidade.
![]() |
| Rafael Nadal venceu neste lugar sagrado inúmeras edições de Roland Garros. |
|
Em Paris, o principal palco de Roland
Garros chama-se Court Philippe Chatrier. Para muitos, o nome não evoca
imediatamente uma raquete ou um grande ponto. E é precisamente isso que o torna
especial. Philippe Chatrier foi dirigente,
estratega e uma das figuras mais influentes na transformação do ténis no século
XX. Presidiu à Federação Francesa de Ténis e, mais tarde, à Federação
Internacional. Foi um defensor incansável da profissionalização do desporto e
desempenhou um papel decisivo no regresso do ténis aos Jogos Olímpicos,
concretizado, em 1988, em Seul. Dar o seu nome ao court central de Roland Garros é reconhecer que o ténis não
se constrói apenas com campeões. Constrói-se também com visão, persistência e
capacidade de pensar o futuro. Na terra batida parisiense, onde a paciência e a
estratégia são essenciais, a homenagem ganhou um simbolismo particular. |
Wimbledon segue um caminho singular.
O seu principal palco não homenageia ninguém em particular. Chama-se
simplesmente Centre Court. Não é um vazio. É uma afirmação.
Para os britânicos, Wimbledon é maior
do que qualquer nome próprio. O campo Central — ou Court Central — é um templo
onde a tradição prevalece sobre a personalização. Ali jogaram algumas das
principais figuras da história do ténis, mas nenhuma recebeu esse
reconhecimento formal.
O respeito está nos rituais: o
vestuário branco, o silêncio atento do público, a relva meticulosamente
cuidada. O Centre Court não precisa de um nome para ser eterno. Ele representa
continuidade, sobriedade e uma visão do desporto que coloca o jogo acima dos
indivíduos.
![]() |
| O maior palco dos quatro Grand Slam. |
Coragem americana
Em Nova Iorque, o maior court de
ténis do mundo tem um nome carregado de significado. O Arthur Ashe Stadium não
celebra apenas um campeão. Celebra-se um homem que utilizou o desporto para intervir na esfera social.
Arthur Ashe foi o primeiro tenista
negro a vencer um torneio do Grand Slam. Conquistou o US Open, Wimbledon, e o
Australian Open. Porém, a sua importância transcende os títulos. Ashe foi uma
voz ativa na luta pelos direitos civis, um opositor declarado do ‘apartheid’ e
um defensor da dignidade humana numa época de grande tensão social.
Mesmo após contrair HIV, falou
abertamente sobre a doença, ajudando a quebrar estigmas e a promover a
informação. Dar o seu nome ao principal palco do US Open é uma declaração
clara: o ténis também pode ser consciência.
Quatro identidades
Os quatro courts centrais dos Grand
Slam representam quatro formas de perceber o desporto. A Austrália homenageia o
feito supremo de um jogador. A França celebra a visão estratégica de um
dirigente. Os ingleses protegem a tradição acima de tudo. Os Estados Unidos
elevam os valores humanos por meio do ténis.
Cada escolha é coerente com a
identidade do torneio que representa. Nenhuma tenta imitar a outra. Juntas,
compõem um retrato completo do ténis enquanto fenómeno global e cultural.
Mais que um jogo
Quando um jogador entra num destes
palcos, entra também num diálogo com o passado. Cada ponto carrega história.
Cada aplauso ecoa memórias. Estes courts não são apenas locais de competição.
São espaços onde o ténis se explica a si próprio.
Os nomes — ou a ausência deles — não
são detalhes administrativos. São decisões que revelam valores. Entre lendas, visão, tradição e coragem, os Grand Slams revelam identidades distintas no interior do ténis. Nestes palcos, o ténis não se limita a ser
jogado.
É contado.
Artigos Relacionados




Comentários
Enviar um comentário
Críticas construtivas e envio de notícias.