Jaime Faria: “Não foi o meu melhor dia”
🖋️Por: António Vieira Pacheco
📸 Créditos: Federação Portuguesa de Ténis
⏱️ Tempo de leitura: 4 minutos
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| Canhão do Jamor saltou para fora de Wimbledon. |
Estreia entre sombras e promessas
A relva é um palco traiçoeiro. Brilha
ao sol de Londres, mas escorrega ao menor desequilíbrio interior. Jaime Faria
chegou a Wimbledon como um jovem que ousa sonhar — e, por isso mesmo, com o
coração à flor da pele. Estreava-se no quadro principal do mais tradicional
torneio do mundo, mas o dia não correu como desejava. Frente ao italiano
Lorenzo Sonego, o lisboeta de 21 anos caiu por 6-3, 6-4 e 6-2 numa manhã em que
nunca conseguiu soltar-se.
Na saída do All England Club, a
sensação era de peso. De frustração, mas também de aprendizagem.
“Não foi o meu melhor dia. Estive muito em baixo animicamente e não tive a
atitude adequada para enfrentar este jogo”, admitiu, em
declarações, ao Raquetc.
“Houve momentos em que acreditei, mas ele esteve muito bem e dominou os
pontos. O encontro define-se pela qualidade dele nesses momentos e pela minha
falta de reação.”
Sonego foi demasiado firme
Sonego, atual número 47 do ‘ranking’
ATP, nem precisou de atingir o auge do seu ténis para fechar o encontro em
menos de duas horas. O italiano foi cirúrgico, eficaz, imune à pressão. Do
outro lado, Faria mostrava um corpo preso, a mente acelerada e um comportamento
pouco habitual.
“Estava pouco proativo, à espera do
que vinha do outro lado em vez de tentar comandar”, reconheceu o português, com uma
honestidade desarmante.
Num dia cinzento dentro de si, o
lisboeta somou 32 erros não forçados, muitos deles em situações controladas. A
agressividade habitual, a energia contagiante, a presença firme em campo — tudo
isso pareceu ter ficado no balneário.
A energia que faltou no momento certo
“Normalmente sou um jogador com boa energia, mas hoje não senti que tivesse essa boa energia. Estava apático e muito nervoso. Queria muito estar aqui e, por um lado, estou feliz por jogar, mas por outro estive demasiado nervoso, pensei demasiado, fiz pouco e estive muito queixoso.”
Na voz, ouvia-se o misto de orgulho e arrependimento. Ter chegado até ali, passando por três rondas do qualifying, foi uma conquista. Mas como saiu deixou-lhe um sabor amargo. Pedro Sousa, treinador e presença constante no Centro de Alto Rendimento da FPT, acompanhou-o em Londres. Mas nem a proximidade de alguém de confiança conseguiu quebrar o ciclo mental em que Faria se enredou.
“O ‘feedback’ do Pedro era bom, mas eu estava tão ‘cego’ e tão no meu mundo que nem conseguia reagir.”
Corpo em esforço, cabeça em ruído
Faria não escondeu que a sua condição física continua a oscilar. Lesões no pé esquerdo, no braço direito e nas costas marcaram a temporada e impediram-no de competir em pleno durante várias semanas.
“Não tem sido um ano fácil nesse aspeto. Por um lado, está a ser o melhor ano da minha carreira, por outro tenho muito a melhorar.”
Os sinais de desgaste acumulado não são novidades — já em Roland Garros, semanas antes, Faria falara numa pausa. Não
a fez. Preferiu continuar, insistir e tentar. E em Wimbledon, apesar da derrota,
colheu o fruto de uma adaptação bem-sucedida à relva durante a fase de
qualificação.
“Tenho uma equipa ótima e agora é
continuar”
Apesar de tudo, o discurso não é
derrotista. O que se ouve é maturidade em formação. A experiência londrina,
ainda que dura, será uma pedra a mais no alicerce da sua carreira.
“Tinha realmente falado disso em
Paris, mas acabei por continuar e a minha vinda para a relva foi ótima.
Adaptei-me muito bem às condições, ganhei uns quantos encontros e consegui
mascarar um bocadinho essa fase. Agora tenho de continuar.”
Jaime Faria participou este ano nos
quadros principais do Australian Open, de Roland Garros e agora em Wimbledon —
sempre vindo do qualifying. É um percurso de regularidade e persistência que
poucos tenistas portugueses conseguiram. O sonho agora é um: fechar o ciclo nos
quatro maiores torneios do mundo com presença também no US Open.
“Já joguei três quadros principais de torneios do Grand Slam e este ano quero jogar o quarto. Só não sei se faz sentido ir a Trieste, porque é já na próxima semana e em terra batida, mas depois tenho os dois ATP 250 antes de viajar para os Estados Unidos.”
Um adeus temporário, com promessa de regresso
Se Wimbledon foi um capítulo
frustrante, Nova Iorque poderá ser a página da viragem. E Faria sabe que
tem tempo. É jovem, talentoso, bem orientado — e, acima de tudo, genuíno nas
derrotas como nas vitórias. Ainda que a raquete pese, ainda que os pensamentos
toldem a visão, a vontade de regressar mais forte está intacta.

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