Destaque do Universo do Ciclismo e dos Desportos de Raquetes
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No Gerês, os ciclistas vão pedalar… ou solicitar licença à Mata para respirar?
Vieira do
Minho–Gerês é a etapa da Volta a Portugal que levou ambientalistas a levantar o
sobrolho. Após Rui Oliveira parar para cumprimentar Pepe na Serra da Estrela,
falta saber se, no Gerês, alguém vai parar para mandar um “fax” à natureza.
Chegou o dia.
Após tanta polémica,
comunicados, protestos, alertas, pareceres, preocupações e previsões sobre o
apocalipse ambiental, a Volta a Portugal chega finalmente à etapa que já ganhou
uma classificação própria:
— A etapa que não devia
existir.
Vieira do Minho–Gerês.
A 7.ª etapa está marcada para
esta quinta-feira, 13 de agosto, e atravessa o Parque Nacional da Peneda-Gerês,
incluindo a tão discutida Mata de Albergaria.
A Quercus já veio dizer que a
Mata “não é lugar” para a passagem da Volta e considera a autorização do ICNF
um “grave precedente”. Outras organizações ambientais também haviam
manifestado preocupação com o percurso.
Portanto, a partir daqui, só
falta mesmo uma coisa:
— Que o pelotão pedale ao som de bicos de pé.
Cuidado com o chão, rapazes!
Durante semanas discutiu-se o
impacto de levar uma corrida de bicicletas ao coração do Gerês.
E atenção: não falamos de um
festival de música com milhares de pessoas a saltar ao mesmo tempo, nem de uma
concentração de automóveis a fazer rali pela Mata.
São bicicletas.
Mas não são apenas bicicletas.
Há equipas, carros, motos,
organização, polícia, assistência, televisão e toda uma caravana que acompanha
a corrida.
É precisamente isso que
preocupa os ambientalistas.
O ICNF, entretanto, impôs
fortes condicionantes: sem público nos setores mais sensíveis, limitação dos
veículos de apoio e exclusão de meios aéreos e de amplificação sonora.
Ou seja, os ciclistas podem
passar.
No entanto, convém não fazer muito
barulho.
Nem respirar demasiado alto.
E se alguém precisar de…
É aqui que a coisa começa a
ficar interessante.
Rui Oliveira protagonizou, na Serra da Estrela, um daqueles momentos que o ciclismo português
adora: parar para cumprimentar Pepe, o antigo capitão da Seleção
Nacional de futebol, que acompanhava a Volta.
No Gerês, a dúvida é outra.
Será que alguém vai parar no
meio da Mata de Albergaria para mandar um fax ou continua tudo sujo?
Porque aí sim, meus amigos,
temos um problema de interesse nacional.
O ciclista pode furar.
Pode cair.
Pode até perder a corrida.
Mas se alguém se lembrar de
deixar um presente biológico no meio do Parque Nacional, preparem-se.
O pelotão passa a suspeito
número um.
E provavelmente haverá uma
comissão para estudar a pegada ambiental do assunto.
A Mata vai sobreviver ao
ataque das bicicletas?
A pergunta é obviamente
irónica.
A polémica não é inventada.
A Mata de Albergaria é uma das
zonas mais sensíveis do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Porém, a Quercus insiste no argumento de que havia alternativas; deveria prevalecer a proteção da área. A
associação também questiona a ausência pública da avaliação da capacidade
de carga e dos efeitos cumulativos da visitação.
É uma preocupação legítima.
Mas também seria interessante
conseguirmos distinguir entre proteger a natureza e imaginar
que cada bicicleta que entra numa área protegida é o equivalente ecológico de
um bulldozer.
Porque, se assim for, temos
uma solução simples.
Proibimos bicicletas.
Depois os carros.
Seguidamente os turistas.
Finalmente, as pessoas.
E, por precaução, talvez seja
melhor ninguém ter um suspiro.
A Volta não vai ao Gerês para o destruir
A etapa foi desenhada para
mostrar precisamente uma das zonas mais espetaculares do país.
O percurso parte de Vieira do
Minho, passa pela zona da Caniçada, entra no universo do Gerês e tem ainda uma
incursão em território espanhol junto à fronteira, antes de regressar à
região.
É uma etapa de montanha.
É uma etapa de ciclismo.
E é uma montra
turística.
Aqui está o paradoxo.
Queremos mostrar o Gerês ao
país.
Mas temos medo de revelar o
Gerês ao país.
Queremos turismo.
Mas não demasiado.
Queremos ciclismo.
Mas que não pise.
Queremos promover o
território.
Mas sem deixar marcas.
No fundo, a Volta descobriu
uma nova modalidade:
— ciclismo ambientalmente
invisível.
Pedalem, mas não deixem provas do crime
A organização e o ICNF
estabeleceram regras precisamente para minimizar os impactos.
Agora falta saber como correrá na prática.
E é aí que a etapa se torna
interessante.
Porque, depois de tanta
polémica, qualquer fotografia de um papel no chão poderá transformar-se numa
prova do crime.
Uma garrafa que caiu ao chão?
Escândalo.
Uma embalagem de gel?
Comunicado.
Uma folha arrancada pelo
vento?
Investigação.
Um ciclista a parar para…
enfim… resolver uma necessidade fisiológica?
Estado de emergência
ambiental e expulso da corrida.
E se aparecer um bidão perdido
no asfalto?
Preparem o relatório de 40 páginas.
No fim, ficam duas perguntas
A primeira é desportiva:
— Quem vai ganhar a etapa do Gerês?
A segunda é ambiental:
— O Gerês sobreviverá à passagem da Volta?
Esperemos que sim.
Porque se uma caravana de ciclismo devidamente condicionada não puder atravessar uma estrada já existente numa área protegida, então talvez a discussão seja muito maior do que a própria Volta a Portugal.
E se puder passar sem consequências relevantes, também convém dizê-lo.
Porque proteger a natureza é demasiado importante para ser transformado numa guerra entre bicicletas e ambientalistas.
Amanhã, portanto, há corrida.
Os ciclistas vão subir.
As bicicletas vão rolar.
Os carros vão acompanhar.
E a Mata de Albergaria continuará lá.
Só pedimos uma coisa ao pelotão:
— Se precisarem de enviar um fax, procurem primeiro uma casa de banho ou usem fraldas.
A Quercus agradece.
E a Mata também.
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