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Do zero ao ouro olímpico: o ciclismo português encontrou em Sangalhos uma fábrica de campeões
🖋️ António Vieira Pacheco · 📅 11 agosto 2026 · 📸 Direitos Reservados · ⏱️ 2 min · 🌱EMM
Iúri Leitão e Rui Oliveira fizeram história em Paris, mas Gabriel Mendes recusa vender sonhos para Los Angeles: “Não vamos prometer medalhas”
Há dias que ficam para a
história. E depois há aqueles que ficam para a história e ainda obrigam a ir
buscar a calculadora para perceber como tudo aconteceu.
10 de agosto de 2024, Paris.
Iúri Leitão e Rui Oliveira
conquistaram o primeiro ouro olímpico do ciclismo português, vencendo a corrida
de Madison após uma recuperação extraordinária que os levou a comandar as
últimas 50 das 200 voltas.
Um ano depois, a Volta a
Portugal fez questão de passar pela casa onde boa parte dessa história começou
a ser construída.
Sangalhos.
O Velódromo Nacional foi o
ponto de partida do contrarrelógio da quinta etapa e transformou-se, por
algumas horas, num palco de celebração de um projeto que já deixou de ser
promessa para ser realidade.
Por ali passaram Iúri Leitão,
Rui Oliveira, o selecionador Gabriel Mendes e até o primeiro-ministro Luís
Montenegro.
16 anos e 66 medalhas depois
Gabriel Mendes conhece a
história desde o princípio.
“O Velódromo Nacional foi
inaugurado em 2009; eu entrei na federação em 2010; portanto, passaram 16 anos
de trabalho contínuo. Fomos crescendo dentro daquilo que são as nossas
capacidades e chegar ao ouro olímpico não me surpreendeu. Chegámos a Paris já com
títulos mundiais e europeus.”
É uma declaração que diz muito
sobre o caminho percorrido.
Porque o ouro de Paris pode
ter parecido uma surpresa para quem só apareceu para assistir à festa. Para
quem esteve a construir o projeto desde 2010, foi apenas a consequência lógica
de anos de trabalho.
E os números não deixam muito
espaço para conversa.
Sessenta e seis medalhas da
Seleção Nacional nos últimos 13 anos, entre Jogos Olímpicos, Mundiais e
Europeus.
Portugal começou praticamente
do zero.
Acabou campeão olímpico.
“Gosto de ser rigoroso com os
dados, mas diria que somos um caso de estudo no contexto do ciclismo de pista,
tendo em conta o nosso ponto de partida e o percurso que fizemos nos últimos 16 anos”,
explica Gabriel Mendes.
Um “caso de estudo”.
Não é uma expressão pequena.
Sobretudo quando o estudo em
causa termina com uma medalha de ouro olímpica.
Los Angeles? Calma, que não há
medalhas por encomenda
A próxima paragem já está
definida.
Los Angeles 2028.
Mas Gabriel Mendes não vai
entrar na moda das promessas olímpicas.
“A qualificação para os Jogos
de Los Angeles 2028. Não vamos prometer medalhas, porque o nosso compromisso é com o trabalho, o empenho e a dedicação. Agora, é evidente que vamos querer dar o
melhor.”
É provavelmente a resposta
mais sensata.
Porque depois de Paris seria
fácil fazer contas, antecipar medalhas e começar a distribuir ouro antes sequer
dos Jogos começarem.
Mendes prefere outra coisa.
Trabalho.
Ainda bem.
Afinal, Paris mostrou que o trabalho pode levar Portugal a sítios nos quais décadas pareciam não ter autorização para entrar.
Iúri regressou à casa onde
preparou o ouro
Iúri Leitão está, neste
momento, sem competições, mas aproveitou a passagem da Volta por Anadia para
visitar os colegas e reencontrar Rui Oliveira.
E, naturalmente, regressou às
memórias de Paris.
“Aquele foi um dia
extremamente feliz, o ponto mais alto da minha carreira e da do Rui Oliveira.
Foi uma feliz coincidência estarmos todos aqui, na casa onde preparamos
tudo”, recordou o medalhista olímpico, que conquistou a prata no omnium.
A frase “na casa onde
preparamos tudo” talvez seja uma das melhores maneiras de explicar a importância
de Sangalhos.
O ouro foi entregue em Paris.
Mas não começou em Paris.
Começou muito antes, entre
treinos, preparação, trabalho e uma estrutura que foi crescendo longe dos
holofotes.
Iúri Leitão espera ainda que
aquele resultado tenha mudado a perceção sobre os atletas portugueses.
“Espero que tenha mudado a
maneira de algumas pessoas nos observarem, como aconteceu em outras modalidades com
campeões nos Jogos Olímpicos.”
Talvez tenha mudado mesmo.
Porque depois de Iúri e Rui,
já não é possível olhar para o ciclismo de pista português como uma modalidade
que apenas tenta chegar lá.
Já chegou.
O ouro ficou para trás. A
época ainda não
Rui Oliveira está na Volta a
Portugal.
Iúri Leitão está a construir
aquela que já é a melhor temporada de sempre na estrada.
São três vitórias, suficientes
para lhe garantirem um recorde de pontos no ranking mundial, sendo que uma
delas foi conquistada no Tour Qinghai, prova do escalão ProSeries.
Depois da Volta à Alemanha,
Iúri e Rui voltarão a juntar-se em Sangalhos.
O objetivo?
Campeonato do Mundo de pista,
em Xangai, entre 14 e 18 de outubro.
E este Mundial terá uma
importância adicional: contará para a qualificação para os Jogos Olímpicos
de Los Angeles.
Iúri Leitão sabe perfeitamente
que a pergunta seguinte seria inevitável.
Pode haver outro ouro?
A resposta vem sem rodeios.
“Isso é conversa de
jornalista. Medalhas de ouro todos queremos, mas só prometemos trabalho.”
E pronto.
Está explicado.
O jornalista pergunta pelo
ouro.
O campeão responde com
trabalho.
A máquina continua ligada
O mais curioso nesta história
é que o ouro olímpico não encerrou um ciclo.
Abriu outro.
Sangalhos continua a ser a
base. Paris já é memória. Xangai está à porta. Los Angeles começa a aparecer no
horizonte.
E pelo caminho continuam a
surgir nomes.
Iúri Leitão. Rui Oliveira. Ivo
Oliveira. E tantos outros atletas que cresceram dentro desta estrutura.
O ciclismo português de pista
já não precisa de pedir licença para entrar na conversa dos grandes.
Tem um campeão olímpico. Tem
medalhas. Tem uma estrutura. E tem um projeto.
Agora falta saber até onde
consegue levá-lo.
Mas há uma coisa que Gabriel
Mendes e Iúri Leitão parecem ter percebido bem:
Não vale a pena prometer ouro.
É muito mais divertido
conquistá-lo quando ninguém está a contar.
Volta a Portugal
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