Paul Seixas acelera nos Pirenéus e reforça a expectativa antes da estreia no Tour

 🖋️Por: António Vieira Pacheco

📸 Créditos: Direitos Reservados

⏱️ Tempo de leitura:  4 minutos

Após duas semanas em altitude na Sierra Nevada, Paul Seixas analisou a sexta etapa da Volta a França e deixou referências marcantes no Tourmalet.

Preparação com intenção

Não foi um simples treino de reconhecimento. Foi uma deslocação com um objetivo claro, inserida numa preparação meticulosa para a estreia mais aguardada do ciclismo francês em vários anos.

Após concluir um estágio de altitude de duas semanas na Sierra Nevada, Paul Seixas viajou diretamente para os Pirenéus para estudar ao detalhe a sexta etapa da Tour de France.

Aos 19 anos, o corredor da Decathlon AG2R La Mondiale Team passou o fim de semana a percorrer os principais pontos da jornada montanhosa entre Pau e Gavarnie-Gèdre, uma das etapas mais exigentes da primeira metade da corrida e potencialmente decisiva na luta pela classificação geral.

Num calendário já carregado e numa temporada em que tudo parece acontecer mais depressa do que o habitual, Seixas continua a preparar cada detalhe com uma maturidade que contrasta com a idade.

Dois dias de alta montanha

O bloco nos Pirenéus foi intenso.

No sábado, Seixas juntou-se aos colegas Nicolas Prodhomme e Matthew Riccitello para percorrer os últimos 100 quilómetros da sexta etapa. O grupo enfrentou duas das ascensões mais emblemáticas do ciclismo europeu: o Col d’Aspin e o Col du Tourmalet.

O Aspin surge com 12 quilómetros a 6,5% e o Tourmalet, pela vertente de Sainte-Marie-de-Campan, apresenta 17,1 quilómetros com inclinação média de 7,3%.

A sessão terminou com nova subida ao Tourmalet pelo lado oposto, transformando o treino num verdadeiro bloco específico de montanha.

No total: 136 quilómetros, cerca de 4200 metros de desnível acumulado e quase cinco horas de esforço contínuo.

No domingo houve continuidade.

Seixas e Prodhomme regressaram à estrada para uma segunda sessão orientada na resistência e na intensidade em altitude. O percurso teve cerca de 90 quilómetros e 2900 metros de desnível positivo, incluindo uma nova combinação entre Tourmalet e Gavarnie-Gèdre.

Foi ao longo desse segundo dia que surgiram os números mais reveladores.

O sinal deixado no Tourmalet

Os dados carregados por Seixas no Strava chamaram rapidamente a atenção no pelotão.

Na subida final de domingo, o jovem francês registou tempos melhores em vários segmentos conhecidos da ascensão, deixando indicadores impressionantes numa das montanhas mais simbólicas do calendário internacional.

Num segmento de 10,1 quilómetros com inclinação média de 6,9%, completou a subida em 25 minutos e 25 segundos, com uma velocidade média próxima de 24 km/h.

O registo melhora em 35 segundos a anterior referência estabelecida por Lenny Martinez durante a 14.ª etapa da Volta a França de 2025.

Noutra secção de 8,7 quilómetros a 6,5%, Seixas foi ainda mais impressionante, retirando mais de um minuto e meio ao melhor tempo anterior.

Naturalmente, qualquer comparação exige contexto.

Treino e competição obedecem a lógicas diferentes. O desgaste acumulado da corrida, o posicionamento no pelotão, a estratégia coletiva e a gestão de esforço condicionam totalmente o rendimento real num dia de Tour.

Ainda assim, a referência não deixa de ser significativa.

Sobretudo porque Martinez tinha feito esses tempos em contexto de corrida, integrado numa frente ofensiva com Thymen Arensman, Sepp Kuss e Ben Healy, antes de passar isolado no topo com a camisola da montanha.

Seixas conseguiu ir além desse registo em treino.

Mesmo com todas as reservas analíticas que o número exige, o sinal é difícil de ignorar.

Uma estreia cercada de expectativa

A estreia de Paul Seixas na Volta a França tornou-se um dos temas centrais do ciclismo francês ao longo desta temporada.

O corredor está prestes a tornar-se o mais jovem participante francês na corrida em quase nove décadas — um dado que ajuda a enquadrar a dimensão da expectativa que o rodeia.

Mas o entusiasmo não nasce apenas da idade.

Nasce sobretudo do rendimento.

A temporada de 2026 consolidou Seixas como um dos corredores mais explosivos e completos da nova geração. O francês venceu a Itzulia Basque Country, triunfou na La Flèche Wallonne e terminou em segundo na Liège–Bastogne–Liège, apenas atrás de Tadej Pogačar.

Os resultados alteraram a escala da conversa.

Já não se fala apenas de promessa.

Fala-se de impacto imediato.

O próximo teste competitivo

Antes de alinhar na Volta a França, Seixas ainda terá um teste decisivo.

O francês deverá competir no Critérium du Dauphiné — agora designado Tour Auvergne-Rhône-Alpes — que decorre entre 7 e 14 de junho.

A prova mantém o estatuto de principal ensaio competitivo antes do Tour. Funciona como referência direta para a avaliação da condição física, do ritmo competitivo e da resposta à montanha em contexto real.

No ano passado, Seixas terminou em oitavo lugar da classificação geral, a 8 minutos e 25 segundos do vencedor.

Este ano, a expectativa é diferente.

A preparação foi mais estruturada. A evolução física é evidente. E a forma apresentada desde o início da temporada aponta para objetivos superiores.

Para o ciclismo francês, o Dauphiné poderá oferecer a primeira leitura concreta sobre o que esperar do jovem talento em julho.

Um Tour com protagonistas bem definidos

A Volta a França de 2026 continua, naturalmente, dominada pelos nomes habituais.

Jonas Vingegaard chegará à corrida depois de conquistar o Giro d’Italia e voltará a competir apenas na Grand Boucle.

Tadej Pogačar, por sua vez, optou por não defender o título no Dauphiné. O esloveno prepara a corrida francesa no Tour de Suisse.

À volta destes nomes mantém-se o núcleo habitual de candidatos e os outsiders de luxo.

João Almeida, Isaac del Toro, Juan Ayuso e Oscar Onley fazem parte desse grupo.

Nesse contexto, Seixas surge num lugar curioso: demasiado forte para apenas  ser observador, demasiado jovem para lhe exigirem liderança absoluta.

Talvez seja precisamente isso que torna a sua presença tão imprevisível.

Um talento que já deixou de ser hipótese

No ciclismo profissional há momentos em que um corredor deixa de ser visto como futuro e passa a ser encarado como presente.

Seixas parece ter atravessado essa fronteira nos últimos meses.

A forma demonstrada nas clássicas, a capacidade de recuperação em montanha e os sinais deixados agora nos Pirenéus reforçam a perceção de que o francês chega ao Tour não apenas para aprender, mas para competir.

Ainda sem a pressão formal de lutar pela geral, mas já com rendimento suficiente para interferir na corrida.

Num pelotão cada vez mais controlado por números, potência e previsão, há atletas cuja evolução escapa à linearidade habitual.

Seixas parece ser um deles.

E o fim de semana passado no Tourmalet deixou precisamente essa impressão: não a de um jovem a descobrir a montanha, mas a de um corredor já preparado para enfrentar o mais alto nível.

A Volta à França ainda não começou.

Mas nos Pirenéus já ficou um sinal claro de que Paul Seixas pretende chegar a julho muito mais do que como estreante.

Leia também

👉 Afonso Eulálio: “Por mim ia até Roma de camisola rosa”



Faça de nós a sua fonte preferida no Google.

Mantenha-se atualizado com as últimas informações, entrevistas e análises detalhadas de ciclismo. Ao optar por “Entrar no Mundo das Modalidades” como a sua fonte preferencial, contribui para o nosso crescimento e assegura que tenha acesso a mais das nossas publicações no seu resumo de notícias.


G Siga-nos no Google

Comentários

Mensagens populares