Marcos Yamada, o homem que guardou o ténis de mesa em imagens
🖋️Por: António Vieira Pacheco
📸 Créditos: Direitos Reservados
⏱️ Tempo de leitura: 4 minutos
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| Marcos Yamada está presente no Mundial de ténis de mesa, em Londres. |
Marcos Yamada pertence à segunda
categoria.
O brasileiro, nascido há 68 anos, em São Paulo, continua a circular pelos corredores dos grandes torneios
internacionais com a mesma atenção de quem ainda procura o enquadramento
perfeito. Não o faz apenas como treinador, dirigente ou antigo atleta. Faz como
alguém que aprendeu a olhar para o ténis de mesa para além do resultado.
Durante décadas, Yamada fotografou o jogo por paixão como quem tenta preservar um idioma em risco de desaparecer.
Num desporto no qual quase tudo acontece em frações de segundo, ele dedicou a vida a congelar o invisível.
Muito antes da câmara
A história começa longe da
fotografia.
Filho de descendentes japoneses, o desporto fazia parte da identidade familiar. O
futebol apareceu primeiro. Chegou mesmo a realizar testes no Palmeiras,
alimentando um percurso que parecia natural para um jovem brasileiro da época.
Mas o destino desviou-se para uma
mesa azul.
O ténis de mesa surgiu inicialmente
como extensão da comunidade paulista, mas rapidamente se tornou algo
maior. Não apenas competição. Disciplina. Método. Estrutura.
Yamada mergulhou nesse universo como uma obsessão tranquila dos que aprendem depressa.
O atleta possível
Nunca foi apresentado ao mundo como o génio absoluto da modalidade. E talvez isso explique parte da sua permanência.
Foi heptacampeão paulista, bicampeão
brasileiro intercolonial e vice-campeão da América do Sul. Resultados
sólidos, respeitados, mas construídos num tempo em que o ténis de mesa
brasileiro sobrevivia muito mais pela paixão do que pela estrutura.
Enquanto competia, conciliava a
modalidade com os estudos, em Engenharia Elétrica, na Escola de Engenharia Mauá.
Durante anos, dividiu-se entre trabalho, viagens e torneios. Havia poucos apoios. Pouco dinheiro. Pouca visibilidade. No entanto, havia continuidade.
E é muitas vezes a continuidade — não
o brilho imediato — que constrói as figuras-chave do desporto.
O homem da margem
Com o tempo, Yamada percebeu algo
fundamental: talvez o seu maior impacto não estivesse no centro da mesa, mas à
volta dela.
Começou a treinar atletas ainda na
década de 1970. Passou por clubes históricos ligados à comunidade japonesa no
Brasil. Formou jogadores, orientou treinadores, organizou clínicas e ajudou a
espalhar a modalidade por um país continental.
Percorreu os 26 estados brasileiros e o Distrito Federal numa época em que viajar significava improvisar. Enquanto muitos procuravam o foco principal, Yamada trabalhava nas margens — e foi aí que construiu influência.
Há figuras no desporto que funcionam
como raízes: raramente aparecem, mas sustentam tudo o resto.
A câmara como memória
A fotografia surgiu quase
naturalmente. Primeiro como registo. Depois como linguagem.
Ao longo de mais de três décadas,
Yamada acompanhou Campeonatos do Mundo, Jogos Olímpicos, torneios continentais
e gerações inteiras de atletas. Tornou-se uma presença habitual nos bastidores do
ténis de mesa internacional, quase sempre com uma câmara ao ombro.
Mas o mais curioso é que nunca
fotografou apenas vencedores.
Fotografava expressões entre pontos.
Silêncios. Esperas. Mãos sobre a mesa. O instante depois do erro. O olhar antes
do serviço.
Enquanto o ténis de mesa acelerava,
ele procurava o detalhe que resistia ao tempo.
Como um pescador que conhece o rio
pelo som da corrente, Yamada aprendeu a reconhecer o jogo pelos pequenos
gestos.
Um arquivo humano
Num desporto de memória curta,
tornou-se um arquivo vivo.
Viu diferentes eras técnicas,
mudanças de material, alterações de velocidade, transformações táticas e o
crescimento da influência asiática no circuito internacional.
Assistiu ao domínio chinês
consolidar-se. Acompanhou o crescimento europeu. Viu o Brasil aproximar-se
lentamente do topo competitivo mundial.
E registou tudo.
As suas fotografias nunca foram
apenas imagens. Funcionam como fragmentos históricos de uma modalidade em contínua transformação.
O Brasil que mudou
Durante muitos anos, o ténis de mesa
brasileiro viveu distante do reconhecimento internacional.
Hoje, o cenário é diferente.
Atletas brasileiros competem entre os
melhores do mundo, a modalidade ganhou visibilidade mediática e o país passou a
integrar discussões relevantes no circuito internacional.
Yamada assistiu a essa transformação
de perto. Mais do que isso: ajudou a construí-la.
Não por discursos grandiosos,
mas por meio de um trabalho contínuo, quase artesanal, feito de viagens, treino,
observação e divulgação.
Há quem construa carreiras. Outros constroem ecossistemas.
O
encontro no Peru
Foi também o ténis de mesa que
acabaria por mudar a sua vida fora da competição.
Em 1983, durante um amistoso
internacional no Peru, Yamada assistiu a uma partida de voleibol quando
reparou numa jogadora do Nippon que se destacava pela qualidade técnica e
intensidade competitiva. Chamava-se Nanci Toshie Furusho, atleta que integraria
a Seleção Paulista.
O encontro transformou-se numa
relação duradoura. Marcos e Nanci casaram-se mais tarde e construíram uma
família profundamente ligada ao desporto.
Entre gerações
A ligação familiar reforçou ainda mais o seu peso no interior da modalidade.
É pai de Jessica Yamada, olímpica brasileira, e acompanhou, durante anos, o percurso competitivo da filha nos principais torneios internacionais. Ela jogou em Portugal na Ponta do Pargo.
Também se tornou sogro de Cazuo Matsumoto, outro nome importante do ténis de mesa sul-americano. Mas reduzir a sua história à dimensão familiar seria insuficiente.
A verdadeira herança de Yamada está espalhada por centenas de atletas, treinadores e dirigentes que cruzaram o seu caminho.
A
chegada da Butterfly
A sua ligação à Butterfly surgiu numa época em que o acesso a material especializado no Brasil era bastante limitado.
Até ao início da década de 1990, o Brasil ainda impunha restrições à importação de equipamentos desportivos. Na altura, uma empresa brasileira ligada ao setor têxtil
importava pequenas quantidades de material da marca japonesa, embora sem grande
expressão comercial.
Foi nesse contexto que Yamada foi
convidado a colaborar na divulgação da Butterfly junto da comunidade do ténis
de mesa brasileiro. O envolvimento com a marca cresceu gradualmente, culminando na assunção da sua representação no Brasil. Esse trabalho contribuiu para ampliar a presença de um dos fabricantes mais prestigiados da modalidade no mercado brasileiro.
O cronista silencioso
Nos últimos anos, ganhou notoriedade por meio de relatos escritos sobre o circuito internacional.
Os seus blogues e textos sobre
campeonatos do mundo eram e são de leitura habitual entre praticantes
brasileiros. Não apenas pela informação. Mas pelo olhar.
Yamada escreve com a máquina fotográfica: atento
aos detalhes que normalmente escapam.
Enquanto muitos analisam apenas resultados, ele observa ambientes, comportamentos, rotinas e transformações invisíveis da modalidade.
O desporto moderno move-se depressa. Ídolos surgem e desaparecem. Os ciclos encurtam. A memória dissolve-se ao ritmo das redes sociais.
Marcos Yamada seguiu outro caminho. Permaneceu. E talvez seja precisamente isso que o torna relevante.
O valor do olhar
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| Marcos Yamada e o seu amigo Abílio Cruz. |
Ainda fotografa. Ainda escreve. Ainda
observa. Ainda vende material desportivo. Está em Londres em mais um Mundial.
Porque há pessoas que vivem o
desporto como competição.
E há outras que o vivem como
testemunho.
Yamada tornou-se uma espécie de
guardião informal da memória do ténis de mesa sul-americano — alguém que
compreendeu que o verdadeiro valor de uma modalidade não está apenas nos
títulos conquistados, mas nas histórias que consegue preservar.
E poucas pessoas preservaram tantas
como ele.


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