Velejador Eduardo Marques entre a dor e o regresso
🖋️Por: António Vieira Pacheco
📸 Créditos: Word Sailing
⏱️ Tempo de leitura: 3 minutos
![]() |
| Português quando estava em competição. |
Queda abrupta
O velejador português Eduardo Marques ainda vive sob o signo da incerteza. Meses após um acidente grave que
interrompeu o seu percurso desportivo, o atleta procura perceber, dia após dia,
se conseguirá regressar ao nível que o levou aos Jogos Olímpicos de Paris 2024.
A colisão ocorreu pouco mais de um
mês após a competição olímpica, na qual terminou em 11.º lugar na classe ILCA
7. Durante um treino para um half ironman, foi surpreendido por uma caravana que seguia em excesso de velocidade e travou abruptamente à sua frente.
“Bati com a roda, com a cabeça e com as costas. Foi direto”, recorda.
Corpo devastado
O impacto deixou marcas profundas. O
atleta fraturou três vértebras — uma delas por completo —, 12 costelas, o
esterno, a clavícula e uma cervical, além de ter sofrido uma perfuração
pulmonar.
Os médicos não deixaram dúvidas quanto à gravidade do acidente.
Segundo Marques, vários especialistas reconheceram que, sem a condição física de um atleta de alto rendimento, o acidente poderia ter sido fatal ou deixá-lo paraplégico. Os músculos das costas contraíram-se no impacto, protegendo a medula e evitando sequelas irreversíveis.
A lenta reconquista
Os primeiros dias foram dominados
pela dor e pela dependência absoluta.
“Sou muito independente e, de
repente, sou zero”,
recorda. Durante esse período, precisou de ajuda para as tarefas mais
elementares, desde tomar banho e alimentar-se até simplesmente deslocar-se.
A recuperação passou a ser feita por
meio de pequenas conquistas diárias.
Vestir as próprias calças, calçar as meias ou dar alguns passos voltaram a ser conquistas elementares — pequenos triunfos que assinalavam a lenta reconstrução física e emocional.
Recuperar sem pressa
Durante todo o processo, Marques garante que nunca se deteve a ponderar se a carreira tinha chegado ao fim.
Preferiu concentrar-se no presente.
Ainda contra algumas recomendações
médicas, começou a praticar exercícios ligeiros logo nas primeiras semanas,
incluindo movimentos de natação em águas pouco profundas.
Esse contacto progressivo com o
movimento, acredita, foi determinante para acelerar a recuperação.
O regresso cauteloso
O primeiro regresso à água ocorreu em janeiro de 2025, mas cedo percebeu que o corpo ainda não estava pronto para suportar essa exigência. A perda de massa muscular — cerca de oito quilos em duas semanas — e a fragilidade óssea obrigaram a travar o entusiasmo. O regresso a um treino verdadeiramente estruturado só se concretizaria vários meses depois.
Seis meses após o acidente voltou à
competição, resistindo a três dias de regata antes de uma nova pausa para
consolidar a recuperação.
Limites do corpo
Mesmo agora, o velejador reconhece
que o corpo impõe limites claros.
Sessões de vela e ginásio no mesmo
dia são possíveis apenas com intensidade mínima. A gestão do esforço tornou-se
uma equação delicada.
No Troféu Princesa Sofia, em Palma de
Maiorca, optou por disputar apenas as regatas que o corpo permitiu, após
jornadas particularmente exigentes em que os atletas passaram várias horas
consecutivas na água.
A dor, descreve, surge como uma
“beliscada” persistente que o obriga a moderar o ritmo.
Futuro em aberto
Aos 32 anos, o lisboeta evita
projetar cenários de longo prazo, incluindo uma eventual participação nos Jogos
Olímpicos de Los Angeles 2028.
A prioridade passa por perceber se conseguirá regressar ao nível competitivo que considera mínimo para continuar.
“Se sentir que não consigo ter o
mesmo nível, acho que não vale a pena”, admite.
Entre paixão e realidade
Para Marques, competir ao mais alto
nível exige sacrifícios que só fazem sentido quando sustentados pela ambição de
melhorar.
A vela ocupa grande parte da sua
vida, afastando-o frequentemente da família, dos amigos e de momentos pessoais
importantes.
“Falhamos aniversários, datas
importantes… tudo por paixão.”
Mas essa paixão convive hoje com uma
consciência pragmática: o desporto raramente garante estabilidade financeira.
Num país onde o custo de vida continua a subir, o velejador reconhece que permanecer no alto rendimento exige encontrar caminhos paralelos.
Ainda assim, mantém uma serenidade
notável. Afinal, antes de regressar ao pódio, o maior desafio continua a ser o
mesmo: reconquistar plenamente o próprio corpo.

Comentários
Enviar um comentário
Críticas construtivas e envio de notícias.