Avançar para o conteúdo principal

Ao quarto match point, Matilde Jorge rompe o destino no Jamor

🖋️Por: António Vieira Pacheco

📸 Créditos: Federação Portuguesa de Ténis

⏱️ Tempo de leitura: 3 minutos

A festa de Matilde Jorge.
Matilde Jorge festeja exuberantemente o apuramento rumo às 'meias' no Jamor.

Quatro golpes de coragem

Matilde Jorge precisou de quatro match points para fechar a porta à italiana Lucrezia Stefanini, só na quarta oportunidade não tremeu. A portuguesa, de 21 anos, venceu por 2-6, 6-1 e 7-6 (6) e garantiu um lugar nas meias-finais do Women’s Indoor Oeiras Open, numa batalha de nervos e resistência.

O desfecho teve um peso simbólico. Stefanini vinha de duas rondas consecutivas resolvidas no limite, sempre com a italiana a escapar por entre as frestas da derrota. Frente a Angelina Voloshchuk, nos oitavos de final, salvou dois pontos de encontro antes de triunfar após 3h40 de jogo. Depois, diante de Viktorija Golubic, primeira cabeça de série, voltou a sobreviver a um match point adverso.

Desta vez, porém, o argumento inverteu-se.

Entre a espada e a parede

O encontro foi um vaivém emocional. Stefanini entrou mais assertiva, explorando os ângulos e as variações de ritmo para conquistar o primeiro set. Matilde reagiu com autoridade no segundo parcial, impondo agressividade e reduzindo o tempo de decisão da adversária.

No terceiro, a tensão acumulou-se ponto a ponto. O tie-break foi um território de risco permanente. A portuguesa esteve sob pressão, mas manteve lucidez. Criou oportunidades. Perdeu três. Persistiu. À quarta, selou.

Não houve explosão desmedida. Houve alívio. E consciência da dimensão do feito.

Quase dois anos depois de ter atingido, na terra batida do mesmo Complexo do Jamor, os primeiros quartos de final num WTA 125, Matilde foi mais além. Superou essa barreira e inscreveu o nome numa nova etapa competitiva.

São as primeiras meias-finais da carreira nesta categoria. E, pelo contexto e pelo significado, as mais relevantes até agora. O percurso confirma a evolução técnica e maturidade mental.

Mudança de estatuto

A jovem portuguesa demonstrou capacidade de resistir à adversidade e de contrariar uma jogadora habituada a sobreviver em cenários-limite. Desta vez, foi Matilde quem escreveu o final.

O triunfo representa mais do que uma vitória isolada. É afirmação. É crescimento. É sinal de que pode competir e vencer em patamares superiores.

Em Oeiras, sob o silêncio expectante da nave do Jamor, a vimaranense não apenas venceu. Reescreveu o desfecho. E abriu a porta a um novo capítulo no ténis feminino português.

Resiliência e nervo de aço

Perante uma jogadora que já integrou o top 100 mundial — foi 99.ª — e contra quem perdera o único duelo anterior, Matilde voltou a encontrar-se em território adverso. No terceiro set, esteve duas vezes em desvantagem de break. Não cedeu. Recuperou. Insistiu. Elevou o nível nos momentos de maior asfixia competitiva.

Foi uma vitória construída na resistência e na convicção. Uma das mais expressivas do seu percurso. Pela dimensão do palco. Pelo peso da adversária. Pelo dramatismo do enredo.

Após a viragem a meio da última partida, a vimaranense dispôs de quatro match points, repartidos em três instantes distintos: a servir a 5-3, no jogo imediatamente seguinte e já no tie-break, a 6-5. O braço acusou tensão. A oportunidade fugiu três vezes. Mas não a quarta.

Mesmo com o nervosismo à flor da pele, a número dois nacional manteve fidelidade ao seu plano. Procurou a iniciativa. Assumiu risco. Stefanini, jogadora de matriz paciente e resiliente, prolongava cada troca até ao limite. Obriga a jogar mais uma bola. E outra. Matilde respondeu com autoridade. Fechou com um winner paralelo de direita, definitivo. A agressividade transformou-se em catarse. O ponto final teve um peso simbólico.

Matilde ainda regressa ao court

Poucos minutos depois, regressa ao court para disputar as meias-finais de pares ao lado da irmã, Francisca Jorge, disciplina na qual persegue o terceiro título WTA 125.

Independentemente do desfecho nas duplas, o foco rapidamente se desloca para um desafio maior. Pelas 11 horas, terá pela frente a jovem prodígio Alina Korneeva. Um teste exigente. Um novo patamar competitivo. As meias-finais mais relevantes da sua carreira. E foi um momento de afirmação para o ténis feminino português.

Acompanhe o desempenho da vimaranense até ao final da competição. 

Leia também: Matilde Jorge brilha em azul no Jamor Próxima notícia: Biografia de Frederico Silva

Comentários

Mensagens populares deste blogue

André Carreiras: precisão e disciplina nas mesas e na vida

🖋️ Por:   António Vieira Pacheco 📸   Créditos:  Direitos Reservados ⏱️  Tempo de leitura: 5  minutos André tem um percurso exemplar nos estudos, conciliando com o desporto. Influência de Viana do Castelo e do mar André Carreiras, 20 anos, natural de Viana do Castelo, atleta de ténis de mesa, carrega consigo a harmonia que se encontra entre o mar e o vento da sua cidade natal. Desde cedo, a ligação com o oceano moldou o caráter e a forma de encarar desafios. O contacto diário com o mar transmitiu-lhe paciência, constância e resiliência. Essas qualidades mostraram-se essenciais tanto no desporto quanto nos estudos. “Viana do Castelo deu-me um certo equilíbrio entre humildade e ambição. É uma cidade calma, onde o trabalho conta mais do que o barulho. No ténis de mesa e nos estudos isso traduziu-se em disciplina e foco desde cedo”, sublinha.  Crescer junto ao oceano ajudou-o a compreender a importância da persistência. “O oceano ensina paciência, respeit...

Diogo Glória: “Não devemos tentar vencer o medo, mas usá-lo como alavanca”

  🖋️ Por:   António Vieira Pacheco 📸   Créditos:  Direitos Reservados/Federação Portuguesa de Badminton ⏱️  Tempo de leitura:  6   minutos Diogo Glória adora estar no recinto de jogo. O percurso até ao recinto Na véspera do Campeonato Nacional de Badminton absoluto, onde é um dos principais candidatos ao título,  Diogo Glória  recebeu o   Entrar no Mundo das Modalidades  para uma conversa sobre o jogo, a mente e os sonhos que o movem. Com somente 23 anos, o atleta natural de Peniche representa a equipa algarvia CHE Lagoense e concilia o desporto de alta competição com o curso de medicina. Entre raquetes, volantes e horas de treino — visíveis e invisíveis —, o jovem atleta partilha a sua visão sobre o jogo, a mente e os sonhos que o movem. Entrar no Mundo das Modalidades (EMM)   — Como o badminton entrou na sua vida — foi amor à primeira raquete ou uma paixão que cresceu com o tempo? Diogo ...

Telma Santos: A rainha do badminton

🖋️ Por:  António Vieira Pacheco 📸   Créditos:  Arquivo de Telma Santos  🎥   Créditos  RTP e João Boto ⏱️  Tempo de leitura:  6   minutos Telma Santos esteve presente em duas edições dos Jogos Olímpicos. No mosaico do desporto português, há nomes que brilham por resultados e outros por legado. Telma reúne ambos.  Natural de Peniche — cidade onde o mar molda a paisagem e o carácter — carrega no peito a força da sua terra.  Neste 42.º aniversário, o  Entrar no Mundo das Modalidades  presta-lhe homenagem com este retrato da sua jornada. Mais do que uma atleta, um símbolo Ela jogava, nós vibrávamos! Suor e boa disposição! Telma Santos continua a manter a forma. Quando jogava, o público vibrava com as suas jogadas, com suor e com boa disposição.  Ex-atleta olímpica, representou Portugal nos Jogos de Londres, em 2012, e Rio de Janeiro, em 2016.  Hoje, é selecionadora nacional, liderando com a mesma paixão...