Tiago Cação: “O ranking pesa menos e o processo pesa mais”
🖋️Por: António Vieira Pacheco
📸 Créditos: Federação Portuguesa de Ténis
⏱️ Tempo de leitura: 2 minutos
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| Tenista português procura ascender na hierarquia mundial. |
Entre os erros do passado e uma nova forma de estar no circuito, o tenista português reencontra sentido no jogo e no quotidiano competitivo.
Enquanto muitos olham para o
calendário em busca de resultados imediatos, há quem encare o regresso como um
exercício de reconstrução. Para Tiago Cação, voltar ao circuito não
significou apenas reaparecer nos quadros principais ou nas fases de
qualificação. Significou, acima de tudo, reaprender a estar no jogo.
Natural de Peniche, o antigo top 400
ATP vive hoje uma espécie de segunda vida como tenista profissional. A primeira
ficou marcada por ascensão, expectativas elevadas e oito finais ITF disputadas.
A segunda começou inesperadamente: primeiro com a decisão de parar, em 2022,
depois com um regresso que apanhou muitos de surpresa, cerca de três anos mais
tarde.
Uma pausa que mudou tudo
Quando decidiu afastar-se do circuito, Cação estava longe do melhor momento emocional da carreira. O ranking não refletia o esforço, a pandemia interrompeu ciclos e a pressão interna tornou-se excessiva.
“Na altura sentia que estar a 400 ou
500 era mau”, recorda. “Hoje percebo que não era assim tão mau. Não são muitos
os que lá chegam.”
Esse afastamento acabou por funcionar
como travão e como aprendizagem. O ténis deixou de ser uma obrigação diária e passou a
ser memória. Foi nesse intervalo que o português ganhou distância suficiente
para perceber o que queria manter e o que precisava mudar.
O regresso aos courts
Quando voltou à competição, fez-o sem
ruído, mas com impacto imediato. Em poucos meses, surgiram as meias-finais em
Idanha-a-Nova, um triunfo no ATP Challenger Tour, mais uns quartos de final e
outra presença nas meias-finais. Resultados que comprovaram que o jogo
continuava.
Ainda assim, 2026 não se iniciou como
desejava. No Indoor Oeiras Open 2, Cação saiu derrotado logo no primeiro
encontro, somando o quarto desaire em outros tantos jogos nesta temporada. Um
início duro, mas que não beliscou a confiança.
“Estou contente com o nível que
apresentei”,
explicou após o encontro. “Sobretudo nas trocas de fundo do campo. Senti-me
bem aí.”
O detalhe que faz a diferença
A leitura foi clara e objetiva. Para Cação, o problema não esteve na solidez de base, mas nos momentos que dão início aos pontos.
“O meu calcanhar de Aquiles está nos inícios de jogada”,
admitiu. “Tenho de trabalhar mais o serviço e a resposta.”
Não houve dramatização. Houve
diagnóstico. Um olhar técnico sobre o jogo, típico de quem está mais focado no
processo do que no resultado imediato.
Uma nova relação com o ranking
Sem metas rígidas para esta temporada — a primeira completa desde 2021 —, o português está com uma abordagem diferente.
“O objetivo principal é desfrutar do que estou a fazer. E estou a conseguir”,
sublinha. “Gosto de treinar, gosto de competir, gosto deste estilo de vida.”
Essa mudança de perspetiva não
elimina a ambição. Pelo contrário, enquadra-a. “Claro que isso traz pressão.
Quando treino bem, quero ganhar. Quero afirmar-me no circuito. Mas estou feliz
com estes primeiros meses.”
Com perto de 30 pontos somados desde o regresso, Cação sabe que há margem para crescer, sobretudo numa fase do ano em que não defende resultados. “Queria ter somado pontos aqui, mas sei que surgirão novas oportunidades. O calendário é longo e haverá muitos encontros para disputar.”
O plano imediato passa pelos torneios
ITF no sul do país, antecedidos por uma prova UTR no Algarve. Um contexto no qual tem sido feliz neste regresso e que considera essencial para ganhar ritmo
competitivo.
“Preciso de jogos”, admite. “É a jogar que melhoro.
Treino bem, mas quando chego à pressão do jogo, ainda duvido um pouco. Isso só
se corrige com a rodagem.”
Aprender com o passado
A maturidade atual tem raízes claras
nos últimos tempos da primeira carreira. “Não estava a conseguir desfrutar”,
recorda. “Não gostava de treinar nem de jogar. Sentia-me injustiçado.”
Hoje, a abordagem é outra. “Se
fosse agora, diria a mim próprio para aceitar estar a 500. A partir daí,
trabalhar para a frente.”
É essa filosofia que tenta aplicar
diariamente. “Agora estou a tentar que os maus pensamentos não fiquem muito
tempo comigo.”
O que fica
Mais do que vitórias ou derrotas
isoladas, este regresso tem sido sobre reencontro. Com o jogo, com a rotina e
com o prazer de competir. Cação não corre atrás do passado, mas também não o
ignora. Usa-o como referência, não como peso.
De energias renovadas, segue confiante para os próximos desafios do circuito masculino. Há contas antigas a ajustar, sim. Mas há, sobretudo, uma relação recuperada com a profissão. E enquanto essa relação se mantiver intacta, o caminho continua aberto.

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