🖋️Por: António Vieira Pacheco
📸 Créditos: ATP Tour
⏱️ Tempo de leitura: 3 minutos
Há vitórias que se contam em números e outras que se sentem na pele. A de Nuno Borges, em Auckland, pertence claramente a ambas. No resultado ficou o triunfo em três ‘sets’, sofrido, longo e decidido no detalhe. No jogo ficou algo mais subtil: a confirmação de um tenista que sabe adaptar-se, resistir e crescer quando o piso não oferece certezas e o corpo solicita equilíbrio constante.
O torneio neozelandês recebeu um
Borges atento às armadilhas do court. As condições escorregadias não
facilitaram trocas limpas nem deslocações seguras. Cada passo exigia cálculo,
cada apoio pedia confiança. Foi nesse cenário instável que o português
encontrou estabilidade competitiva, mesmo sem exibir o seu ténis mais vistoso.
A vitória frente ao argentino Tomás
Martín Etcheverry, 61.º do mundo, foi construída mais na gestão do que no
brilho imediato. Em Auckland, nem sempre ganha quem bate mais forte; muitas
vezes vence quem erra menos quando tudo parece fugir ao controlo.
Três ‘sets’, uma ideia
O encontro desenhou-se como uma
narrativa clássica de resistência. Borges fechou o primeiro ‘set’ por 7-5,
soube perder o segundo por 3-6 sem perder a bússola emocional e, no terceiro,
manteve-se presente até ao momento decisivo. O tie-break final não foi apenas
um detalhe estatístico; foi que a clareza mental superou a hesitação
física.
Duas horas e meia depois, o marcador
confirmava o que o jogo já tinha revelado: o português soube sofrer melhor. Em
pisos traiçoeiros, isso é uma virtude maior.
O
escorregadio como mestre
“Não podemos sentir-nos muito bem”, admitiu Borges no final, numa
frase que afirma muito mais do que parece. Jogar em condições escorregadias obriga
a um ténis menos instintivo e mais pensado. Obriga a aceitar que nem tudo sai
perfeito e que a paciência pode ser a arma mais afiada.
Borges não tentou forçar um
espetáculo que o court não permitia. Ajustou a passada, evitou riscos e
escolheu os momentos apropriados para acelerar. Essa leitura fina do contexto
foi decisiva para sobreviver ao jogo e, no fim, vencê-lo.
Terceira vitória do ano
Há também um dado que não pode ser
ignorado: esta foi a terceira vitória de Nuno Borges em 2025 frente a um
jogador do top 100 mundial. Não é um acaso nem um detalhe menor. É sinal de
consistência, de uma presença cada vez mais natural entre a elite competitiva
do circuito.
Mais do que quem estava do outro lado
da rede, importa como o português tem chegado a estes triunfos. Não são
vitórias arrancadas por inspiração momentânea. São vitórias construídas com método,
disciplina e maturidade emocional.
Ranking e identidade
Como 46.º do ranking ATP e número um
nacional, Borges carrega hoje um estatuto que já não surpreende. O que continua
a surpreender é a forma como lida com ele. Em Auckland, não jogou como favorito
nem como outsider. Jogou como alguém confortável na sua pele competitiva.
Essa identidade — tranquila, focada e resiliente — reflete-se em momentos-chave, como o tie-break final diante de Etcheverry. No momento em que o jogo exigiu decisões rápidas e convicção plena, Borges respondeu com clareza.
Confiança que cresce
O próprio tenista falou em “aumento
de confiança”. Não como frase feita, mas como leitura honesta do que ficou
em campo. Vencer sem jogar o melhor ténis é, muitas vezes, mais valioso do que
vencer com facilidade. Ensina a ganhar de outras formas e prepara o corpo e a
mente para desafios maiores.
A confiança que nasce destes jogos
não é eufórica; é sólida. Assenta na certeza de que, mesmo em dias menos
inspirados, há ferramentas para competir e vencer.
O próximo passo
Segue-se Elito Spizzirri, 89.º
mundial, adversário que Borges já conhece e frente ao qual já venceu, em
Atenas, em 2025. O passado recente não garante o futuro, mas oferece
referências. E, acima de tudo, oferece tranquilidade.
Em Auckland, o maiato não deslizou
para fora do jogo. Escorregou, ajustou-se e manteve-se de pé. Num circuito em que o equilíbrio é frágil e as margens são mínimas, isso é sinal de um tenista que
não apenas compete — aprende, cresce e brilha.
Ele agora tem de defender os pontos
da época, em que chegou às meias-finais.
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