O Mirantense e a forja do ténis de mesa de Lisboa
🖋️Por: António Vieira Pacheco
📸 Créditos: Revista Crónica Desportiva
⏱️ Tempo de leitura: 5 minutos
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| A revista Crónica Desportiva dedicou duas páginas em 1953 ao clube lisboeta. |
Quando se fala no desenvolvimento do ténis de mesa em Lisboa, é impossível não cruzar caminho com o Mirantense Futebol Clube. A pequena coletividade, fundada, a 1 de maio, em 1935, não tinha pavilhão, não tinha salas próprias e, durante largos períodos, nem sequer tinha sede. Porém, teve algo mais valioso.
Uma cultura desportiva que
transformou mesas emprestadas em centros de excelência e jovens anónimos em
campeões nacionais.
Entre as décadas de 1940 e 1950, a agremiação
lisboeta escreveu um dos capítulos mais improváveis e vibrantes da modalidade
em Portugal.
Um começo modesto, mas com ambição
O ténis de mesa entrou no Mirantense
como tantas outras práticas populares da época. Nascido da iniciativa dos
sócios mais jovens, que viam naquele jogo rápido e preciso uma forma acessível
de competir. Não havia equipamentos sofisticados; muitas vezes, as mesas eram
montadas e desmontadas no próprio dia. O clube sobrevivia de recursos mínimos,
mas a modalidade cresceu sobre uma base de entusiasmo e de disciplina.
Foi com essa atitude — amadora na forma,
profissional na entrega — que transformou o clube num viveiro de talentos.
A década de ouro
A viragem decisiva deu-se no início da década de 1950. O Mirantense, que até então se afirmara como um clube esforçado, conquista pela primeira vez resultados que o colocam no topo da modalidade em Portugal.
Em 1950/51 e 1951/52, o clube alcança uma série de títulos que surpreendem o meio desportivo como relatam os jornais e revistas da época:
— Campeão Nacional de Infantis, com
uma formação jovem, mas tecnicamente evoluída;
— Campeão de Lisboa da Categoria de
Promoção, mostrando que a formação era competitiva mesmo entre atletas mais
crescidos;
— Vencedor da III Divisão na 1.ª
categoria e, no ano seguinte, da II Divisão.
Tudo isto alcançado sem
instalações próprias. O facto não passou despercebido às publicações
desportivas da época, que destacavam o paradoxo: um clube sem casa própria
tornara-se referência numa modalidade que exigia regularidade de treino e
precisão técnica.
Os nomes que fizeram o clube
O fenómeno do Mirantense não surgiu
do nada. A coletividade tornou-se conhecido pela capacidade de detetar e formar
jovens jogadores com enorme potencial.
Entre os nomes mais marcantes estiveram:
— Fernando Fonseca – jogador completo, de técnica madura, que acumulava vitórias regulares nas categorias superiores;
— Joaquim Azevedo – competitivo, combativo, presença segura nas equipas seniores;
— José Louro, o prodígio infantil – talvez o nome mais simbólico da época. Louro conquista o título nacional de infantis e, pouco depois, transfere-se para o Benfica. Uma prova de que o Mirantense funcionava como verdadeira escola de talentos.
Para muitos jovens da cidade e dos arredores da capital portuguesa, o clube transformou-se assim numa porta de entrada para o ténis de mesa
competitivo.
Os treinos nómadas e a arte de improvisar
A evolução do clube no ténis de mesa
é inseparável da sua maior fragilidade: a ausência de instalações. A coletividade da
freguesia de São Vicente habituou-se a treinar onde pudesse — em salas cedidas
provisoriamente, sedes temporárias e espaços adaptados. As mesas eram de
qualidade variável, e os treinos muitas vezes terminavam porque o espaço
precisava de ser devolvido.
Mesmo assim, o clube mantinha uma
rotina exigente: treinos constantes, participação ativa em torneios e
acompanhamento rigoroso dos atletas mais jovens. A falta de condições nunca se
traduziu em falta de resultados.
É este contraste — precariedade
estrutural em comparação a excelência competitiva — que faz do Mirantense um caso único
na história do ténis de mesa português.
Um clube que vivia para a modalidade
Enquanto em muitas coletividades o
ténis de mesa era unicamente mais uma atividade, no Mirantense tornou-se um dos
pilares da vida interna. O clube organizava regularmente torneios
comemorativos, como o Torneio do 22.º aniversário, que reunia atletas
locais, figuras do clube e jovens em ascensão.
A comunidade de praticantes cresceu a
ponto de o Mirantense ser reconhecido como um dos ambientes mais ativos e
disciplinados da modalidade na capital. O ténis de mesa não era somente
competição: era convivência, formação e identidade.
O
impacto na cidade e além dela
A projeção do Mirantense não se
limitou às tabelas classificativas. Ao formar campeões nacionais e jogadores
que reforçariam mais tarde clubes maiores, o Mirantense contribuiu diretamente
para o desenvolvimento do ténis de mesa português.
Mostrou que a modalidade podia
florescer fora dos grandes clubes e uma pequena associação, movida pela
dedicação dos seus dirigentes e atletas, podia transformar-se num agente de
inovação desportiva.
O legado de um clube de bairro não
vive exclusivamente dos títulos. Existe também por elevar o nível juvenil e infantil, quando o ténis de
mesa ainda buscava espaço no país.
A
aula de um clube de bairro
A história do ténis de mesa no
Mirantense Futebol Clube é a história da superação. É a prova de que o talento
precisa de condições mínimas, mas não depende exclusivamente delas; obedece,
sobretudo, de paixão, rigor e visão.
Num clube sem sede fixa, nasceram
campeões. Num bairro sem pavilhões, formaram-se equipas que venceram em Lisboa e em Portugal. E numa mesa que tantas vezes necessitava de ser montada à pressa,
ergueu-se um dos capítulos mais singulares do ténis de mesa lisboeta.
O Mirantense não foi grande porque
tinha meios — foi grande porque tinha alma.

Joguei algumas vezes contra este clube onde havia um jogador muito completo de nome Lucas.....
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