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Mais um dia no parque — Crónica de um veterano com raquete e silêncio

                                                                 Por António Vieira Pacheco

Um trabalhador e atleta de ténis de mesa dedicado.
Créditos: Facebook de Marco Pedro.Mais um dia no parque. E na memória do jogo

Um adepto da crónica, mais do que da crónica desportiva

Marco Pedro é um nome que ecoa baixo, mas frequente, no ténis de mesa português. Não tanto pelas vitórias — que escasseiam — mas pelo zelo com que regista a sua caminhada. Entre partilhas digitais, vídeos serenos, crónicas em tom de confidência e desabafos com bola, ergue-se uma figura quase literária: o jogador que escreve mais do que pontua, o cronista da sua própria travessia e de outros.

Num dos seus vídeos mais recentes, referentes ao Campeonato da Europa de Veteranos, lê-se a frase: “Mais um dia no parque”. A leitura é calma, os gestos suaves, as imagens discretas dos campos de jogo. A cena é quase poética: veteranos num parque estrangeiro, em Novi Sad, entre um jogo e outro, entre uma derrota e a próxima. Não se trata de adiar uma partida — talvez uma ideia, um regresso, uma responsabilidade. Quem sabe?

Um enviado especial… de si e de outros!

No Mundial de Veteranos, Marco Pedro não tem somado triunfos até ao momento. Mas tem somado algo talvez mais duradouro: presença digital. De Novi Sad chegam relatos, fotos, resultados e pequenos vídeos — tão constantes que nos perguntamos se Marco viajou com mais raquetes ou com mais cartões de memória.

É uma missão pessoal. Não há jornalistas no local, nem transmissão televisiva. Mas Marco preenche esse vazio com um rigor quase documental. Joga, filma, publica, comenta. Está em todas as partidas, mesmo nas que perde. E perde com método: com dignidade, com regularidade, com narrativa. Há nisto algo profundamente humano.

O cargo que joga parado

Marco Pedro é também, recordemo-lo, representante dos jogadores na Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Ténis de Mesa, eleito em novembro do ano passado. Um cargo que, como tantos outros no desporto nacional, oscila entre a nobreza da missão e a vacuidade do poder. Não se sabe bem fazendo, mas sabe-se que existe. E Marco parece empenhado em garantir que ninguém o esquece.

Há quem diga que esta viagem é mais do que competição. Que há nela o sopro discreto de uma campanha antecipada, uma volta internacional para lembrar aos distraídos que o cargo continua a ser seu — e que poderá sê-lo também no próximo ciclo federativo, daqui a três anos e meio.

Um silêncio que vale mais que mil palavras

Enquanto isso, o projeto Entrar no Mundo das Modalidades tenta, com educação, obter respostas a perguntas simples. O contacto foi feito. As mensagens, não lidas. Mas do outro lado, silêncio.

Não se trata de recusar o contacto. Trata-se apenas de não ler as mensagens de um 'desconhecido' do ténis de mesa. Talvez por falta de tempo. E talvez por estar muito concentrado nas suas funções de atleta e de profissional de comunicação. Ou talvez por o não estarem habituados a serem contactados por jornalistas — ou talvez porque não foram feitas num vídeo ao pôr do sol, com música de fundo e vento nas árvores.

O valor do gesto e da persistência

Seria injusto dizer que tudo isto é vácuo. Não é. Marco Pedro continua a jogar quando muitos já penduraram a raquete. Continua a viajar, a pagar do seu bolso, a treinar em parques, a carregar malas e desilusões com uma serenidade quase budista. Há nisto tudo um compromisso real, mesmo quando os resultados falham.

Mas também há uma sombra: a sensação de que o gesto serve mais ao registo do que à essência, que a publicação é mais importante do que o ponto, que a memória que se tenta criar é feita de imagem e não de impacto.

A volta ao mundo em 80 cliques

É possível que Marco Pedro regresse de Novi Sad sem vitórias, mas com dezenas de publicações. Talvez não seja o primeiro no ‘ranking’ mundial, mas dificilmente há alguém no seu escalão com mais alcance no Facebook.

Talvez esteja já a pensar na próxima prova. No próximo vídeo. No próximo comentário. Ou na próxima assembleia, em que será relembrado como aquele que nunca desistiu. Nem das derrotas. Nem das partilhas.

O ténis de mesa, esse, agradece os que continuam. Mesmo quando o que se joga… não é exatamente o jogo.

Este texto é uma crónica opinativa. As interpretações aqui presentes são subjetivas, baseadas em factos públicos e no exercício legítimo da liberdade de expressão.

Gosta de crónicas que vão além do resultado?
Aqui falamos das margens da competição, dos bastidores da persistência e dos rostos que ninguém entrevista.

➡️ descubra mais histórias reais e discretas em Entrar no Mundo das Modalidades.

 

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