Mais um dia no parque: Crónica de um veterano com raquete e silêncio

🖋️Por: António Vieira Pacheco

📸 Créditos: Direitos Reservados

⏱️ Tempo de leitura: minutos

Um trabalhador e atleta de ténis de mesa dedicado.
Mais um dia no parque. E na memória do jogo

           Um adepto da crónica, mais do que da desportiva

Marco Pedro é um nome que ecoa baixo, mas frequente, no ténis de mesa português. Não tanto pelas vitórias — que escasseiam — mas pelo zelo com que regista a sua caminhada. Entre partilhas digitais, vídeos serenos, crónicas em tom de confidência e desabafos com bola, ergue-se uma figura quase literária. O jogador que escreve mais do que pontua na mesa, o cronista da sua própria travessia e de outros.

Num dos seus vídeos mais recentes, referentes ao Campeonato da Europa de Veteranos, lê-se a frase: “Mais um dia no parque”. A leitura é calma, os gestos suaves, as imagens discretas dos campos de jogo. A cena é quase poética: veteranos num parque estrangeiro, em Novi Sad, entre um jogo e outro, entre uma derrota e a próxima. Não se trata de adiar uma partida — talvez uma ideia, um regresso, uma responsabilidade. Quem sabe?

Um enviado especial… de si e de outros!

No Europeu de Veteranos, Marco Pedro não tem somado triunfos até ao momento. Porém, tem somado algo talvez mais duradouro: presença digital. De Novi Sad chegam relatos, fotos, resultados e pequenos vídeos — tão constantes que nos perguntamos se Marco viajou com mais raquetes ou com mais cartões de memória.

É uma missão pessoal. Não há jornalistas no local nem transmissão televisiva para as massas. Mas Marco preenche esse vazio com um rigor quase documental. Joga, filma, publica, comenta. Está em todas as partidas, mesmo nas que perde. E perde com método: com dignidade, com regularidade, com narrativa. Há nisto algo profundamente humano.

O cargo que joga parado

Marco Pedro é também, recordemo-lo, representante dos jogadores na Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Ténis de Mesa, eleito em novembro de 2024. Um cargo que, como tantos outros no desporto nacional, oscila entre a nobreza da missão e a vacuidade do poder. Não se sabe exatamente como se exerce, mas sabe-se que existe. E Marco parece determinado a garantir que ninguém o esqueça na modalidade.

Há quem diga que esta viagem é mais do que uma competição. Que há nela o sopro discreto de uma campanha antecipada, uma volta internacional para lembrar aos distraídos que o cargo continua a ser seu — e que poderá sê-lo também no próximo ciclo federativo, daqui a três anos e meio.

Um silêncio que vale mais que mil palavras

Enquanto isso, o projeto Entrar no Mundo das Modalidades tenta, com muita educação, obter respostas a perguntas simples. O contacto foi feito. As mensagens não lidas. Mas do outro lado, silêncio.

Não se trata de recusar o contacto. Trata-se apenas de não ler as mensagens de um 'desconhecido' do ténis de mesa. Talvez por falta de tempo. E talvez por estar muito concentrado nas suas funções de atleta que acumula com as de profissional de comunicação. Ou talvez por não estarem habituados a serem contactados por jornalistas, ou talvez porque não foi feita num vídeo ao pôr do sol, com música de fundo e vento nas árvores.

O valor do gesto e da persistência

Seria injusto dizer que tudo isto é um vácuo. Não é. Marco Pedro ainda joga.  Muitos já penduraram a raquete. Continua a viajar, a pagar do seu bolso, a treinar em parques, a carregar malas e desilusões com uma serenidade quase budista. Há nisto tudo um compromisso real, mesmo quando os resultados falham.

Mas também há uma sombra. A sensação de que o gesto serve mais ao registo do que à essência. A publicação é mais importante do que um ponto. A memória que se tenta criar é feita de imagem e não de impacto.

A volta ao mundo em 80 cliques

É possível que Marco Pedro regresse de Novi Sad sem vitórias, mas com dezenas de publicações. Talvez não seja o primeiro no ‘ranking’ mundial, mas dificilmente há alguém no seu escalão com mais alcance no Facebook.

Talvez pense na próxima prova. No próximo vídeo. No próximo comentário. Ou na próxima assembleia, em que será relembrado como aquele que nunca desistiu. Nem das derrotas. Nem das partilhas.

O ténis de mesa, esse, agradece os que continuam. Mesmo quando o que se joga… não é exatamente o jogo.

Este texto é uma crónica opinativa. As interpretações aqui expostas são subjetivas, baseadas em factos públicos e no exercício legítimo da liberdade de expressão.

Gosta de crónicas que vão além do resultado?
Aqui falamos das margens da competição, dos bastidores da persistência e dos rostos que ninguém entrevista.

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