Jonas Vingegaard já assusta Tadej Pogačar?
🖋️Por: António Vieira Pacheco
📸 Créditos: Direitos Reservados
⏱️ Tempo de leitura: 3 minutos
A 16.ª etapa da Volta à Itália deixou mais do que diferenças
na classificação geral. Deixou uma pergunta que começa a ganhar força no
pelotão: Jonas Vingegaard já voltou ao seu nível?
Em Carì, o dinamarquês da Team Visma | Lease a Bike venceu
com autoridade, reforçou a liderança da corrida e assinou aquilo que foi, até
ao momento, a sua melhor prestação em alta montanha nesta temporada.
Mais do que o triunfo, impressionaram os números.
Segundo as estimativas partilhadas por Naichaca,
analista conhecido pelas medições de potência frequentemente apontadas como
fiáveis no meio do ciclismo, Vingegaard terá produzido 6,77 W/kg
ao longo de 30 minutos e 50 segundos na subida final para Carì.
É um registo que altera a leitura do seu Giro.
Até aqui, o líder da Visma estava sólido. Superior. Regular.
Mas ainda sem apresentar aquelas acelerações ou valores que, no passado, o
colocaram num patamar quase intocável em montanha. Em Carì isso mudou.
Pela primeira vez em 2026, os números aproximaram-se
claramente do melhor Vingegaard.
E quando isso acontece, a leitura deixa de se limitar ao
Giro.
Começa inevitavelmente a olhar para julho.
A comparação interna é reveladora. No Blockhaus, Vingegaard
registou 6,35 W/kg em 37 minutos. Em Pila subiu para 6,39 W/kg ao longo de
cerca de 40 minutos. Agora em Cari, o salto foi evidente.
Mais potência. Mais explosividade. Mais controlo.
O tipo de subida que devolve memórias dos seus melhores dias.
Naturalmente, cada esforço precisa de contexto. O Blockhaus
surgiu após uma etapa de 244 quilómetros. Pila apareceu num dia alpino com
enorme desgaste acumulado. Cari teve apenas 113 quilómetros, embora com quase
3000 metros de desnível e corrida intensa desde o arranque.
Ainda assim, há um fator que pesa na leitura: surgiu na
terceira semana do Giro.
E foi precisamente aí que Vingegaard mostrou crescimento.
Num momento em que muitos começam a perder capacidade física,
o dinamarquês pareceu mais forte.
Um aviso para julho
A grande questão deixa de ser o Giro.
A verdadeira questão passa a ser outra: o que é que isto
representa para a Volta a França?
A resposta definitiva ainda está longe, mas Cari deixou um
sinal importante.
Porque quando Vingegaard sobe a este nível, a comparação com
Tadej Pogačar torna-se inevitável.
A referência máxima continua a pertencer ao esloveno. O
Plateau de Beille, no Tour de 2024, permanece como uma das maiores exibições da
história recente da montanha: 6,98 W/kg durante quase 40 minutos. Nesse mesmo
dia, Vingegaard produziu 6,85 W/kg — números extraordinários apesar de ter
perdido tempo.
Foi talvez o auge absoluto do duelo entre ambos.
Desde então, nenhum voltou a reproduzir exatamente esses
valores.
Pogačar esteve em excelente nível, em 2025, sobretudo no
Hautacam. Vingegaard respondeu no Mont Ventoux. Mas Cari marca a primeira vez
este ano em que o dinamarquês volta a se aproximar desse território.
E isso é relevante porque julho está cada vez mais próximo.
Do outro lado, Pogacar também cresce. O campeão do mundo está
a preparar a Volta a França após uma primavera centrada nas clássicas, na qual voltou a dominar. Na Romandia deixou bons indicadores, embora sem atingir o seu pico.
O próprio reconheceu que não está no peso ideal.
Há margem.
E essa margem existe para ambos.
Por isso, Carì talvez não seja ainda uma resposta definitiva.
Mas é certamente um aviso.
Um aviso de que Vingegaard continua a crescer no momento
certo.
Um aviso de que o seu nível de montanha está a
subir novamente.
E um aviso de que a Visma continua a apresentar argumentos
reais para enfrentar a UAE Team Emirates-XRG no maior palco da temporada.
Se confirmar a vitória no Giro, Vingegaard chegará ainda à
Volta a França num cenário diferente daquele que viveu nos últimos anos.
Com menos pressão.
Com uma grande volta no bolso.
Com mais liberdade estratégica.
Isso pode torná-lo ainda mais perigoso.
Porque se o Giro parecia, até aqui, uma corrida sob controlo…
Cari mostrou algo diferente.
Mostrou ambição.
Revelou potência.
Mostrou o Vingegaard que o pelotão conhece.
E quando esse Vingegaard aparece, Pogačar escuta.

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