Tatiana Garnova: “Desistir não é opção”

  🖋️Por: António Vieira Pacheco

📸 Créditos: Federação Portuguesa de Ténis de Mesa

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Tatiana Garnova festeja terceiro título do Juncal com o público.
Tatiana Garnova festeja título do Juncal com os adeptos da equipa açoriana.


“Desistir não é opção.” 

A frase de Tatiana Garnova poderia ser apenas uma resposta a uma entrevista. No entanto, no contexto  da carreira assume outro peso: o de uma atleta que construiu o seu percurso entre mudanças de país, adaptação à cultura, lesões e decisões tomadas ao limite. Aos 30 anos, a jogadora nascida na Rússia voltou a erguer o título nacional ao serviço do Juncal, clube da Praia da Vitória, num desfecho decidido apenas no último jogo da final.

Em Portugal há cerca de dez anos, Garnova transformou uma chegada incerta numa história de continuidade. Hoje, fala da ilha Terceira não como destino, mas como casa — e do Juncal como o espaço onde construiu a identidade competitiva e pessoal no ténis de mesa português.

Uma final no limite

O título recente do Juncal foi decidido na quinta partida da final do play-off, num cenário de máxima pressão competitiva. Um desfecho no limite, no qual cada ponto teve impacto direto no resultado e na leitura emocional da equipa.

Para Garnova, esse tipo de momento não é exceção, mas sim a essência do desporto de alta competição.

“Foi, sem dúvida, uma explosão de emoções. Em certa medida também foi um alívio, porque a época em Portugal terminou com uma vitória. Mas primeiro veio a explosão de emoções, e só depois o alívio”, explica.

A distinção entre emoção e alívio não é apenas semântica. Na prática, traduz o impacto imediato de um título decidido sob tensão máxima — seguido da descarga emocional que só surge quando o objetivo está concluído.

Cabeça, controlo e adaptação

Num desporto no qual o tempo de reação é curto e a margem de erro mínima, Garnova assume que a dimensão mental é determinante. Ainda mais num contexto em que, segundo a própria, nem sempre está fisicamente a 100%.

“Em todos os encontros, tento jogar mais com a cabeça. O facto de ter alguns problemas no braço dá-me ainda mais razões para jogar com inteligência. Mas, geralmente, deve-se sempre tentar jogar com a cabeça.”

A afirmação reflete não apenas uma abordagem tática, mas também uma adaptação contínua à realidade competitiva. No ténis de mesa, a leitura de jogo e a gestão emocional podem ter tanto peso quanto a execução técnica.

Tatiana Garnova concentrada na mesa.
Tatiana Garnova em ação.

O momento decisivo

A final empatada antes do jogo decisivo (2-2) cria um cenário psicológico específico. Para Garnova, é precisamente aí que o desporto atinge o seu ponto mais exigente.

“Altera completamente o estado interior. Jogar um encontro decisivo traz sempre emoções adicionais e uma responsabilidade maior. Mas, simultaneamente, pode-se entrar num estado de euforia, quando tudo depende só de si — e, para mim, é uma sensação incrível.”

A atleta descreve o momento decisivo como um equilíbrio entre pressão e libertação. Uma espécie de limiar no qual o controlo emocional se torna tão importante quanto a execução técnica.

Um título com peso pessoal

Mais do que um troféu coletivo, o título tem um significado individual.

“Este é, sem dúvida, um grande título para o clube, mas também é muito importante para mim, pessoalmente. Terminei a minha décima época neste clube — uma temporada especial — e fechá-la com uma vitória é mais do que um título.”

A ligação ao Juncal não é recente nem circunstancial. É um percurso longo, marcado por estabilidade num desporto em que a mobilidade é frequente. Essa continuidade reforça o valor simbólico do título conquistado.

O que fica da época

Ao longo de uma temporada, há jogos que desaparecem da memória e outros que permanecem. Para Garnova, os momentos decisivos são aqueles que definem a história competitiva de um atleta.

“Ao longo da época, são precisamente estes momentos decisivos que tornam cada temporada inesquecível. Fica para a história e para a minha memória.”

A consistência diária constrói o processo, mas são os jogos finais que definem o legado competitivo.

Atleta e pessoa

A separação entre atleta e pessoa não é absoluta. Garnova assume que ambas coexistem em cada jogo.

“Entro sempre para o jogo como uma pessoa com a sua própria história, mas também, naturalmente, como atleta — porque isso faz parte da minha história. Por trás de cada vitória há sempre algo maior do que o desporto.”

A afirmação reforça a dimensão humana do rendimento desportivo, no qual o contexto pessoal influencia a forma como a competição é vivida.

O desporto como construção diária

A equipa do Juncal com o caneco na mão.
Juncal em festa.
No ténis de mesa, a progressão é raramente feita de grandes saltos. É acumulativa. E é nessa lógica que Garnova enquadra o seu percurso.

“O ténis de mesa ensinou-me que as grandes vitórias são construídas a partir de pequenos passos, e que não existem pontos sem importância — tal como não existem ações, palavras ou pequenas conquistas sem valor. Cada vitória é grande, mas é feita de muitos pequenos momentos.”

A leitura do jogo, para além da técnica, passa pela valorização de cada detalhe.

Desistir não entra no plano

A carreira de qualquer atleta é marcada por fases difíceis. Lesões, resultados menos positivos e desgaste físico e mental fazem parte do percurso.

“Na vida de qualquer atleta surgem momentos de vontade de desistir ou de abrandar, especialmente quando falamos de lesões e também em fases menos positivas. Mas uma coisa é abrandar, outra é desistir. Desistir não é opção — porque desistir, poda sempre o fazer mais tarde. Abrandar, por outro lado, às vezes é necessário e até saudável. Ninguém consegue estar sempre no topo nem sustentar esse nível elevado de forma permanente.”

A forma como Garnova gere a carreira assenta numa distinção clara: abrandar não significa desistir.

Consistência e exigência

Manter um nível elevado ao longo do tempo é, na sua perspetiva, um dos principais desafios do desporto de alta competição.

“Manter um nível constantemente alto é muito mais complicado. Eu própria não sou a atleta mais estável, mas prefiro alcançar grandes vitórias, mesmo que isso implique alguns momentos menos bons, do que ficar apenas num nível médio elevado. No fundo, é a minha forma de encarar a competição.”

A ideia de consistência não é, para a atleta, sinónimo de ausência de oscilações, mas sim de continuidade competitiva.

Talento não chega

Nas finais decididas ao último jogo, Garnova vê um fator dominante: a resistência emocional.

“As finais decididas no último jogo nunca são apenas sobre talento. São, sobretudo, sobre resistência emocional e sobre todo o trabalho duro feito antes — tanto para chegar à final como para conseguir ganhar. A cabeça tem um papel enorme, mas tudo isso assenta em muito trabalho. O talento ajuda, claro, mas sem trabalho não leva a lado nenhum.”


A combinação entre preparação e controlo emocional define, na sua visão, o desfecho de jogos equilibrados.

Depois da conquista

O momento após o título é dividido em duas fases: a imediata e a posterior.

“Após um título assim, há, naturalmente, uma euforia imediata. Mas, mais tarde, quando se começa a perceber realmente o que aconteceu, pode surgir um vazio — porque não queremos que essa sensação acabe. Queremos continuar ali, com a equipa, a celebrar. E é muito importante, nesses momentos, não baixar os braços, mas continuar a trabalhar para virem ainda mais conquistas.”

A transição entre a celebração e o regresso ao trabalho é parte integrante da rotina competitiva.

Tatiana com a mão no troféu.
Tatiana com o troféu na mão.
Ganhar em casa

O contexto do título também tem impacto emocional. Jogar e vencer perante o público local acrescenta significado ao resultado.

“Isso torna o título ainda mais especial. Ganhar em casa é sempre mais bonito e mais importante. E quando tem o apoio do público como o nosso, as emoções são indescritíveis. Estou extremamente feliz por termos conquistado o título em casa.”

Percurso e presente

Quando convidada a resumir a carreira numa frase, Garnova opta por uma lógica de foco no presente.

“Se tiver de resumir o meu percurso numa frase: se der o seu máximo agora, isso será sempre suficiente. O importante é fazer tudo o que depende de si. Não devemos exigir de nós nem mais, nem menos do que conseguimos dar naquele momento — mas esse tem de ser sempre 100%. E mesmo que hoje não seja suficiente para ganhar, será sempre suficiente no caminho, porque tudo volta, mais cedo ou mais tarde. É preciso continuar a trabalhar e dar sempre o máximo.”

Objetivo internacional em pausa

A possibilidade de representar Portugal não está, presentemente, no centro das prioridades da atleta.

“Agora, estou totalmente focada na recuperação do meu ombro. Hoje não posso dizer que esteja a pensar em representar Portugal internacionalmente. Claro que tenho ambições, mas, atualmente, não vejo essa possibilidade nem tenho propostas nesse sentido.”

A festa açoriana.

Fora da mesa

Fora da competição, Tatiana Garnova mantém uma rotina ativa, com treino, viagens e contacto próximo com pessoas da sua vida pessoal. Paralelamente à carreira desportiva, dedica-se a dar treinos de ténis de mesa, partilhando experiência com atletas mais jovens.

Entre o alto rendimento e a formação, constrói um percurso sustentado na disciplina, na continuidade e na ligação ao lugar onde escolheu viver — a ilha Terceira, onde uma chegada se transformou em permanência.


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