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Francisca Jorge, nove vezes rainha de Portugal

🖋️Por: António Vieira Pacheco

📸 Créditos: Federação Portuguesa de Ténis

⏱️ Tempo de leitura: 3 minutos

A nona vez de Francisca Jorge.
Francisca Jorge sagra-se campeã nacionalpela nova vez seguida e iguala Sofia Prazeres.

                                    Novamente, Kika

O número pode parecer simples, quase infantil na sua cadência — um, dois, três, até nove —, mas no ténis português carrega um peso raro. Nove é agora a marca de Francisca Jorge, novamente campeã nacional absoluta, novamente no lugar que há quase uma década parece reservado para si. No Jamor, onde a história gosta de regressar a si mesma, a tenista de Guimarães voltou a escrever o mesmo final, embora cada capítulo tenha sempre ‘nuances’ próprias.

As finalistas do Nacional Absoluto.
As irmãs Jorge dominam o panorama nacional.

                                               Final familiar

O último capítulo foi jogado num domingo de luz filtrada, na nave de campos cobertos do Complexo de Ténis do Jamor, em Oeiras. Piso rápido, silêncio concentrado, arquibancadas atentas. Do outro lado da rede estava Matilde Jorge, irmã mais nova, companheira de pares, rival inevitável. O resultado — 6-3 e 6-4 — conta somente uma parte do que ali se passou. A outra vive nos detalhes invisíveis: nos olhares cúmplices antes do aquecimento, na contenção dos festejos, na forma como cada ponto parecia carregar anos de convivência, treinos partilhados, viagens longas e sonhos semelhantes.

Foi a sexta final entre as duas nos últimos sete anos. Um dado que diz muito sobre a consistência de ambas e sobre a singularidade desta história familiar no desporto português, onde a intimidade do laço se transforma, durante algumas horas, em confronto absoluto.

                                    Hegemonia prolongada

Mas esta final diz também algo mais profundo sobre a hegemonia construída por Francisca  desde 2017. Desde então, ninguém conseguiu afastá-la do trono nacional. São já 35 vitórias consecutivas na competição mais importante do calendário interno, um número que fala de regularidade, resiliência e de uma capacidade rara para lidar com a pressão de entrar sempre em campo como favorita.

Aos 25 anos, Francisca não é somente campeã. É referência. O seu jogo assenta menos no brilho momentâneo e mais numa solidez que se impõe ao longo do tempo. Contra Matilde, voltou a ser assim: segura no serviço, paciente nas trocas de fundo de campo, pragmática quando surgiram as oportunidades decisivas.

                                        Marca histórica

Com este nono título consecutivo, Francisca atingiu uma fasquia rara no ténis português feminino, igualando os nove triunfos conquistados de forma seguida por Sofia Prazeres entre 1990 e 1998. Passa, assim, a partilhar com ela o segundo lugar na lista das maiores vencedoras da prova, ficando apenas atrás da recordista Leonor Peralta, que somou 13 títulos nacionais, dez deles consecutivos.

Apesar do peso dos números, Francisca continua a apresentar-se em campo com uma sobriedade quase desarmante. Não há gestos exagerados nem celebrações exuberantes. Há, isso sim, uma leitura apurada do jogo, uma serenidade que se impõe nos momentos decisivos e uma maturidade competitiva construída ao longo de anos de exigência constante.

Matilde, por sua vez, voltou a confirmar o estatuto de protagonista do ténis nacional atual. Lutou, procurou soluções, tentou quebrar padrões. Em vários momentos, aproximou-se do equilíbrio. Mas encontrou pela frente a versão mais sólida da irmã mais velha, uma barreira feita não apenas de talento, mas de experiência acumulada ponto a ponto.

A singularidade desta rivalidade é que ela não termina quando o último ponto é jogado. Na véspera da final de singulares, Francisca e Matilde estiveram do mesmo lado da rede e conquistaram juntas mais um título nacional em pares femininos. Foi o nono troféu de Francisca nessa variante, acrescentando uma nova camada a um percurso marcado tanto pela excelência individual como pela capacidade de partilha.

Atual número um de Portugal e classificada na 214.ª posição do ranking WTA, Francisca vive entre dois mundos. No plano interno, é a figura dominante, o nome que todos tentam derrubar. No circuito internacional, continua a travar batalhas diárias por pontos, entradas em quadros principais e estabilidade competitiva. Talvez seja essa convivência entre a certeza e o desafio permanente que lhe permita manter os pés no chão e a ambição intacta.

Ano após ano, o Campeonato Nacional tem sido o palco privilegiado dessa afirmação. Para muitos, é somente uma prova do calendário. Para a mais velha das irmãs Jorge, tornou-se um território de identidade. Nove edições seguidas confirmaram a mesma resposta à pergunta inevitável. No Jamor, mais uma vez, a resposta foi escrita com sobriedade, precisão e a tranquila autoridade de quem já entrou para a história.

Campeonato Nacional Absoluto

MAIS TÍTULOS FEMININO

13

Leonor Peralta (1967-1976, 1979, 1980 e 1982)

9

Francisca Jorge (2017-2025)

Sofia Prazeres (1990-1998)

8

Angelica Plantier (1925-1927, 1929, 1931-1933 e 1935)

7

Peggy Brixhe (1945, 1946, 1947, 1955, 1961, 1965 e 1966)

6

Maria João Koehler (2009, 2010, 2011, 2012, 2013 e 2016)

4

Neuza Silva (2003, 2006, 2007 e 2008)

3

Ana Catarina Nogueira (1999, 2000 e 2004)

Deborah Fiúza (1977, 1978 e 1981)

2

Bárbara Luz Medeiros (2014 e 2015)

Patrícia Valadas (1987 e 1988)

Susana Marques (1985 e 1986)

Maria João Silva Araújo (1953 e 1954)

 

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