🖋️Por: António Vieira Pacheco
📸 Créditos: Federação Portuguesa de Ténis
⏱️ Tempo de leitura: 5 minutos
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| Torres orgulhoso com o troféu de campeão nacional absoluto. |
O ritmo certo
O ténis ensinou precocemente a Tiago
Torres que nem tudo acontece quando se quer. Há pontos que se ganham
pela força e outros que se vencem pela paciência — e, muitas vezes, pelo
desenrascar do momento.
O seu percurso encaixa claramente no segundo grupo. O seu percurso entra claramente no segundo grupo. Não se construiu por meio de explosões repentinas nem de ascensões vertiginosas, mas antes por uma construção paciente e sustentada. É o reflexo de quem aceita que o jogo se decide, muitas vezes, nos detalhes invisíveis.
Hoje, aos 23 anos, essa relação
com o tempo é uma das marcas mais claras da sua identidade competitiva. Um
traço que ajuda a compreender porque o título de campeão nacional absoluto não
surge como um ponto final, mas como um momento de convergência: o encontro
entre tudo o que foi feito ao longo dos anos e aquilo que continua por
construir.
Primeiros gestos
O jovem português começou a jogar ténis aos quatro anos, influenciado pelo pai, Daniel Torres, sob a orientação de José Galante. Nessa fase inicial, o ténis era feito de gestos repetidos, curiosidade infantil e uma rotina feliz. Entrou numa aula quase por decisão alheia, mas permaneceu por vontade própria. Desde então, nunca mais se afastou do jogo.
Natural de Lisboa, entrou na competição aos sete
anos. Desde cedo percebeu que o ténis não se resume ao que acontece no interior
do campo. É também feito de espera, repetição, frustração e da capacidade de
aceitar que o progresso raramente é linear.
Aprender
a competir
Nos escalões jovens, Torres começou a
medir-se com realidades distintas. No circuito sub-12 da Tennis Europe,
conquistou dois títulos em torneios de categoria 2, resultados
que confirmaram uma adaptação precoce a contextos internacionais.
Mais do que os troféus, essas
experiências moldaram a sua relação com a competição. Viajar, enfrentar
adversários desconhecidos, jogar longe de casa e lidar com a derrota foram
aprendizagens tão importantes quanto as vitórias. Cada torneio acrescentou densidade
a um percurso que se solidificou com o tempo.
A adrenalina da competição tornou-se
um dos pilares da sua ligação ao ténis. Um sentimento difícil de explicar e
impossível de reproduzir fora do campo. Só existe quando há algo
verdadeiramente em disputa.
Vestir Portugal
A ligação às seleções nacionais
surgiu de forma natural. Torres representou Portugal nas Winter Cups
(sub-16) e nas Summer Cups, nos escalões sub-16 e sub-18.
Representou igualmente o país nos Jogos Olímpicos da Juventude (sub-14) e
nos Jogos Olímpicos Universitários.
Vestir a camisola nacional foi uma
constante ao longo da sua formação e um marco relevante do seu percurso. Em
contextos onde o ténis deixa de ser apenas individual, aprendeu a competir com
outra responsabilidade, a gerir emoções e a compreender o peso simbólico de
cada encontro.
Consolidação júnior
No circuito ITF Junior, construiu um percurso consistente. Em 2019, sagrou-se campeão de
singulares no J5 Vale do Lobo, um título que marcou um momento de afirmação
competitiva.
Nesse mesmo ano, conquistou títulos
de pares no J5 Vila do Conde, ao lado de João Ferreira, e no J4
Ventspils, com Tomás Luís. O trabalho em pares reforçou leitura de jogo,
comunicação e capacidade de adaptação — competências que se revelariam
determinantes na transição para o circuito sénior.
Nos escalões de formação, foi
também campeão nacional de pares em sub-12, sub-14 e sub-18,
sinal de uma presença regular ao longo das diferentes fases do seu
desenvolvimento competitivo.
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| A garra e a força de Torres no court. |
A escolha americana
A decisão de prosseguir os estudos
universitários nos Estados Unidos da América representou uma
mudança estrutural no seu percurso. Um período exigente, feito de rotinas
rigorosas, treinos diários e competição integrada num sistema altamente
organizado.
“Os Estados Unidos influenciaram
bastante a minha nova fase da carreira. Porque melhorei durante quatro anos
tenisticamente, fisicamente e mentalmente. Estes aspetos são muito importantes.”
Mas a aprendizagem foi muito além do
campo.
“A maior lição que trouxe dos Estados
Unidos para a vida foi ter-me desenrascado sozinho. Não tinha os meus pais por
perto aos 18 anos.”
Longe de casa, o português foi
obrigado a gerir o quotidiano, a tomar decisões e a lidar com dificuldades sem
rede de segurança. Um processo que moldou autonomia, responsabilidade e
resiliência.
“Se não conseguir ganhar dinheiro com
o ténis, tenho uma licenciatura em Gestão e tenho sempre um plano B.”
A opção académica nunca foi vista
como um recuo.
“Não penso que tenha regredido nada
no ténis. Melhorei. Foi uma das melhores decisões que tomei na minha vida.”
O regresso a casa
De regresso à Europa, Torres
passou a representar o Ace Team, sob a orientação dos treinadores Vasco
Martins e Dany Sualehe. A transição definitiva para o circuito profissional trouxe novos desafios, em que a experiência pesa tanto quanto a execução técnica.
No circuito ITF, conquistou um título
de pares no M25 Sintra II, ao lado de João Graça, confirmando capacidade
para competir com regularidade em torneios profissionais.
O título absoluto
A conquista do título de campeão
nacional absoluto de singulares marcou um ponto de convergência no seu
percurso. Mais do que um troféu, foi a validação de um processo longo, feito de
persistência e continuidade.
O título absoluto não apagou momentos
difíceis do passado — como a final perdida num Campeonato Nacional de sub-16 —,
mas auxiliou a enquadrá-los. Para o jovem lusitano, o sucesso nunca foi somente
vencer, mas o complemento natural do trabalho diário.
Ranking e processo
Atualmente no 752.º lugar do
ranking mundial, Torres olha para o futuro com ambição clara, mas
controlada.
“Os objetivos que traço para 2026 são
acabar o ano entre os 400 melhores do mundo. O ranking é muito importante para
mim.”
Ainda assim, evita transformar
números numa obsessão.
“Normalmente, não coloco grandes
objetivos de ranking, pois coloco grande pressão em mim. Gosto mais de traçar
objetivos em termos físicos, melhorar mês para mês tenisticamente, melhorar os
meus pontos fracos. Se isso acontecer, o ranking irá se consumar.”
A consciência da dureza do circuito é
total.
“O ténis é um desporto injusto,
inglório porque se perde quase todas as semanas, para não dizer todas. Mas com
muito trabalho e dedicação acho que vou chegar lá. Tenho nível e posso
conseguir grandes coisas. É isso que acredito.”
Identidade em campo
Entre todas as superfícies, a relva é
o piso de que mais gosta de jogar. Um terreno que encurta decisões e
recompensa a leitura rápida do jogo, exigindo clareza, coragem e compromisso
total com cada ponto.
Em campo e fora dele, assume-se como uma
personalidade expressiva, exigente consigo próprio.
“Sou uma pessoa muito expressiva. O
pensamento que não digo em court é: ‘Sou tão péssimo e como falhei essa bola…’”
Uma autocrítica dura, mas reveladora da ambição que o move.
O encontro longo
Aos 23 anos, não se apresenta como um
produto acabado, mas como um jogador em construção consciente. O seu objetivo
passa por atingir o máximo possível de si próprio, sem atalhos nem ilusões.
No ténis, como na vida, nem todos os
caminhos se fazem em linha reta. Alguns constroem-se na persistência diária,
longe do ruído, com a paciência de quem aceita que cada etapa tem o seu tempo.
Torres continua a jogar esse encontro
longo — sabendo que chegar não é um instante, mas um processo. E para quem
aprendeu cedo a desenrascar-se sozinho, cada ponto conquistado sabe sempre um
pouco mais a conquista.
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| O trombolhão passageiro do campeão nacional absoluto. |
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