🖋️ Por: António Vieira Pacheco
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| A realidade do ténis de mesa angolano expressa na foto. |
Raízes profundas: história e estrutura
Em Angola, há desportos que nascem
com aplausos e outros que florescem em silêncio. O ténis de mesa pertence a
esta segunda categoria: discreto, elegante, e teimosamente resiliente. É como
uma flor aberta no meio do deserto. Desafia o sol, a poeira e a falta de
água — e ainda assim, tenta desabrochar.
Na terra da semba e da quizomba, onde
a música embala a vida, também há lugar para o som ritmado da bola a bater na
mesa. Uma batida seca, precisa, que parece acompanhar o coração de quem
acredita. Porque em Angola, o ténis de mesa não é somente um desporto — é um
ato de fé e resistência.
Fundação e primeiros passos
A história tomou forma, em 26 de novembro de 1979, com a criação da Comissão de Estruturação do Ténis de Mesa por despacho oficial.
O primeiro presidente da Federação Angolana de Ténis de Mesa (FATM) foi António da Silva Neto, um dos nomes que lançou as fundações do que se tornaria um movimento nacional.
Da capital ao interior: A expansão silenciosa
As primeiras províncias a acolherem a
modalidade foram Luanda, Huíla e Huambo. Depois vieram Benguela,
Uíge, Bié, Kuando Kubango e Namibe.
Em 1981, Angola afiliou-se às federações africana e internacional (ITTF), o que abriu portas para o seu primeiro contacto fora do país — na Zâmbia, em 1984.
Filomeno Fortes e Manuel
Burunhuso, formados no Egito em 1982, foram essenciais na dinamização da
modalidade em escolas e no interior.
Em 1995, António de Jesus Raimundo assumiu a presidência da FATM, com Paulo Teixeira Jorge na presidência da Mesa da Assembleia, cumprindo três mandatos consecutivos e consolidando a estrutura da modalidade.
Entre 2006 e 2007, um marco: a construção do Centro de Alto
Rendimento e a revisão do estatuto da Federação, publicadas em 2008, abriram
uma nova era.
A chegada do treinador português Abílio Cruz trouxe dinamismo e projeção mundial, elevando o ténis de mesa angolano a níveis globais.
Em 2008, o professor Dr. Filomeno Fortes,
antigo campeão nacional, assumiu a presidência da FATM, reforçando o
compromisso com o crescimento e a excelência.
Paulo Teixeira Jorge foi homenageado
como Primeiro Presidente Honorário da FATM, reconhecimento do seu incansável
trabalho e amor pela modalidade.
Presentemente, Manuel Morais é o
Presidente, que ocupou o cargo de Secretário Geral nas anteriores direções.
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| Torneio em África com presença angolana. |
Angola está inserida na Zona 5
da Federação Africana de Ténis de Mesa, ao lado de países como Uganda, Ruanda,
Zâmbia, África do Sul e Tanzânia.
Não é uma zona dominada pelos gigantes africanos: como a Nigéria ou o Egito, ou a Tunísia.
No entanto, é uma região onde o talento luta com poucos meios, e cada progresso é construído à força de paixão, persistência e engenho local.
António Lemos: Guardião do sonho
No centro deste universo feito de
dificuldades e esperança, ergue-se um nome incontornável: António Lemos.
Treinador, diretor técnico, ex-jogador, formador e construtor de sonhos. Lemos não é somente um nome da modalidade.
É o seu soba invisível, que conhece cada província como quem conhece as linhas da palma da mão. É coadjuvado por um treinador italiano, o seu braço direito.
Começou como jogador, com talento e ambição. Contudo, num gesto que revela o seu carácter, suspendeu a carreira competitiva para se dedicar aos estudos. Sabia que só com conhecimento se poderia semear o futuro.
Hoje, colhe os frutos dessa escolha, orientando, jovens, clubes e seleções com uma visão ampla e estruturada.
Formar no vazio, criar no nada
Lemos percorre o país com o olhar de quem
conhece cada província. Onde há jovens com vontade, ele vê campeões. Mesmo
quando faltam mesas, bolas ou transporte, há sempre treino — porque o mais
importante está nas pessoas.
Os treinos acontecem com o que há:
mesas improvisadas, bolas gastas, esperança renovada. E é ali, longe das
câmaras, que nascem os futuros talentos de Angola.
Alguns nomes já se destacam: Mateus Catumbela, Rosa
Nhanga, António Jamba e Anastácio Sapalalo.
No entanto, Hermenegildo Agnelo (joga no Abrantes, em Portugal), Edvane Neto (representa o Carapalha também equipa lusitana) e
Luís Mudil são os melhores jogadores angolanos do momento.
Dificuldades que não param o ritmo
As dificuldades são como um mar. A
começar pela falta de financiamento, que limita tudo: desde viagens até
material básico. Há também escassez de técnicos formados nas províncias,
raridade de competições internas e obstáculos no acesso a eventos africanos e internacionais.
A infraestrutura é frágil, e muitos
dos clubes funcionam sem sede, sem equipamentos — muitas vezes apoiados somente
pela boa vontade das comunidades.
No entanto, o ténis de mesa resiste e cresce lentamente.
Um novo mandato, o mesmo compromisso
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| Um voto de um delegado. |
Em dezembro do ano passado a FATM iniciou um novo capítulo com a reeleição de Manuel Morais para o mandato 2024–2028.
Na cerimónia de tomada de posse, o presidente reforçou a ambição de
continuar a fazer crescer a modalidade. E com objetivos claros: expandir o ténis
de mesa para além das atuais sete províncias e garantir a presença de Angola em
todas as provas nacionais e internacionais previstas no calendário.
“Podem acreditar em mim que trabalho não faltará”, afirmou aos jornalistas angolanos na época. O dirigente sublinhou ainda que o sucesso só será possível com o envolvimento de todos os agentes da modalidade. A meta estipulada é clara: criar condições para que o ténis de mesa floresça em cada canto do país — com organização, estrutura e visão.
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| O espírito do ténis de mesa em Angola. |
Comunidade e raízes: O espírito africano
O ténis de mesa angolano é como uma quizomba
tocada com raquetes: tem ritmo, alma e improviso. Cada jogo é mais do que uma
disputa — é um ato de dignidade. Cada ponto é uma vitória contra o
esquecimento.
A modalidade é, muitas vezes, o único
espaço onde jovens descobrem o que é foco, disciplina, respeito e ambição. Um
pequeno universo onde tudo é possível — mesmo sem patrocínios ou holofotes.
O sonho de elevar a modalidade
Angola sonha alto. É um direito de todos sonhar e os dirigentes angolanos querem que cada província tenha o seu centro de formação. Pretendem também que as escolas integrem o ténis de mesa no seu dia a dia, que haja intercâmbios com o país irmão, Portugal. Os outros países lusófonos, de África, não têm ténis de mesa federado.
Os angolanos acreditam na criação de um circuito nacional, na valorização na
formação contínua dos treinadores. Querem que a modalidade chegue a todas as
províncias do país.
Lemos partilha essa visão com clareza e sentido de missão:
“O estado da modalidade ainda não é o desejado conforme o nosso programa de
ação, todavia acreditamos melhorar com mais trabalho e apoios”, declarou em
exclusivo ao Entrar no Mundo das Modalidades.
Para ele, o amor à modalidade transforma-se em dever:
“Para quem jogou e ama esta linda e olímpica modalidade não pode deixar de partilhar os seus conhecimentos e experiências às futuras gerações. O meu sonho é ver a modalidade a ser praticada em todo o território angolano.”
E esse sonho já se esboça com medidas
práticas:
“Para breve as associações das províncias onde existem ténis de mesa, com o apoio do governo, apostarão na criação de centros de treino.”
África joga e ensina
Ao ver uma criança angolana a
jogar ténis de mesa com os pés descalços e os olhos iluminados, é impossível
não acreditar. Porque ali está tudo: a luta, a beleza, o orgulho e a
persistência.
O ténis de mesa em Angola não é só um
desporto — é uma lição de resiliência africana. É uma batida no tambor que ecoa
além das fronteiras, dizendo ao mundo que aqui se joga com o coração.
E enquanto houver uma mesa, uma raquete e uma criança disposta a aprender, Angola continuará a jogar e a ensinar, sonhando com os maiores palcos africanos e mundiais.
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