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Entre raquetes, redes e egos: o campeonato invisível das famílias

🖋️Por: António Vieira Pacheco

📸 Créditos: Entrar no Mundo das Modalidades

⏱️ Tempo de leitura: 5 minutos
Famílias querem entrar em competição.

 Nos desportos de raquete — ténis, ténis de mesa ou badminton — existem sempre dois jogos em andamento.

O primeiro é o oficial, jogado em campo: árbitro, regras, pontos e um vencedor.
O segundo, muito mais antigo e inflamado, acontece fora das linhas: nas bancadas, nas mesas de jantar, nas redes sociais e nos corredores dos clubes.
É o campeonato invisível das comparações familiares.

Geração contra geração

O jovem corre rápido, dispara ‘top’ ‘spins’ que deixam adversários à beira da exaustão. Faz as movimentações corretas. Poderia ser motivo de orgulho. Mas, para alguns familiares, o talento não é celebração — é provocação.

“Na minha época, não havia estas raquetes com borrachas adaptadas para quaisquer tipo de jogo. Se tivesse tido esse treinador, também chegava ao topo.”

O court transforma-se num espelho deformado: cada ponto marcado hoje é medido pela régua de ontem, como se o jogo fosse o mesmo, quando tudo já mudou.

Há outros que querem que os filhos sejam campeões à força. Remetem as expectativas em alta. Após perdem encontros e ficam desmotivados e abandonam a carreira desportiva.

Famílias como claques… e árbitros ao mesmo tempo

A família devia ser como a rede no ténis de mesa: firme, silenciosa, permitindo que a bola siga o seu caminho.
Mas, muitas vezes, transforma-se num árbitro invisível, dirigindo a partida sem ninguém ter solicitado. A bola bateu na mesa, ou foi para fora da área de jogo.

A rivalidade entre famílias é ainda mais intensa. Basta um ponto espetacular para que sussurros se espalhem na bancada:
— Viste? Ele nunca falha aquele smash.
— Pois…, mas o meu tem mais qualidade no serviço.

E pronto. Duas famílias que trocaram sorrisos na chegada tornam-se adversárias silenciosas, cruzando olhares afiados a cada ponto, como se cada acerto ou erro fosse uma flecha lançada em silêncio.

Muitas vezes, os atletas são amigos. Muitas vezes, ficam zangados por uma guerrilha desnecessária.
O pior ainda são as guerras regionais: defender os atletas da própria terra.
Não é só orgulho; é uma disputa por território simbólico, como se cada ponto no court ou na mesa fosse também um ponto na honra familiar.

O court como metáfora da vida

O court é a metáfora perfeita das relações familiares no desporto.
Há linhas — que deviam ser claras.
Existem regras — que deviam ser respeitadas.

Tal como num tiebreak tenso, todos parecem querer ganhar, mesmo que a vitória não valha nada fora dali.
Se pudesse escolher, aconselharia o papel de ball boy ou shuttle boy: recolher a bola ou o volante, devolver ao jogo e permanecer invisível.

Mas, nas famílias, essa neutralidade é raramente aceite. Todos querem ser treinadores, preparadores físicos, fisioterapeutas, comentadores e árbitros simultaneamente.

O peso invisível das expectativas

A raquete na mão parece leve, mas o peito do atleta está esmagado por uma mochila invisível. Ela está carregada de medalhas antigas que não conquistou, sussurros de “na minha época…” e expectativas que nem cabem nas costas.

No ténis: “Jogas bem, mas devias treinar o serviço como eu treinava.
No ténis de mesa: “O teu ‘top’ ‘spin’ está bom, mas no meu tempo eu era mais rápido na execução do gesto técnico.”

Cada frase destas é um ponto contra no jogo mental. E, somadas ao longo da época, pesam mais do que qualquer derrota.

O amor de família devia ser como um ás: direto, limpo e impossível de devolver.
Por vezes, vem, com efeito, lateral — cheio de estatísticas antigas, “se fosse eu…” e “na minha época de jogador…”.

No ténis de mesa, pais contam os erros não forçados mais rápido do que o marcador oficial.  Aquele jogador tem mais apoios do que o meu filho. 

Há olhares que também avaliam antes de aplaudir, cortando o entusiasmo do jovem jogador.
Quando todos deviam jogar na mesma equipa

O que mais custa é perceber que quem devia proteger é quem mais pressiona.
Não por maldade, mas por incapacidade de separar o próprio ego do percurso do atleta.

Houve promessas que não aguentaram a pressão e abandonaram o desporto.
Já vi jogadores de ténis perderem a calma por um aceno negativo do pai.
Jovens de ténis de mesa desistirem porque o tio corrigia tudo.

Enquanto se discutem comparações e ‘rankings’ imaginários, esquece-se de que o adversário verdadeiro está do outro lado da rede — não na bancada ao seu lado.

As minhas quatro regras para o fair play familiar

Se pudesse escrever o regulamento deste campeonato invisível, teria somente quatro pontos:

1.    O único oponente é quem está do outro lado do court.

2.    As vitórias são individuais, mas o orgulho pode — e deve — ser partilhado.

3.    Comparações são faltas emocionais e deviam valer perda de ponto.

4.    O maior troféu é ver o atleta feliz, seja ele “o meu” ou “o seu”.

No fim, quando a rede é desmontada, as raquetes guardadas e o silêncio volta ao pavilhão ou ao campo de ténis, os pontos familiares desaparecem.
Ficam as memórias do público silencioso que aplaudiu com o coração acelerado, sem levantar a voz em competição — apenas para sentir cada ponto, cada esforço, cada sorriso do atleta.

Porque o desporto, ao contrário da vida, tem finais claros.
E, na vida, o verdadeiro match point é conseguir estar presente, aplaudir e apoiar… sem nunca retirar o protagonismo de quem está em jogo.

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