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Hugo Calderano: O brasileiro que desafia o Império chinês do Ténis de Mesa

                                                             Por António Vieira Pacheco

O frente a frente com os chineses, da nova coqueluche do ténis de mesa mundial.
Créditos: Direitos Reservados. 


Na história recente do ténis de mesa, poucos ousaram enfrentar o império chinês de igual para igual. Hugo Calderano, brasileiro nascido fora das potências tradicionais da modalidade, ergue-se como essa exceção poética — uma centelha de rebeldia num mundo moldado pela perfeição oriental.

Mais do que talento, o que define Calderano, atual cinco do mundo, é a coragem. Não é figura decorativa no ‘ranking’ — é uma presença incómoda para os melhores do planeta. O líder mundial Li Shidong nunca o derrubou, tendo duas derrotas amealhadas. O atual número dois ITTF e campeão mundial, Wang Chuqin, também já sentiu o peso do seu braço por duas vezes. Em seis confrontos, o brasileiro venceu dois — uma marca rara num desporto onde os chineses costumam ser inalcançáveis.

Fan Zhendong, bicampeão mundial e figura dominante da última década que se já retirou do circuito, também já foi vencido pelo brasileiro. A mais emblemática das duas vitórias surgiu em março de 2024, nas meias-finais do WTT Champions de Incheon, onde venceu por 4-2, abrindo caminho até à final.

Contra Liang Jingkun, número quatro mundial, Calderano alcançou o seu primeiro triunfo em cinco encontros em junho de 2024, no WTT Champions de Chongqing, em solo chinês. Uma vitória simbólica, conquistada no coração do adversário.

Mas há mais nomes no seu caminho. Contra Xiang Peng e Lin Gaoyuan, soma duas vitórias em três duelos com cada um — números que falam de consistência, não de acaso.

Estes dados não são meras estatísticas — são capítulos de uma narrativa que rompe fronteiras. Calderano não foi moldado em centros de excelência. Formou-se na paixão, no sacrifício e na vontade de provar que um brasileiro podia sonhar entre os gigantes.

Na mesa, joga com técnica, sim, mas também com alma. Há intensidade no seu olhar, risco no seu jogo e uma espécie de poesia em cada pancada. Não representa só um país — representa a possibilidade de que o mundo pode ser maior do que os favoritos.

E assim, o sul-americano continua a sua saga. Um brasileiro contra o mundo. Um artista que desafia a perfeição, ponto a ponto.

Há dias, ergueu a Taça do Mundo, em território chinês, Macau, vencendo os dois primeiros do ‘ranking’ mundial, que jogavam perante o seu público. Para a cereja ficar em cima do bolo, também se impôs ao número três, o japonês Tomakazu Harimoto.

 


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